Alguém do Norte é ainda mais raro nesse círculo
Da floresta amazônica imaginada na infância aos circuitos do cérebro humano investigados em laboratórios internacionais, o biólogo paraense Kauê Costa percorreu um caminho que a Scientific American reconheceu ao incluí-lo entre os 28 jovens cientistas mais promissores do mundo. Aos 36 anos, professor na Universidade de Birmingham, ele pesquisa como a dopamina governa o aprendizado e a expectativa — aquele sinal silencioso que o cérebro emite quando a realidade contraria o que esperávamos. Sua trajetória, que passou pela UFPA, pelo Instituto Max Planck e pelos Institutos Nacionais de Saúde americanos, é também a história de um país que forma talentos e nem sempre consegue retê-los.
- A inclusão na lista da Scientific American coloca Costa entre os pesquisadores mais promissores do mundo em neurociência, um reconhecimento raro para cientistas formados no Norte do Brasil.
- Sua pesquisa sobre o 'erro de previsão de recompensa' desafia a visão simplificada da dopamina como mero neurotransmissor do prazer, revelando que ela também codifica representações cognitivas complexas do mundo.
- Uma descoberta sua forçou a comunidade científica a reavaliar resultados obtidos com uma linhagem transgênica amplamente usada, depois que ele identificou que alterações comportamentais vinham da modificação genética dos animais — não dos experimentos em si.
- Enquanto mantém colaborações com pesquisadores em Belém e expande seus estudos para humanos, Costa ainda não planeja retornar ao Brasil, onde as condições para ciência de ponta continuam limitadas.
- O logotipo de seu laboratório nos Estados Unidos foi inspirado na arte marajoara — um gesto deliberado de visibilidade para uma origem que, no meio científico internacional, é duplamente rara.
Kauê Costa cresceu em Belém certo de que estudaria a floresta amazônica. Aos 13 anos, ganhou um prêmio do Museu Paraense Emilio Goeldi por um trabalho sobre aves migratórias. Mas na graduação em biologia pela UFPA, descobriu que preferia laboratórios a expedições de campo — e foi ali que conheceu a neurociência e encontrou sua vocação.
Agora aos 36 anos, Costa integra a lista de 28 jovens cientistas em ascensão da Scientific American. O caminho até lá passou pelo mestrado na USP, por um doutorado no Instituto Max Planck na Alemanha — escolhido pelas melhores condições salariais entre três ofertas internacionais — e por um pós-doutorado no Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA, sob orientação do neurocientista Geoffrey Schoenbaum. Foram anos extraordinariamente produtivos: 14 artigos publicados em revistas como Nature e Nature Neuroscience. Em 2024, assumiu o cargo de professor associado na Universidade de Birmingham, no Alabama.
Sua pesquisa investiga como a dopamina opera em diferentes escalas do cérebro — dos neurônios individuais aos circuitos e modelos computacionais. O foco central é o chamado erro de previsão de recompensa: o sinal gerado quando a realidade contraria nossas expectativas, que Costa acredita ser um dos motores fundamentais do aprendizado. Uma de suas descobertas mais citadas revelou que alterações comportamentais em camundongos transgênicos amplamente usados em pesquisas vinham da própria modificação genética dos animais — não dos experimentos. Isso levou à reavaliação de resultados anteriores em toda a área.
Casado e pai de dois filhos pequenos, Costa não planeja retornar ao Brasil de forma permanente, mas mantém colaborações ativas com pesquisadores em Belém. Nos Estados Unidos, o logotipo de seu laboratório foi inspirado na arte marajoara — uma forma de chamar atenção para uma origem que, no meio científico internacional, é ainda mais rara do que parece: pesquisadores do Norte do Brasil com ascendência cabocla e indígena.
Kauê Costa cresceu em Belém imaginando que estudaria a floresta amazônica. Aos 13 anos, ganhou um prêmio do Museu Paraense Emilio Goeldi por um trabalho sobre aves migratórias e tinha certeza de que aquele seria seu caminho. Mas na graduação em biologia pela Universidade Federal do Pará, descobriu que preferia laboratórios com ar-condicionado a expedições de campo. Foi ali, sob orientação do professor Manoel da Silva Filho, que conheceu a neurociência — e encontrou sua verdadeira vocação.
Agora, aos 36 anos, Costa integra a lista de 28 jovens cientistas em ascensão publicada pela revista Scientific American. O reconhecimento chegou depois de uma trajetória que o levou para fora do Brasil em busca de recursos e oportunidades que não encontrava no país. Completou o mestrado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, mas sentia que lhe faltavam condições para desenvolver plenamente suas pesquisas. Inscreveu-se em programas de doutorado internacionais e foi aceito em três instituições — nos Estados Unidos, na França e no Instituto Max Planck, na Alemanha. Escolheu a Alemanha porque oferecia melhores condições salariais. Lá, entre 2020 e 2023, descobriu o sistema dopaminérgico, que se tornaria o foco central de seu trabalho científico.
Depois do doutorado, Costa fez pós-doutorado no Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, parte da rede de Institutos Nacionais de Saúde americana, sob supervisão do neurocientista Geoffrey Schoenbaum. Foram anos extraordinariamente produtivos: publicou 14 artigos em revistas de altíssimo impacto como Nature, Nature Neuroscience e Current Biology. Em 2024, assumiu o cargo de professor associado na Universidade de Birmingham, no Alabama. O próprio Schoenbaum, seu ex-orientador, o indicou para a lista da Scientific American. "Acredito que estou lá porque meu ex-orientador me indicou", diz Costa. "Além disso, considero que os anos de pós-doutorado com o Jeff foram muito produtivos. Tive muita sorte."
Sua pesquisa investiga como a dopamina — um dos neurotransmissores mais estudados do cérebro — funciona em diferentes escalas: no nível dos neurônios individuais, nos circuitos cerebrais e em modelos computacionais que conseguem prever matematicamente esses processos. O foco principal é o que ele chama de erro de previsão de recompensa: o sinal gerado quando a realidade contraria as expectativas que tínhamos. Costa acredita que esse mecanismo é um dos motores fundamentais do aprendizado. "Percebemos que a dopamina não está envolvida apenas em mecanismos de erro e acerto", explica. "Algumas regiões cerebrais geram representações cognitivas do mundo, e a dopamina também parece sinalizar erros de previsão relacionados a esses estados."
No laboratório de Costa, os estudos combinam modelos animais — ratos e camundongos — com ferramentas computacionais usadas para formular hipóteses e prever resultados. Recentemente, o grupo iniciou colaborações com pesquisadores de psicologia da universidade para expandir essas análises em humanos. Uma de suas descobertas mais importantes e citadas surgiu quando investigou por que uma linhagem transgênica de camundongos amplamente utilizada em estudos dopaminérgicos apresentava alterações comportamentais inesperadas. Descobriu que as mudanças eram causadas pela própria modificação genética dos animais, não pelo que os pesquisadores estavam testando. Isso levou à reavaliação de resultados anteriores obtidos com esse modelo. "Muitos pesquisadores poderiam simplesmente ignorar os dados", diz Costa. "Eu preferi investigar o que estava acontecendo."
Casado com uma médica armênia e pai de dois filhos, de 5 e 3 anos, Costa não pretende retornar ao Brasil de forma permanente no momento. Mas mantém uma rede ativa de colaboradores com pesquisadores em Belém. Nos Estados Unidos, o logotipo de seu laboratório foi inspirado na arte marajoara, típica do Pará — uma forma de se conectar com suas origens em um ambiente onde pesquisadores brasileiros são raros, e pesquisadores do Norte com ascendência cabocla e indígena ainda mais. "Alguém do Norte, com uma história e ascendência como a minha, é ainda mais raro", diz. "Por isso quis chamar atenção para algo único."
A inclusão de Costa na lista da Scientific American reflete não apenas a qualidade de sua pesquisa, mas também a trajetória de um cientista que precisou sair do Brasil para encontrar as condições necessárias para fazer ciência de ponta. Sua história é a de muitos pesquisadores brasileiros que constroem carreiras internacionais enquanto mantêm laços com o país — e a de um jovem que transformou uma paixão inicial pela floresta amazônica em uma investigação profunda sobre como o cérebro aprende.
Citas Notables
Muitos pesquisadores poderiam simplesmente ignorar os dados. Eu preferi investigar o que estava acontecendo.— Kauê Costa, sobre sua descoberta de alterações comportamentais em camundongos transgênicos
Já é difícil encontrar brasileiros no círculo de pesquisadores do qual faço parte. Alguém do Norte, com uma história e ascendência cabocla e indígena, como a minha, é ainda mais raro.— Kauê Costa, sobre sua identidade como cientista brasileiro
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que você acha que a dopamina é tão central para entender o aprendizado?
Porque ela não apenas registra quando algo bom ou ruim acontece — ela sinaliza quando a realidade não corresponde ao que esperávamos. Esse desvio é o sinal que o cérebro usa para ajustar comportamentos futuros. É como o sistema de correção de rota do aprendizado.
E por que foi importante descobrir que aquele modelo de camundongo transgênico tinha problemas?
Porque centenas de pesquisadores estavam usando aquele modelo para estudar dopamina. Se você não questiona os dados estranhos, você perpetua um erro em toda a literatura científica. Alguém tinha que parar e perguntar: o que realmente está acontecendo aqui?
Você deixou o Brasil para fazer ciência. Sente que fez a escolha certa?
Fiz a escolha certa para minha pesquisa. Mas não é uma escolha sem custo. Você fica longe de casa, longe de colaboradores que poderiam ser incríveis. Por isso mantenho as parcerias com Belém — para não perder completamente essa conexão.
O que significa para você ter um laboratório com um logotipo da arte marajoara?
Significa dizer que sou daqui, que tenho uma história que não é a história padrão de um neurocientista. Significa reclamar espaço em um círculo onde pessoas como eu são raras. É um ato de visibilidade.
Você acha que mais cientistas brasileiros vão conseguir fazer pesquisa de ponta sem sair do país?
Espero que sim. Mas enquanto as condições não melhorarem, a realidade é que muitos de nós vamos continuar tendo que partir. E tudo bem reconhecer isso.