A solidão está presente em praticamente todas as chamadas
Criada em 1997 para amparar estudantes universitários em Coimbra, a linha SOS Estudante tornou-se, quase três décadas depois, um espelho inesperado da solidão contemporânea: são os adultos e os idosos — não os jovens — quem mais marca presença do outro lado da linha. O dobro das chamadas no último ano letivo revela menos uma crise geracional do que uma fome humana mais ampla de ser ouvido, lembrando-nos que o isolamento não respeita idades nem categorias.
- O número de chamadas duplicou num único ano letivo, sinalizando uma procura crescente que ultrapassa em muito o público originalmente previsto.
- Mais de metade das chamadas vêm de adultos entre os 36 e os 64 anos e de idosos, deixando os adolescentes — o grupo mais vulnerável segundo os especialistas — sub-representados no serviço.
- Os suicídios de dois alunos na Escola Secundária de Castro Daire, em Viseu, expuseram a urgência de respostas mais robustas nas comunidades escolares, onde todos os que ficam também precisam de apoio.
- Trinta e três voluntários estudantes, sem qualquer remuneração, sustentam o serviço entre as oito da noite e a uma da manhã, conscientes de que a escuta ativa tem limites que nem sempre é possível ultrapassar.
- Especialistas e responsáveis da linha convergem num apelo: reforçar o acompanhamento psicológico profissional nas escolas e encorajar os mais jovens a pedir ajuda, reconhecendo esse gesto como um ato de coragem e não de fraqueza.
A linha SOS Estudante nasceu em Coimbra em 1997 com um propósito preciso: ser um porto seguro para universitários que se sentiam sós. Quase três décadas depois, o serviço continua ativo, mas o rosto de quem liga mudou de forma surpreendente. No Dia Mundial da Saúde Mental, Rita Neves, presidente da linha e voluntária desde 2021, revelou que 52% das chamadas provêm de adultos entre os 36 e os 64 anos e 17% de idosos. Os estudantes, razão de ser original do serviço, ficaram em segundo plano.
O crescimento da procura é assinalável: no ano letivo 2024-2025 registaram-se 1.799 chamadas, um aumento superior a 100% face ao período anterior. Mas o conteúdo dessas conversas desafia o rótulo de linha de prevenção do suicídio. A maioria das chamadas gira em torno de relações amorosas, conflitos familiares e, sobretudo, solidão. Há quem ligue em silêncio, incapaz de falar, encontrando conforto apenas em saber que existe alguém do outro lado. Rita Neves sublinha que a solidão atravessa praticamente todas as conversas, independentemente do tema aparente.
O serviço funciona entre as oito da noite e a uma da manhã, sustentado por 33 voluntários — todos estudantes do ensino superior de Coimbra — que passaram por uma formação de 30 horas e não recebem qualquer compensação financeira. Neves é clara sobre os limites do que oferecem: apoio primário, não psicológico. Há chamadas que nunca se esquecem, e aceitar que nem sempre é possível fazer mais é a parte mais difícil do trabalho.
O contexto torna tudo mais urgente. Os suicídios recentes de dois alunos na Escola Secundária de Castro Daire, em Viseu, ilustram o impacto devastador destas tragédias nas comunidades escolares. Para Rita Neves, não basta apoiar quem está mais próximo da crise: toda a escola é afetada e toda a escola precisa de acompanhamento. A mensagem que deixa é dupla — pedir ajuda é um ato de coragem, e estar atento a quem nos rodeia pode, literalmente, salvar vidas.
A linha SOS Estudante nasceu em 1997 em Coimbra com um propósito claro: oferecer apoio emocional aos estudantes universitários que se sentiam isolados. Quase três décadas depois, a linha continua a funcionar, mas o seu público mudou de forma inesperada. Hoje, a maioria das pessoas que ligam não são os jovens para quem o serviço foi criado, mas adultos e idosos que procuram alguém para ouvir.
No Dia Mundial da Saúde Mental, Rita Neves, presidente da linha e voluntária desde 2021, revelou números que desafiam as expectativas iniciais. Das chamadas recebidas, 52% provêm de adultos com idades entre 36 e 64 anos, enquanto 17% são de idosos. Os jovens adultos e estudantes ocupam um lugar secundário, e os adolescentes são ainda mais raros. A explicação não reside na falta de divulgação—a linha é amplamente conhecida nas faculdades e escolas—mas numa relutância dos mais jovens em procurar ajuda através de linhas de apoio.
O crescimento da procura tem sido notável. No ano letivo 2024-2025, a linha registou um aumento exponencial de mais de 100%, totalizando 1.799 chamadas. Este número pode indicar que as pessoas sentem cada vez mais necessidade de falar, ou que o serviço está a alcançar um público progressivamente mais vasto. Apesar de ser designada como linha de prevenção do suicídio, a realidade das conversas é diferente. A maioria das chamadas aborda relações amorosas, conflitos familiares, amizades problemáticas e, acima de tudo, solidão. Muitas pessoas ligam simplesmente para conversar sobre o seu dia, frequentemente a primeira conversa que têm com alguém nesse período.
A linha recebe também chamadas de silêncio—pessoas que não conseguem falar, mas encontram conforto apenas em saber que há alguém do outro lado da linha. Rita Neves sublinha que a solidão é um fio condutor presente em praticamente todas as conversas, independentemente do tema aparente. O serviço funciona entre as oito da noite e a uma da manhã, operado por 33 voluntários, todos estudantes de diferentes áreas do ensino superior de Coimbra. Cada voluntário passou por um processo rigoroso de recrutamento e uma formação de 30 horas que os prepara para lidar com diversos tipos de chamadas. Nenhum deles recebe compensação financeira; a gratificação é saber que estão a fazer diferença.
Rita Neves é clara sobre as limitações do serviço. A linha oferece apoio primário, não psicológico. É um porto seguro para quem está em crise ou precisa urgentemente de falar, mas não substitui o acompanhamento profissional. Quando esteve no atendimento, Neves aprendeu que o mais difícil é aceitar que a ajuda que podem oferecer é limitada. Através de um telefone, mesmo acreditando no poder da escuta ativa, nem sempre é possível salvar uma vida. Há chamadas que nunca se esquecem.
O contexto atual torna este trabalho ainda mais urgente. Especialistas alertam para um aumento de comportamentos autolesivos entre jovens, e casos recentes como os suicídios de dois alunos na Escola Secundária de Castro Daire, em Viseu, demonstram o impacto devastador que estas tragédias têm nas comunidades escolares. Rita Neves defende que não é apenas quem está mais próximo que precisa de acompanhamento especializado, mas toda a escola, porque todos são afetados pelo que aconteceu. A mensagem que deixa no Dia Mundial da Saúde Mental é dupla: pedir ajuda é um ato de coragem, e estar atento a quem nos rodeia pode salvar vidas.
Citas Notables
Pedir ajuda é um ato de coragem e estar atento a quem nos rodeia pode salvar vidas— Rita Neves, presidente da SOS Estudante
A maioria das chamadas não está relacionada com suicídio, mas com relações amorosas, familiares, de amizade e solidão— Rita Neves
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Porque é que a linha recebe mais chamadas de adultos do que de estudantes, sendo que foi criada especificamente para estes?
Não é por falta de divulgação. A linha é bem conhecida nas faculdades e escolas. O problema é que os jovens simplesmente não estão tão abertos a pedir ajuda desta forma. Há uma barreira que não conseguimos ultrapassar apenas com publicidade.
E o que é que as pessoas realmente procuram quando ligam?
Pensávamos que seria principalmente sobre suicídio, mas a verdade é muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais profunda. Falam de relacionamentos, de família, de amigos. Mas por baixo de tudo isto está a solidão. Está em praticamente todas as chamadas.
Há muitas chamadas de silêncio, certo?
Sim. Pessoas que não conseguem falar, mas o simples facto de saber que há alguém do outro lado acalma-as. Muitas vezes ligam novamente depois. É como se precisassem de permissão para existir naquele espaço.
Como é que os voluntários lidam com o peso emocional disto?
É difícil. O mais duro é perceber que a nossa ajuda é limitada. Estamos ao telefone, acreditamos na escuta ativa, mas nem sempre conseguimos salvar alguém. Por isso temos apoio psicológico profissional disponível. Há chamadas que nunca se esquecem.
O aumento de 100% em chamadas significa que as coisas estão a piorar?
Pode significar isso, ou pode significar que mais pessoas estão a descobrir que podem ligar. Mas sim, há claramente mais pessoas que precisam de falar. E há especialistas a alertar para um aumento de comportamentos autolesivos entre jovens. Isso preocupa-nos.