Negociação é busca de alternativas, pode não agradar a todos
O piso salarial foi retirado no Senado por ser considerado tema estranho à medida provisória original, apesar de aprovado pela Câmara. A proposta inclui anistia para caminhoneiros multados em bloqueios de 2022 e novas regras de fiscalização e cálculo de frete mínimo.
- Senado aprovou MP 1.343/2026 em 14 de julho, removendo piso salarial de R$ 5 mil para caminhoneiros
- Piso havia sido aprovado pela Câmara mas foi retirado no Senado por ser considerado tema estranho à medida provisória
- Proposta inclui anistia para multas de bloqueios de 2022 e novas regras de fiscalização de frete mínimo
- Tabela de frete será atualizada semestralmente; ANTT publicará novos valores em até 3 dias úteis se combustível variar 5%
- Acordos coletivos de trabalho definirão piso salarial para motoristas de longa distância
O Senado aprovou medida provisória que altera regras do frete rodoviário, mas removeu o piso salarial de R$ 5 mil para caminhoneiros após acordo entre governo e parlamentares.
Na terça-feira 14 de julho, o Senado Federal aprovou uma medida provisória que reformula as regras do transporte rodoviário de cargas, mas não sem drama. O texto que saiu da votação carecia de algo que havia passado pela Câmara dos Deputados semanas antes: um piso salarial nacional de R$ 5 mil mensais para caminhoneiros de longa distância. Essa exclusão, negociada nos bastidores e formalizada no plenário, marca o fim de uma disputa que dividiu governo, parlamentares e o setor de transportes.
A medida provisória 1.343/2026 chegou ao Senado já transformada em projeto de lei de conversão — o PLV 6/2026 — depois de passar por uma comissão mista de senadores e deputados que havia inserido o piso salarial no texto original enviado pelo Executivo. Quando a proposta foi votada na Câmara, o dispositivo se manteve. Mas no Senado, dois senadores — Jaime Bagattoli, do PL de Rondônia, e Tereza Cristina, do PP de Mato Grosso do Sul — pediram sua retirada, argumentando que o tema fugia ao escopo de uma medida provisória sobre frete. O relator Styvenson Valentim, do Podemos do Rio Grande do Norte, acolheu o pedido. A exclusão foi tratada como supressão, não como alteração, um detalhe técnico que evitou o retorno da proposta à Câmara e acelerou sua aprovação.
Tereza Cristina sustentou que manter o piso salarial poderia tornar a medida inconstitucional por abordar matéria estranha ao seu conteúdo original. Bagattoli argumentou que a manutenção do dispositivo prejudicaria milhares de pequenos empresários do transporte rodoviário. Ambos afirmaram ter discutido a questão com representantes dos caminhoneiros, que, segundo eles, concordaram com a retirada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, apresentou a aprovação como fruto de um acordo construído após dez horas de negociação envolvendo governo, oposição e relator. Ele enfatizou que o texto aprovado pela Câmara gerava divergências que precisavam ser resolvidas antes da votação no plenário.
O governo, representado pelo líder Randolfe Rodrigues e pela líder Teresa Leitão, ambos do PT, defendeu a negociação como instrumento essencial para preservar os pontos considerados fundamentais da proposta e evitar que a medida provisória perdesse validade. A aprovação ocorreu dois dias antes do prazo final — embora a MP estivesse em vigor desde março, dependia da aprovação do Congresso para se tornar lei definitiva. Teresa Leitão ressaltou que negociação implica concessões de todos os lados e que a capacidade de escolher o essencial é crucial.
O texto aprovado contém duas anistias significativas. A primeira perdoa multas aplicadas a caminhoneiros que bloquearam rodovias durante as eleições de 2022. A segunda converte em advertência as penalidades administrativas por descumprimento das normas de frete — como pagamento abaixo do piso — aplicadas até a publicação da lei resultante. Essas conversões valem para processos em andamento e multas não quitadas, mas não se aplicam a casos de fraude ou falsificação de documentos. Valores já pagos não serão devolvidos.
A proposta também reformula o cálculo dos pisos mínimos de frete, exigindo que as tabelas considerem custos operacionais como combustível, manutenção, pneus, seguros, tributos e salários. A Agência Nacional de Transportes Terrestres poderá firmar parceria com a Infra S.A. para elaborar os cálculos. As tabelas serão atualizadas semestralmente, e quando houver variação igual ou superior a 5% no preço dos combustíveis, a ANTT publicará novos valores em até três dias úteis.
Nas regras de fiscalização, empresas que pagarem frete abaixo do piso poderão ter o registro suspenso após mais de quatro infrações em seis meses. Multas para reincidentes variam de R$ 100 mil a R$ 1 milhão, podendo ser dobradas em nova reincidência. O Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas pode ser cancelado por até 24 meses nos casos mais graves. O texto mantém a obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte, estabelece prazo de até 30 dias úteis para pagamento do frete e prevê adiantamento mínimo de 70% para transportadores autônomos.
A proposta também altera regras de pesagem de veículos, permitindo que a verificação inicial considere apenas o peso total do caminhão, com medição por eixo apenas quando houver excesso acima de 5% de tolerância. Na previdência, transportadores autônomos poderão optar por recolher diretamente sua contribuição ao INSS. O Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Transporte de Cargas Nacional será ampliado para apoiar renovação de frotas, capacitação de motoristas e ações de saúde e segurança. Há um período de transição de até 180 dias para regulamentação das mudanças, com prazo mínimo de 60 dias para adaptação das empresas e transportadores. O texto segue agora para sanção presidencial.
Citas Notables
O debate é a essência do Parlamento. Se havia divergências sobre o texto, era preciso ouvir todos os envolvidos.— Davi Alcolumbre, presidente do Senado
A negociação é um instrumento de conversa, de busca de alternativas. Pode não agradar a um aqui, a outro ali, mas temos de ter capacidade de escolher o que é essencial.— Teresa Leitão, líder do governo no Senado
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o Senado retirou um piso salarial que a Câmara havia aprovado? Parecia consenso.
Não era consenso. Dois senadores argumentaram que o piso salarial era tema estranho a uma medida provisória sobre frete. Tecnicamente, uma MP deve tratar de assuntos urgentes e relevantes, e adicionar política salarial a uma reforma de transporte pode ser visto como desvio.
Mas a Câmara já tinha votado. Por que o Senado pode simplesmente tirar?
Porque trataram como supressão, não como alteração. Se fosse alteração, a proposta voltaria à Câmara. Supressão é mais rápida — remove o que sobra, mantém o essencial.
Quem concordou com essa retirada? Os caminhoneiros?
Segundo os senadores que pediram a exclusão, representantes dos caminhoneiros concordaram. Mas isso é o que eles disseram publicamente. O que os caminhoneiros realmente queriam fica em aberto.
Então os caminhoneiros perderam a garantia de R$ 5 mil?
Perderam a garantia nacional. Mas o texto diz que acordos e convenções coletivas de trabalho definirão o piso para motoristas de longa distância. É negociação, não lei.
Qual é a diferença prática?
Uma lei garante. Uma negociação coletiva depende de força de barganha. Se os caminhoneiros têm sindicatos fortes, conseguem R$ 5 mil. Se não têm, conseguem menos.
E o resto da proposta? Tem algo que os beneficia?
Sim. Anistia para multas de bloqueios em 2022, conversão de penalidades administrativas em advertências, prazo de 30 dias para pagamento de frete, adiantamento mínimo de 70% para autônomos. São ganhos reais, mas não substituem um piso garantido.