Soberania digital: o desafio das potências médias na era da IA

Ficar parado não é uma opção para potências médias
O Brasil e outros países médios precisam fazer escolhas estratégicas sobre energia, minerais e IA ou permanecerão vulneráveis.

Em Berlim, lideranças de potências médias se reuniram para enfrentar uma questão que define épocas: como preservar autonomia num mundo em que a inteligência artificial reconfigurou os alicerces do poder. O Brasil, como outros países de porte intermediário, descobre que a soberania do século XXI não se mede apenas em território ou população, mas em energia, dados, minerais e algoritmos — e que a inação, nesse campo, é uma forma silenciosa de rendição.

  • A confiança na liderança americana despencou entre especialistas globais, enquanto a percepção positiva da China ultrapassa 83% no Brasil — sinalizando uma reorientação geopolítica acelerada e sem precedentes.
  • A inteligência artificial deixou de ser tema de laboratório para se tornar o novo campo de batalha da soberania, fundindo indústria, defesa, educação e segurança numa única e urgente equação estratégica.
  • O maior perigo para potências médias não é a guerra, mas a irrelevância tecnológica: tornar-se apenas usuária ou reguladora de sistemas concebidos e controlados por outros.
  • Brasil avança com trunfos concretos — matriz energética limpa, biometano, minerais críticos e modelos de IA de código aberto — mas precisa conjugar regulação com política industrial real para não desperdiçar a janela histórica.

Berlim foi palco, na semana passada, de um encontro convocado pela Fundação Körber reunindo representantes de potências médias — Índia, Indonésia, Japão, África do Sul, Brasil, México e outros — para debater geopolítica e tecnologia. O pano de fundo era o Relatório das Potências Médias Emergentes 2026, que revelou uma virada dramática: menos de um quarto dos especialistas consultados na África do Sul, Alemanha, Brasil e Indonésia avalia positivamente a influência americana. Na Alemanha, esse número caiu de quase 80% em 2024 para apenas 10% em 2026. Em sentido oposto, a percepção sobre a China cresceu — o Brasil lidera com 83% de avaliações positivas.

Mas o coração do debate era a inteligência artificial e o que ela representa para países de porte intermediário. A IA cria uma convergência inédita entre indústria, defesa, administração pública e educação, redesenhando a geografia do poder: o que importa agora são energia, dados, chips, minerais críticos, cabos submarinos e os modelos que rodam nas plataformas digitais.

O desafio para cada potência média é o mesmo: mapear dependências, identificar riscos e construir capacidades tecnológicas estratégicas. Regulação isolada não basta — um país pode regular tecnologia estrangeira indefinidamente e continuar vulnerável se não tiver indústria própria. O risco maior é tornar-se apenas usuária ou reguladora de sistemas desenhados alhures.

Para o Brasil, três oportunidades se destacam. A matriz energética predominantemente limpa e o potencial do biometano oferecem a moeda de troca que Jensen Huang, da Nvidia, resumiu com precisão: transformar elétrons em tokens, energia em inteligência. Os minerais críticos abrem a chance de repetir o caminho da Indonésia com o níquel — agregar valor localmente em vez de exportar matéria-prima bruta. E modelos de IA de código aberto, como os da francesa Mistral, permitem retreinamento e controle local, sem subordinação às grandes plataformas americanas ou chinesas. Essas escolhas definem se o Brasil permanece dono de seu futuro tecnológico — ou se entrega essa soberania a quem controla os algoritmos.

Berlim recebeu na semana passada um encontro raro de lideranças globais convocado pela Fundação Körber, instituição alemã que desde 1961 reúne políticos, economistas e acadêmicos para pensar o futuro europeu. Desta vez, o tema era potências médias e a geopolítica da tecnologia — e a sala estava repleta de representantes de países que, diante da ascensão simultânea de China e Estados Unidos, descobriram uma identidade comum. Estavam ali a Índia, Indonésia, Japão, África do Sul, Brasil, México e outros, acompanhados por Ana Palacio, ex-chanceler da Espanha, que confessou ser admiradora de João Gilberto e Caetano Veloso.

O encontro coincidiu com a divulgação do Relatório das Potências Médias Emergentes 2026, um estudo multinacional sobre política externa que revelou algo perturbador: a confiança naquilo que se chamava de liderança americana desabou em dois anos. Entre especialistas da África do Sul, Alemanha, Brasil e Indonésia, menos de um quarto avaliava positivamente a influência dos Estados Unidos. O caso alemão foi o mais dramático — em 2024, quase 80% dos consultados viam a influência americana de forma positiva; em 2026, apenas 10%. Enquanto isso, a percepção sobre a China mudava radicalmente. Brasil, Indonésia e África do Sul respondiam que sua influência era positiva em proporções acima de 74%, com o Brasil na frente com 83%. A Índia ficava em 23%, e a Alemanha em apenas 14%.

Mas o verdadeiro centro da conversa não era geopolítica tradicional. Era inteligência artificial e o que ela significa para a soberania de um país médio. Como enfatizou Palacio, a IA redefine completamente a ideia de poder. Essa tecnologia cria uma convergência sem precedentes entre indústria, defesa, administração pública, segurança e educação. A nova geografia do poder não é mais apenas sobre território ou população — é sobre energia, dados, chips, minerais críticos, cabos submarinos, plataformas digitais e os próprios modelos de IA que rodam nelas.

Para cada potência média, o desafio é o mesmo: fazer um teste de realidade. Mapear onde você depende de outros. Identificar riscos. Encontrar parceiros. Construir capacidades tecnológicas mínimas que importem estrategicamente. E aqui está o ponto crítico: regulação sozinha não funciona. Um país pode regular a tecnologia estrangeira até ficar azul, mas se não tiver indústria própria, continua vulnerável. É preciso conjugar regulação com política industrial real.

O maior risco que uma potência média enfrenta é virar apenas usuária de tecnologias desenhadas em outro lugar — ou pior, apenas reguladora delas. Ambas as posições são armadilhas. Para o Brasil especificamente, três elementos aparecem como oportunidades imediatas. Primeiro, energia. A matriz energética brasileira é predominantemente limpa, e há potencial gigantesco em biometano, que poderia gerar simultaneamente empregos, independência energética e inteligência artificial. Como disse Jensen Huang, fundador da Nvidia, o negócio não é fabricar chips — é transformar elétrons em tokens, energia em inteligência. O Brasil tem essa moeda de troca.

Segundo, minerais críticos. O país tem a chance histórica de repensar sua política mineral, deixando de exportar matéria-prima bruta e começando a gerar valor agregado localmente, como fez a Indonésia com o níquel. Terceiro, modelos de IA de código aberto — como o da empresa francesa Mistral — que podem ser retreinados e controlados localmente, sem dependência de gigantes americanas ou chinesas. Essas não são escolhas abstratas. São decisões que definem se um país permanece dono de seu próprio futuro tecnológico ou se entrega essa soberania a quem controla os chips, a energia e os algoritmos. Para potências médias, ficar parado não é uma opção.

A IA redefine a ideia de poder
— Ana Palacio, ex-chanceler da Espanha
O negócio não é fabricar chips, mas transformar elétrons em tokens, energia em inteligência
— Jensen Huang, fundador da Nvidia
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que exatamente a confiança na liderança americana caiu tão drasticamente em dois anos?

Model

Porque a geopolítica mudou. Não é apenas retórica. É a forma como os EUA têm se comportado em relação a aliados, as guerras comerciais, as sanções. A Alemanha, particularmente, sente isso na pele — depende de energia, de tecnologia, e vê os EUA usando essas dependências como arma.

Inventor

E por que Brasil, Indonésia e África do Sul veem a China de forma tão positiva?

Model

Porque a China oferece algo que os EUA não oferecem mais: acesso a mercados, investimento em infraestrutura, e — isso é crucial — não impõe as mesmas exigências políticas. Para um país que quer se desenvolver rapidamente, isso é atrativo.

Inventor

Mas a IA muda essa dinâmica, certo? Não é mais só sobre comércio.

Model

Exatamente. A IA é diferente porque toca tudo simultaneamente. Defesa, educação, saúde, economia. Um país que não controla seus próprios modelos de IA está entregando sua capacidade de tomar decisões autônomas.

Inventor

Então por que regulação não é suficiente?

Model

Porque você pode regular o que entra, mas se não fabrica nada localmente, continua dependente. É como tentar controlar uma tecnologia que você não entende e não pode modificar. Regulação sem indústria é apenas teatro.

Inventor

O Brasil realmente tem vantagem em energia limpa?

Model

Tem. Mas precisa conectar isso à IA de forma inteligente. Energia limpa barata é o que faz rodar data centers. E data centers são onde a IA vive. Se o Brasil conseguir oferecer isso, pode atrair investimento em IA que ele controla, não apenas hospeda.

Inventor

E os minerais críticos? Por que isso importa tanto?

Model

Porque chips precisam deles. Sem controle sobre minerais críticos, você está sempre dependente de quem os extrai e processa. A Indonésia entendeu isso com o níquel — parou de vender minério bruto e começou a processar localmente. O Brasil pode fazer o mesmo.

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