Helena é apenas um nome que eu acho mais apropriado a um personagem
Helena não era homenagem a mãe, irmã ou namorada, mas escolha artística baseada na mitologia grega e na história de Helena de Tróia. Manoel Carlos acreditava que as mulheres movem o mundo e são mais propensas a expressar emoções, tornando-as personagens mais ricas para a dramaturgia.
- Manoel Carlos morreu em 10 de janeiro aos 91 anos
- A primeira Helena apareceu em Baila Comigo em 1981, interpretada por Lilian Lemmertz
- Regina Duarte viveu Helena em três novelas: História de Amor (1995), Por Amor (1997) e Páginas da Vida (2006)
- Taís Araújo foi a primeira Helena negra em Viver a Vida (2009)
Manoel Carlos, falecido aos 91 anos, explicou que suas protagonistas chamadas Helena não eram homenagens a mulheres reais, mas inspiradas na mitologia grega e na complexidade feminina que o fascinava.
Manoel Carlos morreu no dia 10 de janeiro aos 91 anos, levando consigo uma era inteira da teledramaturgia brasileira. Deixou para trás um legado que inclui algumas das novelas mais memoráveis da televisão brasileira — e um mistério que intrigou gerações de telespectadores: por que quase todas as suas protagonistas se chamavam Helena?
A resposta, que o autor guardou por décadas, finalmente veio à luz em um especial lançado no Globoplay em celebração ao seu aniversário de 91 anos. Não era o que a maioria das pessoas imaginava. Manoel Carlos explicou que o nome não homenageava nenhuma mulher de sua vida pessoal — não era sua mãe, não era uma irmã, não era uma namorada ou ex-esposa. Helena era, simplesmente, um nome que ele considerava mais apropriado para um personagem de ficção do que para uma pessoa real.
A inspiração veio da mitologia grega. Manoel Carlos sempre se sentiu atraído por aquelas histórias antigas, e em particular pela figura de Helena de Tróia — a mulher raptada, casada com seu raptor, divorciada, que depois voltou a viver com o marido. Havia algo naquela narrativa de conflito, abandono e retorno que o fascinava profundamente. "Tudo isso me deu uma magia muito interessante, que me cativou muito", disse ele no especial.
Mas Helena era mais do que um nome bonito. Era um tipo de mulher — sempre infeliz no amor, sempre carregando conflitos internos, frequentemente guardando um lado sombrio que ninguém podia ver. Manoel Carlos acreditava que as mulheres movem o mundo, que nelas está tudo. Elas falam, confessam, reúnem as amigas para chorar juntas. Os homens, na sua visão, guardavam seus segredos. Por isso era mais fácil escrever sobre mulheres — elas ofereciam mais material dramático, mais profundidade, mais verdade.
A primeira Helena apareceu em Baila Comigo em 1981, interpretada por Lilian Lemmertz. Mas foi nos anos 1990 e 2000 que o personagem se consolidou na memória coletiva. Regina Duarte se tornou o rosto mais associado à Helena, vivendo a personagem em três momentos distintos: em História de Amor em 1995, em Por Amor em 1997 e em Páginas da Vida em 2006. Cada uma dessas Helenas refletia uma fase diferente da vida feminina, uma maturidade diferente.
Outras atrizes também deixaram sua marca no personagem. Vera Fischer trouxe uma Helena intensa e sensual em Laços de Família em 2000. Christiane Torloni criou uma Helena moderna em Mulheres Apaixonadas em 2003, dividida entre o amor do passado e as escolhas do presente. Taís Araújo fez história em 2009 ao ser a primeira Helena negra de Manoel Carlos em Viver a Vida, atualizando o arquétipo para a contemporaneidade. E Julia Lemmertz, filha de Lilian Lemmertz, fechou o ciclo em Em Família em 2014 com uma Helena introspectiva, marcada por silêncios e memórias.
Essas mulheres — e essas Helenas — ocuparam o centro de algumas das novelas mais importantes da história da televisão brasileira. Elas quase sempre viviam no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, um cenário que se tornou tão emblemático quanto o próprio nome. Juntas, transformaram Helena em um dos personagens mais reconhecíveis e queridos da dramaturgia brasileira, um arquétipo que evoluiu e se reinventou ao longo de décadas, mas que manteve sempre aquele núcleo de complexidade, conflito e profundidade que Manoel Carlos via na mitologia grega e nas mulheres que o cercavam.
Citações Notáveis
Helena é apenas um nome que eu acho mais apropriado a um personagem do que a uma pessoa real— Manoel Carlos
Sempre achei que a mulher move o mundo. Na mulher está tudo. É mais fácil pra mim escrever sobre mulheres porque as mulheres falam as coisas— Manoel Carlos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Se o nome Helena não era uma homenagem pessoal, por que ele se recusava a usar outros nomes para suas protagonistas?
Porque para Manoel Carlos, Helena não era apenas um nome — era uma estrutura narrativa. Era um personagem que já vinha carregado de significado mitológico, de história, de peso. Usar outro nome seria começar do zero.
Mas isso não limitava suas histórias? Não criava uma fórmula?
Talvez criasse, mas era uma fórmula que funcionava. O que importava não era o nome em si, mas o que ele permitia fazer — explorar mulheres complexas, infelizes no amor, carregando segredos. O nome era apenas o recipiente.
Você acha que ele via as mulheres reais dessa forma — como Helenas?
Acho que ele via as mulheres como mais honestas, mais dispostas a revelar suas contradições. E isso o fascinava como dramaturgo. As mulheres falavam, confessavam, choravam juntas. Havia drama ali.
E quando Taís Araújo viveu Helena em 2009, algo mudou?
Mudou porque o Brasil tinha mudado. Helena podia ser negra agora. O arquétipo era flexível o suficiente para evoluir, mas mantinha seu núcleo — aquela complexidade, aquele conflito interno que Manoel Carlos sempre buscou.
Você acha que ele sabia que Helena se tornaria tão icônica?
Provavelmente não. Ele estava apenas escrevendo sobre mulheres da forma que sabia fazer. O resto — a iconografia, a memória coletiva — foi construído ao longo do tempo, por essas atrizes e por quem as assistia.