Gastei poucas centenas de reais no seguro e economizei muitos milhares de dólares
No Rio Grande do Sul, a memória coletiva de uma enchente devastadora e a dor alheia de tragédias noticiadas ao redor do mundo transformaram silenciosamente o comportamento de quem viaja. Entre janeiro e abril de 2025, mesmo com o número de voos reduzido em quase 40%, a procura por seguro-viagem cresceu 159,3% — um sinal de que o imprevisível, quando vivido de perto, deixa de ser abstrato. Os gaúchos parecem ter aprendido, à força, que proteger uma jornada não é precaução excessiva, mas reconhecimento honesto da fragilidade de qualquer plano humano.
- A enchente de 2024 paralisou o aeroporto por semanas e cancelou voos em cascata, gravando na memória coletiva gaúcha o custo real de viajar sem proteção.
- Casos como a morte de uma brasileira na Indonésia e a dificuldade da família em repatriar o corpo viralizaram e funcionaram como campanhas involuntárias de conscientização.
- O valor total contratado em seguros-viagem no Estado chegou a R$ 17,6 milhões no primeiro quadrimestre, com indenizações pagas somando R$ 8 milhões — crescimento de 71,5%.
- Uma viajante gaúcha torceu o tornozelo na Tailândia e viu o seguro cobrir ortopedista, raio X, muletas e cadeira de rodas — economizando milhares de dólares com uma apólice de poucas centenas de reais.
- A exigência obrigatória de seguro-saúde pela Argentina a partir de maio, principal destino internacional dos gaúchos, deve acelerar ainda mais essa tendência nos próximos meses.
No primeiro quadrimestre de 2025, algo paradoxal chamou a atenção nos aeroportos gaúchos: enquanto o número de voos caía quase 40% em relação ao ano anterior, a procura por seguro-viagem disparava 159,3%. O fenômeno revela uma mudança profunda na mentalidade de quem viaja no Rio Grande do Sul.
A enchente de 2024 foi o ponto de virada. Com o aeroporto inoperante por semanas e voos cancelados em cascata, milhares de pessoas tiveram planos desfeitos e aprenderam na prática o quanto pode dar errado em uma jornada. Richard Abbade, diretor da seguradora On Time, resume: a catástrofe fez os viajantes compreenderem que seguro não é luxo — é proteção contra o imprevisível. Muitos que adiaram viagens em 2024 estão viajando agora, mas desta vez protegidos.
Casos midiáticos amplificaram essa consciência. A morte de Juliana Marins na Indonésia e a dificuldade da família em repatriar o corpo ecoaram nas redes sociais e nas conversas de quem planeja viajar. João Augusto Machado, presidente da Abav-RS, observa que eventos de grande repercussão funcionam como campanhas involuntárias de conscientização.
O impacto concreto aparece nos números: R$ 17,6 milhões em contratações e R$ 8 milhões em indenizações pagas no período. Loiva Bertol, 50 anos, viveu na prática esse valor ao torcer o tornozelo durante uma caminhada na Tailândia — o seguro cobriu consulta, raio X, muletas e cadeira de rodas, poupando-lhe milhares de dólares.
O cenário deve se intensificar. A Argentina, principal destino internacional dos gaúchos, passou a exigir seguro-saúde de todos os turistas a partir de maio. Os viajantes gaúchos, que aprenderam com a enchente que o imprevisto é sempre possível, parecem estar um passo à frente dessa tendência global.
No primeiro quadrimestre de 2025, algo inusitado aconteceu nos aeroportos do Rio Grande do Sul. Enquanto o número de voos despencava — caindo 38,41% em relação ao mesmo período do ano anterior — a procura por seguro-viagem disparava. Entre janeiro e abril, as buscas por essas coberturas cresceram 159,3%, um salto que chamou a atenção de especialistas do setor e revelou uma mudança profunda na forma como os gaúchos pensam sobre viagens.
O fenômeno não é coincidência. A enchente de 2024 deixou marcas profundas no Estado, e não apenas nas estruturas físicas. O aeroporto ficou inoperante por semanas. Voos foram cancelados em cascata. Milhares de pessoas tiveram suas viagens desfeitas, seus planos adiados, suas vidas temporariamente paralisadas. Aqueles que conseguiram viajar nos meses seguintes carregavam consigo a lembrança vívida do caos — e uma nova consciência sobre o quanto pode dar errado em uma jornada.
Os números refletem essa transformação. No primeiro quadrimestre, o valor total gasto em contratações de seguro-viagem no Estado chegou a R$ 17,6 milhões. As indenizações pagas cresceram 71,5%, somando R$ 8 milhões. Richard Abbade, diretor da seguradora On Time e vice-presidente da União Gaúcha dos Operadores e Representantes de Turismo, resume o fenômeno de forma direta: a enchente gerou cancelamentos, atrasos e transtornos que fizeram os viajantes compreender, finalmente, que um seguro não é luxo — é proteção contra o imprevisível.
Mas a enchente não foi o único fator. Casos midiáticos amplificaram essa consciência. A morte de Juliana Marins durante uma viagem na Indonésia, e a subsequente dificuldade da família em trazer o corpo de volta ao Brasil, ecoou nas redes sociais e nas conversas de quem planeja viajar. João Augusto Machado, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens no Rio Grande do Sul, observa que eventos de grande repercussão na mídia funcionam como campanhas involuntárias de conscientização. Quando o aeroporto fechou por semanas, quando histórias de morte no exterior ganharam os jornais, as pessoas começaram a perguntar: e se isso acontecer comigo?
O seguro-viagem oferece respostas para cenários que antes pareciam remotos. Cobre emergências médicas — desde uma simples consulta até cirurgias e internações. Indeniza por atrasos de voo, cancelamentos, bagagens extraviadas ou roubadas. Em casos extremos, como morte no exterior, pode cobrir os custos de traslado do corpo. Loiva Bertol, uma gaúcha de 50 anos, descobriu na prática o valor dessa proteção. Durante uma caminhada na Tailândia em março, torceu o tornozelo. O seguro cobriu a consulta com ortopedista, raio X, enfaixamento, muletas e até uma cadeira de rodas. Ela gastou poucas centenas de reais na apólice e economizou milhares de dólares em custos médicos.
Edgar Anuseck Neto, diretor do Sindicato das Seguradoras no Rio Grande do Sul, aponta outro aspecto importante: muitas pessoas que foram diretamente atingidas pela enchente ou que tiveram voos cancelados em 2024 adiaram suas viagens. Agora, nos primeiros meses de 2025, essas mesmas pessoas estão viajando — mas desta vez, protegidas. É uma geração de viajantes que aprendeu a lição à força.
O cenário tende a se intensificar. Em maio, o governo argentino tornou obrigatório que todos os turistas apresentem um seguro-saúde válido para entrar no país. A Argentina é um dos principais destinos internacionais para gaúchos, e essa exigência deve impulsionar ainda mais as contratações nos próximos meses. Diferentemente da Argentina, apenas os países do Espaço Schengen europeu — 27 nações incluindo Alemanha, França, Itália, Portugal e Espanha — exigem seguro-saúde na entrada. Mas a tendência global aponta para mais restrições, não menos. Os viajantes gaúchos, que aprenderam com a enchente que o imprevisto é sempre possível, parecem estar um passo à frente.
Citas Notables
O principal fator que contribui para esse aumento, infelizmente, foi a enchente, que gerou muitos cancelamentos de voos, atrasos e outros transtornos. Depois da enchente do ano passado, os viajantes ficaram mais atentos a essas questões.— Richard Abbade, diretor da seguradora On Time
Casos de grande repercussão na mídia normalmente têm esse efeito de conscientização, é o que devemos observar também depois do caso da brasileira que morreu durante viagem na Indonésia.— João Augusto Machado, presidente da Abav-RS
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a enchente de 2024 teria impacto tão direto na decisão de contratar seguro em 2025? As pessoas não deveriam estar viajando menos, não mais?
Exatamente o oposto. Quem foi atingido ou viu o caos do aeroporto fechado adiou viagens em 2024. Agora, em 2025, essas pessoas estão retomando seus planos — mas com uma cicatriz. Sabem que pode dar errado.
E os que não foram diretamente atingidos? Por que eles também estão comprando mais seguro?
Porque viram acontecer. O aeroporto fechou por semanas. Voos foram cancelados. Aquilo não foi um boato — foi na televisão, nos jornais, nas redes. Quando você vê uma coisa dessas, muda sua percepção de risco.
Mas o seguro-viagem é caro? Por que as pessoas não compravam antes?
Muitos pensam que é só para emergências médicas graves ou viagens internacionais caras. Não sabem que cobre atraso de voo, bagagem extraviada, roubo. A enchente e os casos midiáticos — como a morte na Indonésia — tornaram essas proteções visíveis.
A Argentina exigindo seguro obrigatório vai mudar ainda mais as números?
Com certeza. Quando algo vira obrigatório, deixa de ser opção. Muitos gaúchos ainda não contratam porque acham que é opcional. Quando a Argentina começar a barrar quem não tem, a procura vai explodir.
Então a enchente foi um catalisador involuntário para uma mudança de comportamento?
Perfeito. Ninguém quer uma enchente para aprender sobre seguro-viagem. Mas uma vez que aprendem — à força — não voltam atrás.