A biblioteca pode decidir o que merece estar em suas prateleiras
Quando a Suprema Corte nega certiorari, a decisão do tribunal inferior torna-se final, mas sem criar precedente nacional vinculante. Tribunal Federal da 5ª Região permitiu banimento de 17 livros no Condado de Llano, argumentando que bibliotecas têm liberdade de expressão para escolher acervo.
- Suprema Corte recebe ~80 mil petições anuais, aceita ~80 (1-2%)
- Tribunal Federal da 5ª Região permitiu banimento de 17 livros no Condado de Llano, Texas
- Decisão vale apenas para Texas, Louisiana e Mississippi; sem precedente nacional
- Tennessee, Utah e Flórida aprovaram leis similares de banimento
- Illinois e Minnesota aprovaram leis proibindo banimento de livros
A Suprema Corte dos EUA recusou julgar caso sobre banimento de livros em bibliotecas públicas do Texas, permitindo que decisão inferior prevaleça apenas na jurisdição local.
A Suprema Corte dos Estados Unidos recusou-se a julgar um caso sobre o banimento de livros em bibliotecas públicas, deixando que a decisão de um tribunal inferior prevaleça. O caso envolvia dezessete obras removidas das prateleiras da biblioteca do Condado de Llano, no Texas, um município rural com cerca de vinte mil habitantes, porque autoridades locais as consideraram moralmente inadequadas.
Esta recusa não é incomum. Anualmente, a Suprema Corte recebe aproximadamente oitenta mil petições de revisão — formalmente conhecidas como writs of certiorari — mas aceita julgar apenas cerca de oitenta delas, algo entre um e dois por cento do total. O que acontece quando a corte decide não decidir tem consequências importantes e específicas. Primeiro, a decisão do tribunal imediatamente inferior torna-se final e vinculante. No caso dos livros banidos, o Tribunal Federal de Recursos da Quinta Região, que tem jurisdição sobre Texas, Louisiana e Mississippi, permitiu que o banimento prosseguisse. Segundo, sem uma decisão da Suprema Corte, nenhum precedente nacional é estabelecido. A sentença vale apenas para aqueles três estados, não para todo o país. Se o mesmo caso tivesse tramitado pela justiça estadual do Texas, a decisão valeria apenas naquele estado.
O Tribunal Federal da Quinta Região decidiu, por dez votos contra sete, que a remoção dos livros não viola a Constituição porque o direito à liberdade de expressão, garantido pela Primeira Emenda, pertence aos curadores das bibliotecas públicas. O juiz Stuart Duncan, nomeado pelo presidente Donald Trump, escreveu em seu voto que os bibliotecários podem decidir quais livros merecem estar em suas coleções, assim como um leitor insatisfeito pode encomendar a obra online, comprá-la em uma livraria ou pegá-la emprestado de um amigo. O juiz Stephen Higginson, nomeado pelo ex-presidente Barack Obama, discordou veementemente, chamando os argumentos da maioria de "perturbadoramente levianos e juridicamente inconsistentes" e declarando que não queria que seu tribunal se juntasse aos "queimadores de livros".
Os residentes que moveram a ação em 2022 argumentaram que o banimento viola um princípio fundamental da Primeira Emenda: o direito de receber informações. Eles apontaram para uma decisão da Suprema Corte de 1982 estabelecendo que conselhos escolares não podem remover livros simplesmente por discordarem das ideias neles contidas. No entanto, aquela decisão deixou em aberto a extensão exata do direito à informação, criando a ambiguidade que agora permite que bibliotecas removam obras.
Os dezessete livros banidos no Condado de Llano abordam sexo, raça, gênero e tópicos humorísticos. Entre eles estão "They Called Themselves the K.K.K: The Birth of an American Terrorist Group", de Susan Campbell Bartoletti; "Caste: The Origins of Our Discontent", de Isabel Wilkerson; "Being Jazz: My Life as a (Transgender) Teen", de Jazz Jennings; "It's Perfectly Normal: Changing Bodies, Growing Up, Sex and Sexual Health", de Robie H. Harris; e livros infantis como "In the Night Kitchen", de Maurice Sendak, e "My Butt is So Noisy!", de Dawn McMillan.
Esta decisão ocorre em um momento em que o banimento de livros está se espalhando progressivamente pelos estados conservadores. Tennessee e Utah aprovaram leis banindo obras com "conteúdo gratuito de violência e sexo". A Flórida removeu livros de escolas e bibliotecas públicas, incluindo aqueles que tratam de teoria crítica da raça, temas LGBTQ+ e saúde sexual. Contrariando a tendência, estados democratas como Illinois e Minnesota aprovaram leis que proíbem o banimento de livros. O resultado é uma fragmentação jurídica nacional, onde o acesso a determinadas obras depende inteiramente de qual estado ou condado o leitor habita. Para menores de idade em comunidades conservadoras, o acesso a livros sobre identidade de gênero, história racial e saúde sexual agora depende de iniciativas privadas ou de recursos fora da biblioteca pública.
Notable Quotes
Um usuário insatisfeito pode encomendar o livro online, comprá-lo em uma livraria ou pegá-lo emprestado de um amigo— Juiz Stuart Duncan, Tribunal Federal da 5ª Região
Não quero que nosso tribunal se junte aos queimadores de livros— Juiz Stephen Higginson, em voto dissidente
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a Suprema Corte recusa tantos casos? Parece que deixa muitas questões importantes sem resolver.
Porque simplesmente não conseguiria funcionar se aceitasse todos. Oitenta mil petições por ano — se julgasse apenas dez por cento, estaria ocupada apenas com isso. A corte precisa escolher casos que estabeleçam princípios nacionais, não questões locais isoladas.
Mas isso significa que bibliotecas em Texas podem banir livros enquanto bibliotecas em Illinois não podem? Isso não cria caos?
Cria fragmentação, sim. Mas tecnicamente não é caos — é federalismo. Cada jurisdição tem suas próprias regras. O problema é que ninguém sabe se a Suprema Corte concordaria com Texas ou com Illinois se finalmente decidisse julgar.
Os juízes que votaram contra o banimento compararam isso a queimar livros. Isso não é dramático demais?
Não é dramático se você pensa na história. Fahrenheit 451 não é ficção aleatória — regimes autoritários realmente queimaram livros. Mas o juiz Duncan tem um ponto: ninguém está queimando nada aqui. Os livros ainda existem. Apenas não estão naquela biblioteca.
Então qual é o verdadeiro problema?
O acesso. Uma criança em Llano não pode pegar um livro sobre ser transgênero na biblioteca pública. Pode comprar online se tiver dinheiro, pode pedir emprestado a um amigo se tiver um. Mas a biblioteca — que é pública, financiada por impostos — não o oferece. Para muitas crianças, especialmente as mais pobres, a biblioteca é o único acesso.
E isso vai piorar?
Provavelmente. Outros condados no Texas estão fazendo o mesmo. Tennessee e Utah aprovaram leis estaduais. Se isso continuar sem a Suprema Corte intervindo, você terá um país onde o que você pode ler depende de onde você vive.