Doze dias de humilhação transmitida ao vivo, depois o silêncio
Na França, dois criadores de conteúdo digital enfrentam a justiça por terem transformado a violência e a humilhação em espetáculo lucrativo, transmitido ao vivo para centenas de milhares de pessoas durante anos. O caso, que gerou centenas de milhares de euros em receita, ganhou contornos trágicos com a morte de um dos participantes após doze dias ininterruptos de transmissão. O julgamento coloca em evidência uma questão que transcende o tribunal: até onde a cumplicidade do público e a omissão das plataformas digitais tornam todos nós partícipes do que escolhemos consumir.
- Durante anos, cenas de agressão física, insultos e humilhação foram transmitidas ao vivo para quase 200 mil inscritos, gerando receitas de centenas de milhares de euros para os organizadores e participantes.
- A morte de Jean Pormanove, 27 anos, enquanto dormia durante uma transmissão ao vivo após 12 dias consecutivos de exibição de violência, transformou um caso policial em tragédia humana de repercussão nacional.
- A linha entre encenação e abuso real permanece no centro do julgamento: todos os envolvidos alegaram que a violência era combinada para atrair audiência, mas testemunhos e imagens contradizem essa versão.
- Mesmo com o processo em andamento, o canal foi retomado por um familiar dos acusados em outra plataforma, com novos registros de agressões — o que levou o Ministério Público a abrir uma segunda investigação.
- Uma investigação paralela em Paris mira a plataforma Kick, questionando se a empresa remunerava os streamers e o que fez — ou deixou de fazer — para prevenir os abusos documentados.
Owen Cenazandotti, conhecido como Naruto, e Safine Hamadi, proprietários do canal Lokal, estão sendo julgados na França por violência em grupo, abuso de pessoa vulnerável, divulgação de imagens violentas e incitação ao ódio. O caso veio à tona no final de 2024, quando o site Mediapart revelou vídeos brutais transmitidos pela plataforma australiana Kick, a partir de Contes, perto de Nice, para quase 200 mil inscritos.
As imagens mostravam um homem chamado Graven sendo insultado, agredido, ameaçado e atingido por disparos de paintball sem proteção. Outro participante com deficiência, Coudoux, também aparecia como alvo. Naruto e Safine foram detidos em janeiro de 2025, mas todos os envolvidos — acusados e vítimas — afirmaram que a violência era encenada para atrair audiência e dividir a receita entre os participantes. Todos foram liberados. Os números revelam a dimensão do negócio: entre 2022 e 2025, Naruto acumulou quase 460 mil euros, Safine mais de 200 mil, e Graven recebeu ao menos 140 mil euros de diversas plataformas.
A tragédia chegou na noite de 17 de agosto de 2025. Jean Pormanove, de 27 anos, morreu enquanto dormia durante uma transmissão ao vivo, após 12 dias consecutivos de exposição a violência e humilhação. A autópsia não identificou lesões traumáticas que explicassem o óbito e afastou a participação de terceiros, razão pela qual Naruto e Safine não foram indiciados pela morte — mas foram novamente detidos em janeiro de 2026 e formalmente colocados sob investigação.
Familiares de Graven descreveram-no como alguém que vivia a melhor fase da vida ao lado dos dois jovens, a quem chamava de irmãos. Um ex-militar que o conhecia, porém, o via como uma pessoa ingênua sendo manipulada. Após a morte de Pormanove, a Kick baniu o canal — mas em setembro o irmão mais novo de Naruto retomou as transmissões pela Twitch, a partir do mesmo endereço, com registros de novos insultos e sons de agressões. O Ministério Público de Nice abriu outra investigação, apreendeu equipamentos e impôs medidas restritivas ao local. Em paralelo, uma investigação em Paris apura o papel da plataforma Kick no financiamento e na omissão diante dos abusos.
Dois streamers franceses estão sendo julgados por terem transmitido ao vivo cenas de violência e humilhação contra colegas em seu canal online durante anos, gerando centenas de milhares de euros em receita enquanto documentavam abusos que culminaram na morte de um deles. Owen Cenazandotti, conhecido como Naruto, e Safine Hamadi, ambos proprietários do canal Lokal, enfrentam acusações de violência em grupo, abuso de pessoa vulnerável, divulgação de imagens violentas e incitação ao ódio. O caso veio à tona no final de 2024, quando o site Mediapart revelou a existência de vídeos brutais transmitidos a partir de Contes, perto de Nice, pela plataforma australiana Kick, para quase 200 mil inscritos.
Os vídeos mostram um homem chamado Graven sendo insultado, agredido, tendo os cabelos puxados, sendo ameaçado e atingido por disparos de paintball sem proteção durante transmissões ao vivo. Outro participante, Stéphane G., conhecido como Coudoux, uma pessoa com deficiência, também aparecia como alvo de agressões. Em um dos episódios, um menor foi arremessado sobre Graven durante uma luta simulada. A Justiça abriu investigação após a divulgação dessas imagens, e Naruto e Safine foram detidos em janeiro de 2025. No entanto, todos os envolvidos — tanto os acusados quanto as vítimas — afirmaram que a violência era encenada para atrair audiência e incentivar contribuições financeiras dos espectadores, cuja receita seria dividida entre os participantes. Todos foram liberados.
Os números revelam a escala do empreendimento. Entre 2021 e 2025, Graven recebeu pelo menos 140 mil euros de diversas plataformas. Naruto acumulou quase 460 mil euros entre 2022 e 2025, enquanto Safine recebeu mais de 200 mil euros no mesmo período. As investigações continuaram por oito meses, durante os quais o canal Lokal permanecia ativo na plataforma Kick, com Naruto, Safine, Jean Pormanove e Coudoux realizando novas transmissões.
A situação mudou drasticamente na noite de 17 de agosto de 2025. Jean Pormanove, de 27 anos, morreu enquanto dormia durante uma transmissão ao vivo, após 12 dias consecutivos de exibição de cenas de violência e humilhação. Uma investigação foi aberta para determinar as causas da morte. A autópsia, realizada poucos dias depois, não identificou lesões traumáticas internas ou externas que pudessem explicar o óbito. Os peritos afastaram a hipótese de participação de terceiros, razão pela qual Naruto, Safine e as demais pessoas presentes no local não foram processados pela morte.
A morte de Pormanove reacendeu o interesse no caso original. Naruto e Safine foram novamente detidos em 27 de janeiro e formalmente colocados sob investigação. Familiares de Graven afirmaram que ele tinha saúde frágil e vivia de trabalhos informais após anos de serviço no Exército, mas que estava vivendo "a melhor fase de sua vida" ao lado dos dois jovens, a quem chamava de "irmãos mais novos". Um militar aposentado que foi amigo de Graven, porém, o descreveu como uma pessoa "ingênua" e afirmou acreditar que ele estava sendo "manipulado".
Paralelamente ao processo em Nice, uma investigação sobre a plataforma Kick está em andamento em Paris para apurar se a empresa remunerava os streamers e quais medidas adotou para prevenir abusos após a morte de Pormanove. Mandados foram expedidos para interrogar os administradores da plataforma australiana. Após a morte, a Kick baniu o canal Lokal. Em setembro, porém, Gwen Cenazandotti, irmão mais novo de Naruto, retomou as transmissões com antigos participantes frequentes do canal a partir do mesmo endereço em Contes, desta vez pela plataforma Twitch. Trechos divulgados pelo Mediapart mostram os participantes trocando insultos e, com a câmera desligada, sons de agressões e risadas. Diante desses novos elementos, o Ministério Público de Nice abriu outra investigação. Equipamentos de informática foram apreendidos e o local passou a ser alvo de medidas restritivas determinadas pelas autoridades.
Citas Notables
Graven estava vivendo a melhor fase de sua vida ao lado dos dois jovens, a quem chamava de irmãos mais novos— Familiares de Graven
Graven era uma pessoa ingênua e estava sendo manipulado— Militar aposentado, amigo de Graven
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como é possível que algo assim tenha continuado por tanto tempo sem intervenção?
A resposta está em como essas plataformas funcionam. A Kick é australiana, opera de longe, e o modelo de negócio depende de manter criadores ativos. Ninguém estava olhando de perto até que o Mediapart expôs tudo.
Mas as vítimas — Graven, Coudoux — elas realmente acreditavam que era tudo encenado?
Essa é a questão mais perturbadora. Graven tinha saúde frágil, vivia sozinho, e de repente tinha "irmãos mais novos" que o incluíam em algo. Pode ter parecido aceitação. Ou manipulação. Provavelmente ambas.
E a morte de Pormanove? Como alguém morre dormindo durante uma transmissão ao vivo?
A autópsia não encontrou nada — sem lesões, sem sinais de violência. Mas 12 dias consecutivos de humilhação, sem dormir direito, sob pressão para manter a audiência... o corpo tem limites.
Por que o canal foi retomado tão rapidamente em outra plataforma?
Porque o dinheiro não parou. Gwen, o irmão mais novo de Naruto, viu uma oportunidade. A Twitch é maior que a Kick. Ele provavelmente pensou que ninguém estaria olhando.
Alguém está realmente responsabilizando a plataforma?
Paris está investigando. Mas a Kick é estrangeira, os streamers são franceses, as vítimas estão espalhadas. É um caso que expõe como as plataformas lucram com conteúdo que ninguém deveria estar produzindo.