Como a decisão de processar um amigo de Trump pode ser uma emergência?
Em Washington, o Senado dos Estados Unidos aprovou por 52 votos a 48 uma resolução para revogar as tarifas impostas por Donald Trump ao Brasil — uma votação que, paradoxalmente, revela mais sobre as fraturas internas do Partido Republicano do que sobre qualquer mudança real de política. Cinco senadores republicanos cruzaram a linha partidária para questionar o uso de uma lei de emergência nacional contra um país com o qual os EUA mantêm superávit comercial. A medida, porém, encontra diante de si uma Câmara bloqueada e um veto presidencial praticamente certo, tornando a vitória simbólica tanto um gesto de consciência quanto um lembrete dos limites do dissenso institucional.
- O Senado surpreendeu ao aprovar a revogação das tarifas contra o Brasil, com cinco republicanos rompendo a disciplina partidária para votar com os democratas.
- O senador Tim Kaine denunciou o abuso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência, apontando que os EUA têm superávit comercial com o Brasil — o oposto de uma crise econômica.
- A Câmara dos Representantes, controlada por republicanos, já aprovou regras internas que impedem qualquer votação sobre as tarifas de Trump, bloqueando o avanço da resolução.
- Mesmo que a Câmara agisse, Trump vetaria a medida, e o Senado não possui os dois terços necessários para derrubar o veto.
- A semana ainda reserva votações sobre as tarifas contra o Canadá e as tarifas globais do 'Dia da Libertação', mas o padrão de impotência legislativa deve se repetir.
O Senado dos Estados Unidos votou nesta terça-feira para revogar as tarifas que Donald Trump impôs ao Brasil, aprovando a resolução por 52 votos a 48. O resultado exigiu que cinco senadores republicanos — Rand Paul, Thom Tillis, Susan Collins, Lisa Murkowski e o ex-líder Mitch McConnell — se unissem aos democratas para questionar a autoridade presidencial. Foi uma votação que surpreendeu, mas que não deve mudar nada.
A resolução foi apresentada pelo senador democrata Tim Kaine, da Virgínia, que argumentou que Trump abusou da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional ao decretar uma emergência nacional para justificar as tarifas em julho. A justificativa oficial de Trump era que o Brasil violava direitos humanos e perseguia opositores políticos. Kaine questionou como isso poderia constituir uma ameaça aos Estados Unidos — e lembrou um dado econômico inconveniente: os EUA têm superávit comercial com o Brasil, vendendo mais do que compram.
Na prática, a vitória no Senado não tem caminho. A Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos, aprovou no início do ano uma regra interna que impede seus membros de forçar votações sobre as tarifas de Trump. E mesmo que a Câmara agisse, o presidente simplesmente vetaria a resolução — e o Senado não tem votos suficientes para derrubar esse veto.
A semana ainda reserva mais duas votações no Senado: sobre as tarifas contra o Canadá e sobre as tarifas globais do chamado 'Dia da Libertação', em abril. O padrão, no entanto, deve ser o mesmo. O que a votação desta terça revela não é uma mudança de rumo, mas as fissuras que começam a aparecer dentro do Partido Republicano — cinco senadores dispostos a desafiar Trump em uma questão que ele considera central. Por ora, esse dissenso é real, mas ainda insuficiente para alterar qualquer política.
O Senado dos Estados Unidos votou nesta terça-feira para tentar desfazer as tarifas que Donald Trump impôs ao Brasil, mas a vitória foi apenas simbólica. A resolução passou com 52 votos a favor e 48 contra, um resultado que exigiu o apoio de cinco senadores republicanos dispostos a se afastar da liderança do partido. Rand Paul, Thom Tillis, Susan Collins, Lisa Murkowski e Mitch McConnell — o ex-líder da bancada — juntaram-se aos democratas para questionar a autoridade presidencial de manter essas tarifas em vigor.
O problema é que a votação do Senado, por mais que tenha surpreendido alguns observadores, não significa nada na prática. A Câmara dos Deputados, controlada pelos republicanos, não deve nem considerar a medida. No início do ano, o partido aprovou uma regra que impede seus membros de forçar uma votação sobre as tarifas de Trump, bloqueando qualquer tentativa de revisão. E mesmo que a Câmara aprovasse, Trump simplesmente vetaria a resolução. O Senado não tem votos suficientes para derrotar um veto presidencial.
Tudo começou em julho, quando Trump decretou uma emergência nacional para justificar as tarifas contra o Brasil. Sua justificativa oficial era que o país violava direitos humanos e perseguia opositores políticos. Mas o senador democrata Tim Kaine, da Virgínia, que apresentou a resolução, viu algo diferente. Ele argumentou que Trump estava abusando da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, um instrumento legal que deveria ser reservado para crises genuínas que ameaçam a segurança nacional.
Durante o debate no Senado, Kaine foi direto ao ponto. Questionou como a decisão do Brasil de processar um amigo de Trump poderia constituir uma emergência que ameaçasse os Estados Unidos. Apontou também um fato econômico inconveniente: os Estados Unidos têm um superávit comercial com o Brasil, o que significa que vendem mais para o país do que compram dele. Se havia uma emergência econômica, não era a que Trump descrevia.
A votação desta terça foi apenas a primeira de três que o Senado planeja fazer esta semana sobre tarifas. Também estão na agenda as tarifas contra o Canadá e as tarifas globais que Trump aplicou no chamado "Dia da Libertação", em abril. Mas o padrão será o mesmo: o Senado pode expressar sua desaprovação, a Câmara pode ignorá-la, e Trump pode fazer o que quiser.
O que torna a votação de hoje significativa não é seu resultado prático, mas o que ela revela sobre as fissuras dentro do Partido Republicano. Cinco senadores republicanos estavam dispostos a desafiar Trump em uma questão que ele considera central para sua agenda comercial. Isso sugere que há limites para quanto tempo o partido pode manter a unidade em torno de políticas que seus próprios membros questionam. Mas por enquanto, esses limites não são suficientes para mudar nada.
Citas Notables
A emergência com respeito ao Brasil, a incomum e extrema emergência que ameaça os Estados Unidos, é a decisão brasileira de processar o amigo de Donald Trump. Como isso pode ser uma emergência?— Senador Tim Kaine
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Trump impôs essas tarifas ao Brasil em primeiro lugar? A justificativa oficial parece estranha.
Ele citou violações de direitos humanos e perseguição política. Mas o timing é suspeito — coincidiu com processos contra aliados dele no Brasil. Kaine viu isso como um pretexto.
E por que cinco republicanos votaram contra seu próprio presidente?
Porque alguns deles, como Collins e Murkowski, já têm histórico de votos independentes. Mas também porque a lógica econômica não funciona. Os EUA ganham com o comércio com o Brasil.
Então por que a Câmara não vai nem considerar isso?
Porque no início do ano os republicanos aprovaram uma regra que bloqueia votações sobre tarifas de Trump. É um mecanismo de proteção que impede que seus próprios membros desafiem o presidente.
Isso significa que Trump pode fazer o que quiser com tarifas?
Enquanto controlar a Câmara, sim. Ele tem o poder legal e o apoio procedimental. O Senado pode protestar, mas não consegue derrotar um veto.
Qual é o significado real dessa votação, então?
É um sinal de que há desconforto dentro do partido. Não muda nada hoje, mas mostra que nem todos os republicanos estão alinhados. É um aviso, não uma vitória.