Sono excessivo em idosos aumenta risco de perda de mobilidade, revela estudo

Perda de mobilidade em idosos está associada a maior risco de quedas, hospitalização, institucionalização e morte.
Manter músculo na velhice não é luxo — é saúde
Pesquisador explica por que a perda de mobilidade em idosos vai além do incômodo de caminhar mais lentamente.

Há algo que a medicina do envelhecimento começa a compreender com mais clareza: o corpo que repousa em excesso pode estar, silenciosamente, cedendo terreno. Uma pesquisa de oito anos conduzida por universidades brasileiras e britânicas revelou que homens acima de 60 anos que dormem mais de nove horas por noite perdem mobilidade de forma acelerada — um quarto da velocidade de caminhada ao longo do estudo. O sono longo e fragmentado, ao comprometer a testosterona e intensificar a inflamação crônica do envelhecimento, transforma o que parece descanso em fator de risco silencioso para a independência e a vida.

  • Homens idosos que dormem mais de nove horas por noite perdem até 25% da velocidade de caminhada em oito anos — um declínio que vai muito além do incômodo físico.
  • O sono prolongado raramente é reparador: fragmentado e com poucas fases profundas, ele sabota a liberação de testosterona e acelera a perda de massa muscular.
  • Um segundo mecanismo agrava o quadro — o inflammaging, inflamação crônica de baixo grau típica da velhice, é intensificado pelo sono excessivo e corrói o tecido musculoesquelético.
  • Mulheres não apresentaram a mesma vulnerabilidade, pois dependem de outros hormônios anabólicos, como IGF-1 e GH, tornando o risco específico ao perfil hormonal masculino.
  • A descoberta aponta para uma ferramenta preventiva de custo zero: perguntar a um idoso quantas horas ele dorme pode antecipar riscos de quedas, hospitalizações e perda de independência.

Um homem de 65 anos que dorme dez horas por noite pode estar, sem saber, comprometendo sua capacidade de caminhar. É o que indica uma pesquisa de oito anos conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Carlos e da University College London, com financiamento da FAPESP. O estudo acompanhou mais de 3.200 pessoas com 60 anos ou mais — todas sem problemas prévios de mobilidade — e constatou que homens com sono regular acima de nove horas perderam até um quarto de sua velocidade de marcha ao longo do período. Os resultados foram publicados no Journal of the American Medical Directors Association.

O problema não está simplesmente na quantidade de horas dormidas. Segundo Tiago da Silva Alexandre, professor de Gerontologia da UFSCar e autor principal do estudo, quem dorme mais de nove horas tende a ter um sono fragmentado, com poucas fases profundas. Essa baixa qualidade compromete a liberação de testosterona, hormônio essencial para a manutenção da massa muscular em homens. Paralelamente, o sono prolongado e interrompido intensifica o inflammaging — uma inflamação crônica de baixo grau característica do envelhecimento que degrada o tecido musculoesquelético, inibe a síntese de proteínas e reduz força e massa muscular.

As mulheres não apresentaram a mesma associação. A coautora Patrícia Silva Tofani, da Universidade Federal de Sergipe, explica que o perfil hormonal feminino depende mais de IGF-1 e GH no anabolismo muscular, o que torna o sono excessivo menos impactante para sua mobilidade. Outro dado relevante: a insônia e as noites curtas não prejudicaram os homens — o risco está especificamente no excesso e na fragmentação do sono.

Para idosos, a recomendação é dormir entre seis e nove horas por noite. E o maior legado prático do estudo pode ser sua simplicidade: uma única pergunta sobre padrões de sono pode se tornar um marcador acessível e barato para identificar quem está em risco de perder mobilidade — e, com ela, a independência, a segurança e a própria vida.

Um homem de 65 anos que dorme dez horas por noite pode estar colocando sua capacidade de caminhar em risco sem saber. Uma pesquisa de oito anos conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Carlos e da University College London, financiada pela FAPESP, descobriu que homens com mais de 60 anos que dormem regularmente acima de nove horas apresentam declínio significativo na velocidade de marcha — perdendo até um quarto de sua velocidade inicial ao longo do período estudado.

O trabalho acompanhou 3.208 pessoas, sendo 1.582 homens e 1.626 mulheres, todos com 60 anos ou mais, recrutados do Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento. Os pesquisadores selecionaram apenas indivíduos sem problemas prévios de mobilidade, criando um grupo de controle limpo para observar como o padrão de sono afetava a capacidade de movimento ao longo dos anos. Os resultados foram publicados no Journal of the American Medical Directors Association.

O que torna essa descoberta particularmente relevante é sua simplicidade como ferramenta de prevenção. Perguntar a um homem idoso quantas horas ele dorme por noite pode se tornar um marcador barato e acessível para identificar quem está em risco de perder mobilidade — um problema que vai muito além do incômodo de caminhar mais lentamente. A lentidão da marcha em idosos está diretamente ligada a quedas, hospitalizações, perda de independência e até morte.

Mas por que dormir demais prejudica especificamente os homens? Tiago da Silva Alexandre, professor de Gerontologia da UFSCar e autor principal do estudo, explica que o problema não está simplesmente nas horas dormidas. Pessoas que dormem mais de nove horas tendem a ter um sono fragmentado, cheio de interrupções e com poucas fases profundas. Esse sono de longa duração mas baixa qualidade compromete a liberação de testosterona, hormônio crucial para manter a massa muscular, especialmente em homens. O resultado é uma aceleração da perda de velocidade na caminhada.

Além do fator hormonal, existe um segundo mecanismo em jogo: o sono prolongado e interrompido intensifica um processo chamado inflammaging, uma inflamação crônica de baixo grau característica do envelhecimento. Essa condição degrada as células do tecido musculoesquelético, inibe a síntese de proteínas e reduz força e massa muscular. Como Alexandre aponta, manter músculo na velhice não é luxo — é saúde. O sistema imunológico e o sistema endócrino dependem do sistema muscular para funcionar adequadamente.

Um detalhe intrigante dos resultados é que as mulheres não apresentaram a mesma associação entre sono prolongado e perda de mobilidade. Patrícia Silva Tofani, coautora do artigo e professora da Universidade Federal de Sergipe, explica que o perfil hormonal feminino funciona diferentemente. Nas mulheres, outros hormônios como IGF-1 e GH desempenham papéis mais relevantes no anabolismo muscular do que a testosterona, o que explica por que o sono excessivo não teve impacto significativo em sua mobilidade.

Os pesquisadores também observaram que insônia e noites curtas de sono não prejudicaram a mobilidade dos homens — o risco específico está no sono excessivo e fragmentado, não na falta de sono. Para idosos, a recomendação é dormir entre seis e nove horas por noite, diferente dos adultos mais jovens, para quem sete a oito horas é o ideal. O desafio agora é transformar essa descoberta em prática clínica, usando uma pergunta simples sobre padrões de sono como estratégia de prevenção.

Embora durmam mais horas, essas pessoas tendem a ter um sono mais fragmentado e com menos fases profundas. Esse tipo de sono de alta quantidade de horas, mas de baixa qualidade, com muitas interrupções, compromete a liberação de testosterona
— Tiago da Silva Alexandre, professor de Gerontologia da UFSCar
Nas mulheres, outros hormônios, como o IGF-1 e o GH, desempenham papel mais relevante no anabolismo muscular do que a testosterona
— Patrícia Silva Tofani, professora da Universidade Federal de Sergipe
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o estudo focou especificamente em homens acima de 60 anos?

Model

A testosterona é o elo perdido aqui. Quando o sono é longo mas fragmentado, o corpo não consegue liberar testosterona adequadamente, e esse hormônio é essencial para manter a massa muscular em homens. Nas mulheres, outros hormônios compensam, então o padrão de sono não teve o mesmo efeito.

Inventor

Então dormir mais é sempre ruim para idosos?

Model

Não exatamente. O problema é dormir demais com qualidade ruim — muitas interrupções, poucas fases profundas. Um sono de seis a nove horas de boa qualidade é o ideal. É a fragmentação que prejudica, não apenas as horas.

Inventor

Como isso se conecta ao inflammaging que você mencionou?

Model

O inflammaging é uma inflamação crônica de baixo grau que acontece naturalmente com a idade. Quando o sono é ruim e prolongado, esse processo se intensifica, degradando o tecido muscular e reduzindo a síntese de proteínas. É um duplo golpe — hormonal e inflamatório.

Inventor

Qual é a implicação prática disso para um médico?

Model

Simples: pergunte ao paciente idoso quantas horas ele dorme. Se for mais de nove, isso é um sinal de alerta barato e acessível para mobilidade futura. Não precisa de exames caros.

Inventor

E se alguém já está dormindo demais — pode reverter o dano?

Model

O estudo acompanhou oito anos de declínio, então não sabemos se melhorar o sono depois reverte a perda. Mas a lógica sugere que sim — se o problema é a qualidade do sono, melhorar a qualidade deveria ajudar a preservar a massa muscular.

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