Uma meta muito difícil de alcançar até que eles votem contra o presidente
Em um raro momento de dissidência interna, o Senado dos Estados Unidos votou para bloquear as tarifas impostas por Donald Trump sobre produtos brasileiros, com cinco senadores republicanos se unindo à oposição democrata numa votação de 52 a 48. O episódio revela as tensões crescentes entre o Executivo e o Legislativo americano em torno dos limites constitucionais do poder presidencial sobre o comércio exterior. Enquanto a medida avança para uma Câmara mais hostil, o debate se expande para os tribunais e para outros parceiros comerciais, sugerindo que a arquitetura tarifária de Trump enfrenta um escrutínio sem precedentes.
- Cinco republicanos romperam com Trump numa votação histórica, expondo rachaduras profundas dentro do próprio partido sobre a política comercial da Casa Branca.
- Senadores de estados agrícolas pressionaram o vice-presidente JD Vance em reunião fechada, alarmados com a possibilidade de o governo quadruplicar importações de carne bovina argentina.
- Rand Paul acusou Trump de usurpar poderes constitucionais do Congresso ao impor tarifas com base em uma 'emergência fabricada', elevando o tom do confronto institucional.
- A medida aprovada segue para a Câmara, onde líderes republicanos já bloquearam votações sobre tarifas até março de 2026, criando um corredor estreito para qualquer reversão legislativa.
- A Suprema Corte deve julgar em breve se Trump extrapolou seus poderes ao impor tarifas globais, enquanto o Senado prepara votações semelhantes para Canadá e outros países.
O Senado dos EUA aprovou na terça-feira uma resolução para bloquear as tarifas de Donald Trump sobre produtos brasileiros, numa votação de 52 a 48 que reuniu todos os democratas e cinco republicanos dissidentes: Lisa Murkowski, Susan Collins, Rand Paul, Mitch McConnell e Thom Tillis. A medida, liderada pelo senador Tim Kaine, invoca poderes legislativos para revogar tarifas que Trump havia implementado sob autoridade de emergência.
O resultado expôs tensões internas no Partido Republicano que vinham se acumulando. Na véspera da votação, o vice-presidente JD Vance reuniu-se com senadores republicanos em almoço fechado para tentar preservar a unidade em torno da agenda comercial do presidente. Em vez de apoio, encontrou uma enxurrada de reclamações de legisladores de estados agrícolas, preocupados com planos do governo de quadruplicar importações de carne bovina argentina.
Rand Paul, um dos autores da resolução, foi categórico: Trump estaria invadindo o poder constitucional do Congresso ao impor tarifas unilateralmente com base em uma 'emergência fabricada'. O próprio Paul reconheceu que conquistar votos republicanos contra o presidente era 'uma meta muito difícil de alcançar' — o que torna o resultado ainda mais significativo.
A resistência, porém, encontra obstáculos à frente. Na Câmara, líderes republicanos já endureceram regras procedimentais para impedir votações sobre contestações tarifárias até março de 2026. Paralelamente, a Suprema Corte deve examinar se Trump extrapolou seus poderes ao impor tarifas em escala global. O Senado ainda deve votar esta semana medidas semelhantes para bloquear as tarifas sobre produtos canadenses e de outros países, sinalizando que o embate em torno da política comercial americana está longe do fim.
O Senado dos EUA votou na terça-feira para bloquear as tarifas que o presidente Donald Trump havia imposto sobre produtos brasileiros, marcando uma rara derrota para a administração em uma questão central de sua agenda econômica. A votação terminou em 52 a 48, com todos os democratas apoiando a medida e cinco republicanos se juntando a eles em oposição ao presidente.
Os cinco republicanos que votaram contra Trump foram Lisa Murkowski do Alasca, Susan Collins do Maine, Rand Paul e Mitch McConnell do Kentucky, e Thom Tillis da Carolina do Norte. A resolução, liderada pelo senador democrata Tim Kaine, usaria poderes legislativos para revogar as tarifas brasileiras que Trump havia implementado sob autoridade de emergência. Agora a medida segue para a Câmara dos Representantes, onde os líderes republicanos já endureceram as regras procedimentais para impedir votações em plenário sobre contestações tarifárias até março do próximo ano.
A votação ocorreu em um contexto de tensão dentro do próprio partido republicano. Na tarde anterior, o vice-presidente JD Vance havia comparecido a um almoço fechado com senadores republicanos para tentar manter a unidade em torno da política comercial de Trump. Mas em vez de conseguir apoio, Vance enfrentou uma onda de reclamações de legisladores de estados agrícolas. Eles expressavam preocupação com propostas que o governo estava considerando para quadruplicar as importações de carne bovina argentina, uma medida que já estava gerando inquietação entre os criadores de gado em seus distritos.
Rand Paul, um dos autores da resolução sobre o Brasil, foi direto em sua crítica. Ele argumentou que Trump estava invadindo o poder constitucional do Congresso sobre tributação ao reivindicar o direito unilateral de impor tarifas de importação. Paul descreveu as tarifas como baseadas em uma "emergência fabricada". Quando perguntado sobre seus colegas republicanos que ainda apoiavam Trump, Paul foi franco: alcançar votos republicanos contra o presidente era "uma meta muito difícil de alcançar".
A resistência ao programa tarifário de Trump vai além do Senado. A Suprema Corte está prestes a ouvir argumentos sobre se o presidente extrapolou seus poderes ao impor tarifas em escala global. Enquanto isso, o Senado espera considerar ainda esta semana medidas semelhantes para bloquear as tarifas de 35% de Trump sobre produtos canadenses e suas tarifas de 10% a 50% sobre importações de vários outros países. O resultado no Brasil sugere que essas medidas também podem encontrar apoio bipartidário, sinalizando uma possível reconfiguração da política comercial americana nos próximos meses.
Citações Notáveis
Trump estava invadindo o poder do Congresso sobre tributação ao reivindicar o direito unilateral de cobrar impostos de importação, baseado em uma emergência fabricada— Rand Paul, senador republicano do Kentucky
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que cinco republicanos votaram contra seu próprio presidente em uma questão tão importante?
Porque para muitos deles, a questão não era sobre Trump — era sobre o poder do Congresso. Paul e outros veem as tarifas como uma invasão executiva de uma autoridade que deveria ser do Legislativo.
Mas isso não é arriscado politicamente para eles?
Muito. Paul foi honesto sobre isso. Ele sabe que votar contra Trump é difícil dentro do partido. Mas alguns senadores, especialmente de estados agrícolas, estão sentindo pressão real de seus eleitores.
O que Vance estava tentando fazer naquele almoço?
Manter a linha. Ele foi lá para pedir unidade, mas saiu enfrentando reclamações sobre carne argentina. O governo estava considerando aumentar as importações, e os criadores de gado estavam assustados.
Então as tarifas estão prejudicando os próprios republicanos?
Exatamente. É uma contradição clássica — a política comercial que Trump quer prejudica os produtores agrícolas que são base republicana.
O que acontece agora na Câmara?
Os líderes republicanos já bloquearam procedimentalmente qualquer votação sobre tarifas até março. Então mesmo que a medida chegue lá, eles podem impedir que seja votada.