São anos e anos sempre com dores.
A SOP é frequente mas pouco conhecida, com sintomas que variam muito entre mulheres: ciclos irregulares, acne, hirsutismo e dificuldades reprodutivas. Muitas mulheres enfrentam desvalorização dos sintomas por profissionais de saúde e recebem apenas pílulas anticoncepcionais como solução, sem abordagem holística.
- A síndrome dos ovários poliquísticos afeta uma em cada oito mulheres
- Cerca de 70% das mulheres com a síndrome não sabem que a têm
- A síndrome recebeu uma nova designação em 2025: síndrome metabólica poliendócrina do ovário
- Os sintomas incluem ciclos irregulares, acne, hirsutismo e dificuldades reprodutivas
A síndrome dos ovários poliquísticos afeta uma em cada oito mulheres, mas 70% desconhecem o diagnóstico. Sintomas variáveis e falta de tempo nas consultas causam atrasos significativos na identificação.
Beatriz tinha 29 anos quando viu pela primeira vez o que os médicos chamavam de quistos nos seus ovários. Na ecografia, pareciam cachos de uva. Mas ela já sabia que algo não estava certo — os períodos vinham irregulares, as dores eram constantes, e havia pêlos grossos no rosto que a deixavam tão envergonhada que nem apanhava o cabelo para ninguém reparar. Quando a endocrinologista lhe disse que tinha síndrome dos ovários poliquísticos, foi quase um alívio. Pelo menos havia um nome para aquilo.
Mas a história de Beatriz é a exceção. A síndrome dos ovários poliquísticos afeta uma em cada oito mulheres — é uma das principais razões pelas quais muitas têm dificuldade em engravidar — e ainda assim cerca de 70% das mulheres que a têm não sabem disso, segundo a Organização Mundial de Saúde. Os sintomas variam enormemente de pessoa para pessoa: ciclos menstruais irregulares, ausência de menstruação, acne, excesso de pêlos no rosto e corpo. Às vezes há quistos visíveis nos ovários. Às vezes não há. "É uma síndrome ainda desconhecida, mas frequentíssima", resume a endocrinologista Sílvia Saraiva. O próprio nome é enganador — a síndrome é muito mais do que quistos, é uma perturbação hormonal e metabólica complexa. Tanto que há pouco tempo recebeu uma nova designação: síndrome metabólica poliendócrina do ovário.
Ana Neves, assistente social com 28 anos, procurou ajuda há dez anos por causa de dores menstruais intensas que vinha sofrendo desde a adolescência. A sua médica de família desvalorizou tudo — disse que era normal ter dores, que o excesso de pêlos era coisa de nada. Ana tentou adaptar-se, mas a realidade era outra. Os pêlos eram tão grossos que ela própria os descreve como "barba de homem". A acne afetou a sua autoestima. E as dores menstruais eram tão excessivas que a obrigavam a faltar às aulas e, mais tarde, ao trabalho — algo que ela sentia não ser bem visto, que continuava incompreendido. Mesmo com medicação, as dores eram tão fortes que a faziam vomitar, levando-a várias vezes às urgências. Quando esteve de baixa, sentiu estigma e falta de compreensão da parte do seu empregador. O diagnóstico só chegou em 2022, dez anos depois, quando foi encaminhada para uma endocrinologista. "O diagnóstico demorou muito tempo", recorda. Mas quando soube o que tinha, "foi um alívio". Finalmente sabia que não estava sozinha, que havia outras mulheres a estudar isto, que havia informação disponível.
Margarida foi diagnosticada aos 19 anos — hoje tem 28 — mas a sua história é ainda mais confusa. Explicaram-lhe que poderia ter dificuldades em engravidar, que era isso a causa das suas dores menstruais, e foi-lhe receitada uma pílula específica. Mas há alguns anos, quando repetiu a ecografia com outra médica, disseram-lhe que afinal não tinha nada daquilo. Não tem acne, não tem hirsutismo, não tem quistos aparentes. "Fiquei espantada quando me disseram que estava tudo ok", conta. As conclusões contraditórias deixam-na confusa, especialmente porque suspeita que possa ter endometriose. "Ninguém me consegue dizer o que é que se passa ou não", suspira. Nunca chegou a fazer análises hormonais. Mas independentemente do diagnóstico incerto, Margarida continua a lidar com dores "horríveis" e ciclos irregulares. Durante seis meses seguidos na pandemia teve sangramentos vaginais contínuos e desenvolveu anemia. Quando menstrua, o fluxo é tão abundante que mancha a roupa e a obriga a acordar durante a noite. Para aguentar as dores, toma "doses cavalares" de analgésicos. No trabalho, não se sente à vontade para falar sobre isto — é ainda um "assunto tabu". "Sinto que é um esforço muito grande com tudo o que acontece no meu corpo ter de me manter operacional", diz. "São anos e anos sempre com dores."
O problema central é que os sintomas são tão variáveis e a síndrome é tão complexa que muitas mulheres enfrentam atrasos significativos no diagnóstico — ou nunca chegam a ter um. A ginecologista Liliana Gomes explica que "esta síndrome é muitas vezes um diagnóstico de exclusão". Muitas mulheres só se apercebem do problema quando deixam de tomar a pílula ou quando tentam engravidar. E há outro obstáculo: "a falta de tempo nas consultas", diz Liliana Gomes. Mulheres como Margarida e Beatriz sentiram essa barreira — momentos em que não foram ouvidas, em que os seus sintomas foram desvalorizados. Quando procuram ajuda, "encontram um muro".
Quando finalmente chegam a um diagnóstico, a solução oferecida é quase sempre a mesma: a pílula anticoncepcional. Beatriz, Ana e Margarida receberam todas a mesma prescrição. Mas como explica Liliana Gomes, "tipicamente é dada uma pílula que resolve esta sintomatologia, mas não vai tratar a questão. Não é que seja um erro dar a pílula, mas estamos a adiar um problema." Beatriz deixou de tomar por problemas circulatórios. Ana experimentou duas diferentes mas sentia que exacerbava as alterações de humor. Ela própria percebeu que o que realmente a ajudava era uma abordagem diferente — alimentação, exercício físico, estilo de vida. "A alimentação, o exercício físico, o estilo de vida em si tem sido a estratégia que eu tenho adoptado e que atenua mais os sintomas do que um fármaco", conta. A endocrinologista Sílvia Saraiva concorda que depois de se tentar alterar o estilo de vida, a pílula pode ser uma aliada, mas a ginecologista Liliana Gomes é clara: "80% do tratamento vai ser trabalho de casa da paciente". É preciso uma "abordagem mais integrativa desta síndrome".
Para além da incerteza do diagnóstico e da falta de soluções efetivas, há ainda a questão da fertilidade. Beatriz está a pensar ter filhos em breve e não sabe como vai ser. Ana Neves quer ter filhos mas as dificuldades que poderá encontrar assustam-na. Margarida está a considerar congelar óvulos — quer ter filhos, mas de momento não tem companheiro e teme ter dificuldades a engravidar no futuro. Embora seja verdade que as pessoas com esta síndrome possam ter uma dificuldade acrescida em engravidar, Sílvia Saraiva garante que é possível — pode ser só mais demorado. A mudança de nomenclatura para síndrome metabólica poliendócrina do ovário foi feita precisamente para melhorar isto: para que os profissionais de saúde valorizem todos os componentes da doença, não apenas os quistos, e para que o diagnóstico seja mais rápido e preciso. Mas enquanto isso não acontece, mulheres como Ana, Beatriz e Margarida continuam a viver com anos de dores, incerteza e a sensação de não serem ouvidas.
Citas Notables
É uma síndrome ainda desconhecida, mas frequentíssima— Endocrinologista Sílvia Saraiva
80% do tratamento vai ser trabalho de casa da paciente — fazer exercício físico, ter uma boa higiene de sono, ter uma alimentação saudável— Ginecologista Liliana Gomes
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que é que uma síndrome que afeta uma em cada oito mulheres continua tão desconhecida?
Porque o nome é enganador. Chamava-se síndrome dos ovários poliquísticos, mas nem todas as mulheres têm quistos visíveis. Então muitas chegam ao médico, não têm quistos, e o médico diz que não é isso. Enquanto isso, elas continuam com dores, ciclos irregulares, pêlos a mais. O nome esconde a verdadeira natureza da doença.
E agora mudou de nome?
Sim, para síndrome metabólica poliendócrina do ovário. É mais preciso porque descreve o que realmente é — uma perturbação hormonal e metabólica complexa, não apenas um problema de quistos. Mas o nome é só o começo. O verdadeiro problema é que muitos médicos não têm tempo para ouvir, para investigar, para fazer análises hormonais.
As mulheres que entrevistaram receberam todas a mesma solução: a pílula.
Exatamente. E a pílula mascara os sintomas, não trata a doença. É como pôr um penso numa ferida que precisa de pontos. Algumas mulheres descobrem por si próprias que o que realmente funciona é mudar a alimentação, fazer exercício, dormir bem. Mas isso não é o que lhes ensinam.
Qual é o custo humano disto?
Anos de dores incapacitantes. Uma mulher acordar durante a noite porque o fluxo menstrual é tão abundante que mancha a roupa. Outra a faltar ao trabalho e sentir estigma por isso. Outra a considerar congelar óvulos porque não sabe se conseguirá engravidar. E tudo isto enquanto ninguém as ouve.
Há alguma esperança?
Há. A mudança de nome vai obrigar os médicos a olhar para a síndrome de forma diferente, a valorizarem todos os componentes. E há mulheres que encontram redes de apoio, outras mulheres que entendem o que elas estão a passar. Isso faz diferença. Mas é preciso mais — é preciso tempo nas consultas, é preciso uma abordagem holística, é preciso que os médicos ouçam.