Um nível de 15% de juros é inviável
Em um movimento que entrelaça crise e renascimento, o St Marche — rede paulista de supermercados premium — pediu recuperação judicial na madrugada de 24 de junho de 2026 e, horas depois, anunciou sua venda à gigante chilena Cencosud, detentora de US$ 17,4 bilhões em vendas globais. A transação, cujo valor permanece confidencial, é o desfecho de uma expansão ambiciosa no pós-pandemia que colidiu com juros que saltaram de 2% para 15%, tornando insustentável o modelo construído ao longo de duas décadas. A recuperação judicial não é o fim, mas o instrumento jurídico escolhido para proteger a venda e garantir que colaboradores, fornecedores e clientes atravessem a transição com segurança.
- Um credor insatisfeito pediu a extinção da recuperação extrajudicial concluída em outubro de 2025, abrindo um rombo no caixa e ameaçando desfazer meses de negociação com a Cencosud.
- A Selic a 15% tornou insustentável a dívida de R$ 528 milhões acumulada durante a expansão de 21 para 32 lojas entre 2021 e 2024, levando o St Marche a atrasar fornecedores e ver produtos sumirem das prateleiras.
- Para desbloquear a venda já acordada, St Marche e Cencosud decidiram acelerar o pedido de recuperação judicial como escudo jurídico que viabiliza e protege a transação.
- R$ 25 milhões serão aportados imediatamente para manter operações intactas durante os cerca de nove meses que o processo judicial deve durar, enquanto o Cade inicia sua análise antitruste.
- Se aprovada, a aquisição entrega ao St Marche um dos maiores varejistas globais como novo proprietário, preservando a marca e abrindo caminho para retomada do crescimento.
Na madrugada de 24 de junho, o St Marche pediu recuperação judicial. Horas depois, veio o anúncio que a rede aguardava: a Cencosud, gigante chilena com mais de 1.440 lojas em seis países e US$ 17,4 bilhões em vendas globais, havia fechado acordo para comprar 100% da empresa. O preço não foi revelado, e a transação depende de uma condição essencial — a homologação do próprio pedido de recuperação judicial recém-protocolado.
O timing incomum tem uma lógica precisa. As negociações com a Cencosud vinham avançando desde o quarto trimestre de 2025, mas um credor insatisfeito pediu a extinção da recuperação extrajudicial concluída com sucesso em outubro do ano anterior, abrindo um buraco no fluxo de caixa e travando a operação de venda. Bernardo Ouro Preto, cofundador e CEO há 24 anos, explicou que a recuperação judicial era o caminho necessário para desbloquear e blindar a transação. Ele permanecerá no comando ao menos até a conclusão do processo, previsto para cerca de nove meses.
A crise tem raízes na combinação de expansão agressiva e juros nas alturas. Entre 2021 e 2024, o St Marche cresceu de 21 para 32 lojas e dobrou o faturamento para R$ 1,3 bilhão — mas a Selic disparou de 2% para 15%, tornando o modelo insustentável. Fornecedores passaram a receber com atraso e produtos desapareceram das prateleiras. Em abril de 2025, a rede iniciou renegociação de R$ 528 milhões em dívidas, com aportes do fundo L Catterton e do BTG. Parecia que o pior havia ficado para trás.
Não ficou. A movimentação do credor insatisfeito reabriu as feridas e forçou a aceleração do plano. Nos próximos dias, R$ 25 milhões em capital adicional serão injetados para manter operações, colaboradores e clientes protegidos durante a transição. O Cade ainda precisa aprovar a aquisição. Se tudo correr conforme planejado, em cerca de nove meses a Cencosud terá consolidado seu novo ativo brasileiro — e o St Marche terá sobrevivido para crescer sob novo dono.
Na madrugada de quarta-feira, 24 de junho, o St Marche pediu recuperação judicial. Horas depois, veio o anúncio que a rede esperava: a Cencosud, gigante chilena do varejo, havia fechado acordo para comprar 100% da empresa. O preço não foi revelado. A transação, porém, depende de uma condição: a homologação desse pedido de recuperação judicial que acabava de ser feito.
O timing parece estranho, mas responde a uma lógica de sobrevivência. As negociações com a Cencosud vinham acontecendo desde o quarto trimestre de 2025. O que mudou agora foi a pressão de um credor que pediu a extinção da recuperação extrajudicial anterior — aquela que o St Marche havia concluído com sucesso em outubro do ano passado. Esse movimento inesperado abriu um buraco no fluxo de caixa e atrasou toda a operação de venda. Bernardo Ouro Preto, cofundador e CEO há 24 anos, explicou ao Estadão que a recuperação judicial era necessária para desbloquear a transação. "A transação com a Cencosud está fechada e acordada, mas tem a condição precedente que é o fim da recuperação judicial", disse.
A Cencosud não é um comprador qualquer. Em 2025, registrou US$ 17,4 bilhões em vendas globais e opera mais de 1.440 lojas em seis países. Para Ouro Preto, a aquisição garante que o St Marche "continue existindo e crescendo junto a uma empresa que é uma dos maiores players globais do varejo". Ele permanecerá como CEO pelo menos até a conclusão do processo de recuperação judicial, que pode levar cerca de nove meses. Nos próximos dias, R$ 25 milhões em capital adicional serão aportados para reforço de caixa, mantendo a operação intacta com colaboradores e clientes.
O que levou o St Marche a esse ponto? A resposta está na combinação de duas forças. Depois da pandemia, a rede expandiu agressivamente: saiu de 21 lojas e R$ 700 milhões em faturamento em 2021 para 32 lojas e R$ 1,3 bilhão em receitas em 2024. Ao mesmo tempo, a taxa Selic disparou de mínimas históricas de 2% para 15%. Juros nesse patamar tornaram insustentável o modelo de negócio. A empresa começou a atrasar pagamentos a fornecedores e produtos desapareceram das prateleiras. "Um nível de 15% de juros é inviável", resumiu Ouro Preto.
Em abril do ano passado, o St Marche iniciou um processo de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 528 milhões em dívidas. O fundo americano L Catterton, dono de 70% da rede, aportou R$ 45 milhões. Um fundo do BTG, que tinha mais de R$ 280 milhões em créditos do grupo, contribuiu com R$ 45 milhões adicionais através de um DIP — um tipo de empréstimo para empresas em dificuldade. Em outubro, o processo foi concluído com sucesso. Parecia que o pior havia passado.
Mas oito meses depois, aquele credor insatisfeito moveu para encerrar a recuperação extrajudicial, reabrindo feridas. Foi quando a Cencosud e o St Marche decidiram acelerar: pedir recuperação judicial como forma de homologar e blindar a venda. A transação ainda precisa do aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que começa a análise agora. Se tudo correr conforme o planejado, em cerca de nove meses a recuperação judicial estará concluída e a Cencosud terá seu novo ativo brasileiro consolidado.
Citas Notables
A aquisição vai garantir que o St Marche continue existindo e crescendo junto a uma empresa que é uma dos maiores players globais do varejo— Bernardo Ouro Preto, CEO do St Marche
A transação com a Cencosud está fechada e acordada, mas tem a condição precedente que é o fim da recuperação judicial— Bernardo Ouro Preto
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o St Marche precisou pedir recuperação judicial agora, se já tinha saído de uma em outubro?
Um dos credores pediu para encerrar a recuperação extrajudicial anterior. Isso abriu um buraco no caixa e atrasou a venda para a Cencosud. A recuperação judicial é uma forma de homologar a transação de forma segura.
Então a venda já estava fechada quando fizeram o pedido?
Sim. O acordo com a Cencosud estava pronto. A recuperação judicial é uma condição precedente — precisa ser homologada para que a venda se complete.
O que causou a crise original do St Marche?
Dois fatores juntos. A rede expandiu de 21 para 32 lojas entre 2021 e 2024. Ao mesmo tempo, os juros subiram de 2% para 15%. Com juros tão altos, a empresa não conseguia pagar fornecedores.
E agora, com a Cencosud, o problema se resolve?
A Cencosud é um gigante global com US$ 17,4 bilhões em vendas. Tem escala, acesso a crédito e experiência. O St Marche passa a fazer parte de uma estrutura muito maior.
Quanto tempo vai levar tudo isso?
O processo de recuperação judicial pode levar cerca de nove meses. Enquanto isso, R$ 25 milhões serão aportados para manter a operação funcionando normalmente.
E os funcionários?
A operação segue intacta com colaboradores e clientes. Não há cortes anunciados durante a transição.