A qualquer sopro mais forte, a casa cai
Safra quer invalidar acordo assinado por BTG, Itaú, Bradesco e Santander, argumentando que protege interesses pessoais dos acionistas controladores. Banco acusa trio de negligência ao não detectar fraude múltiplas vezes maior que patrimônio da empresa, apesar de participação no conselho.
- Safra entrou com ação na 4ª Vara Empresarial do Rio para invalidar o PSA assinado por BTG, Itaú, Bradesco e Santander
- Fraude descoberta era múltiplas vezes maior que o patrimônio da Americanas
- Lemann, Telles e Sicupira oferecem menos de um terço do valor total da fraude
- Segunda fraude contábil no grupo em pouco mais de um ano (Kraft Heinz foi a primeira)
O banco Safra, único credor que não aderiu ao acordo de recuperação judicial da Americanas, entrou com ação judicial questionando a legalidade do PSA e acusa os acionistas Lemann, Telles e Sicupira de tentar dar calote na fraude contábil.
O Safra fez sua posição cristalina na última segunda-feira: enquanto quatro grandes bancos credores da Americanas fechavam um acordo de recuperação judicial, o Safra entrou na Justiça para derrubá-lo. A ação foi protocolada na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro com um pedido simples mas radical — que o tribunal realizasse um "controle prévio de legalidade" do novo plano apresentado pela varejista após a assinatura do PSA (Protocolo de Solução Amigável) entre a empresa e BTG, Itaú, Bradesco e Santander.
O banco não apenas questionou o acordo em termos legais. Seus advogados argumentaram que o PSA e o plano de recuperação que o acompanha foram estruturados com o objetivo explícito de "salvaguardar os interesses pessoais dos acionistas de referência" — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles. Na linguagem da ação judicial, o Safra descreveu o acordo como "frágil e inconsistente", usando uma metáfora que pegou: "a qualquer sopro mais forte, a casa cai". O banco argumentou que nenhum credor deveria aprovar um plano que não oferecesse segurança mínima ou que não demonstrasse que a empresa estava realmente embarcando em suas novas obrigações.
Mas a ação judicial foi apenas o primeiro movimento. O Safra preparou também uma nota oficial que, segundo fontes, seria divulgada ainda naquele dia — e que representaria talvez o ataque mais contundente contra o trio desde que o escândalo da Americanas explodiu em janeiro. O banco não poupou palavras. Acusou Lemann, Telles e Sicupira de agir "como se estivessem acima da lei", tentando impedir que os credores continuassem investigações sobre as verdadeiras causas da fraude contábil.
O Safra apontou a negligência do trio de forma específica. Lembrou que Sérgio Rial, o novo CEO, havia revelado em poucos dias uma fraude múltiplas vezes maior que o patrimônio inteiro da companhia. Depois disso, os acionistas controladores começaram a se apresentar como vítimas, afirmando que "nada sabiam" — apesar de terem participado do conselho da Americanas por quase duas décadas, apesar de seus filhos Paulo Lemann e Cecília Sicupira também terem assentos no conselho, e apesar de essa ser a segunda fraude contábil descoberta no grupo em pouco mais de um ano (a primeira havia sido na Kraft Heinz). O banco questionou ainda a estrutura de investigação interna: um "Comitê Independente" nomeado pelo próprio conselho para investigar quem o nomeou — uma contradição que o Safra descreveu como "absurda".
O ponto central da acusação do Safra era que o novo plano de recuperação funcionava como uma manobra para encobrir responsabilidades. Ao condicionar o voto dos credores a um compromisso de não litigar ou investigar contra os acionistas controladores, seus familiares e outros conselheiros, a empresa estaria tentando encerrar as discussões sem que a verdade fosse apurada. E aqui o Safra tocou no que talvez fosse o ponto mais sensível: os acionistas de referência tinham "condição total para honrar essa fraude", mas estavam oferecendo apenas "menos de um terço do valor total da fraude" — uma quantia que o banco descreveu como "inexpressiva em relação aos seus patrimônios".
O Safra, portanto, não estava apenas discordando de um acordo comercial. Estava acusando o trio de tentar dar um calote estruturado, usando a recuperação judicial como cobertura para escapar de responsabilidades que, na visão do banco, eram inescapáveis. A disputa que se abria não era apenas sobre números e legalidade, mas sobre quem pagaria pelo que havia acontecido — e se aqueles que estavam no topo quando a fraude ocorria conseguiriam sair ilesos.
Citações Notáveis
Os acionistas de referência, tendo condição total para honrar essa fraude, que ocorreu debaixo de seus narizes, querem encerrar as discussões e fugir de suas obrigações colocando menos de um terço do valor total da fraude— Nota oficial do Safra
Lemann, Telles e Sicupira, como se estivessem acima da lei, tentam impedir que os credores continuem as investigações para tentar apurar as verdadeiras causas da fraude— Nota oficial do Safra
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Safra se recusou a assinar o acordo que os outros quatro bancos aceitaram?
Porque o acordo, na visão do Safra, protege os acionistas controladores em vez de proteger os credores. Os outros bancos aceitaram uma solução que deixa Lemann, Telles e Sicupira com responsabilidade limitada.
O banco está dizendo que o trio sabia da fraude o tempo todo?
Não exatamente. O Safra está dizendo que eles deveriam ter sabido. Estavam no conselho, seus filhos estavam no conselho, seus executivos administravam a empresa há quase vinte anos. A fraude era múltiplas vezes maior que o patrimônio da companhia. Como ninguém viu?
E se realmente não viram? Se foi uma fraude sofisticada?
O Safra não está comprando essa história. Especialmente porque essa é a segunda fraude contábil no grupo em um ano — a Kraft Heinz teve a primeira. Em algum ponto, a negligência vira cumplicidade, ou pelo menos responsabilidade.
O que o Safra quer que aconteça agora?
Quer que o tribunal invalide o acordo e que as investigações continuem. Quer que os credores tenham direito de processar os acionistas. E quer que o trio coloque mais dinheiro na mesa — muito mais do que um terço da fraude.
Isso vai atrasar a recuperação da Americanas?
Provavelmente. Se o tribunal aceitar o argumento do Safra, todo o plano volta para trás. E enquanto isso, a empresa continua em crise, os credores continuam sem receber, e a verdade sobre quem sabia o quê continua enterrada.
Por que os outros bancos aceitaram um acordo que o Safra rejeita?
Talvez porque queriam encerrar a incerteza. Talvez porque acreditam que é melhor receber algo agora do que esperar anos por um litígio. Ou talvez porque têm relacionamentos comerciais com os acionistas que o Safra não tem. O Safra está apostando que a lei está do seu lado.