Rússia venceu na Ucrânia e China derrotou Trump, aponta Pepe Escobar de Moscou

Moscou se mantém como uma das capitais mundiais do diálogo
Escobar conclui que a cidade permite debate sem filtros sobre temas espinhosos, refletindo a centralidade crescente da Eurásia.

Rússia reorienta abastecimento energético para Ásia via Power of Siberia 2, simbolizando afastamento definitivo do mercado europeu. EUA enfrentam derrota comercial e tecnológica para China, levando Washington a deslocar atenção para América Latina e Sul Global.

  • Power of Siberia 2 conectará Rússia e China via Mongólia, reorientando abastecimento energético russo para a Ásia
  • Cúpula extraordinária da Organização de Cooperação de Xangai reuniu representantes de China, Índia, Irã e Mongólia em Moscou
  • Escobar identifica derrota comercial e tecnológica dos EUA para a China como fator que desloca atenção americana para o Sul Global
  • Chanceler Lavrov sinalizou que qualquer encontro Moscou-Washington dependerá de mudanças concretas na agenda norte-americana

Analista Pepe Escobar relata de Moscou que Rússia venceu na Ucrânia e China derrotou EUA na guerra comercial, alertando para possível ofensiva ocidental no Sul Global sob nova 'Doutrina Monroe'.

Pepe Escobar chegou a Moscou no final do outono e se viu imediatamente envolvido num redemoinho de conversas estratégicas. A capital russa fervia de atividade diplomática — uma cúpula extraordinária da Organização de Cooperação de Xangai reunia representantes de alto nível da China, Índia, Irã e Mongólia para discutir temas que redefinem o equilíbrio energético global. No centro dessas negociações estava o Power of Siberia 2, um mega gasoduto que conectará a Rússia à China atravessando território mongol, marcando o ponto final de uma reorientação que vinha se desenhando há anos: o abastecimento energético russo, historicamente voltado para a Europa, agora se volta definitivamente para a Ásia.

Escobar atribui essa mudança à postura europeia, que ele descreve como resultado de uma "demência guerreira" alimentada por campanhas anti-russas que atingiram níveis exponenciais na mídia alemã, francesa, britânica e nórdica. O contraste com o ambiente de Moscou é, segundo sua observação, marcante: ali as questões estratégicas são debatidas em termos racionais, sem os filtros ideológicos que dominam o discurso ocidental. Os russos, por sua vez, mantêm cautela diante das incertezas políticas de Washington. O chanceler Sergei Lavrov sinalizou essa prudência de forma clara: qualquer novo encontro entre Moscou e Washington dependerá de mudanças concretas na agenda norte-americana, não de promessas vagas.

Escobar identifica dois movimentos geopolíticos que moldam a tensão internacional atual. O primeiro é o avanço russo no conflito ucraniano, que ele vê como consolidado. O segundo é a derrota praticamente inevitável dos Estados Unidos na disputa comercial e tecnológica contra a China — uma derrota que, segundo sua análise, força Washington a deslocar sua atenção para o Sul Global, em especial para a América Latina, numa estratégia que ele chama de "Doutrina Monroe 2.0". Essa reorientação não é casual: é a resposta de uma potência que perde espaço nas arenas econômica e tecnológica e tenta recuperar influência onde ainda pode exercê-la.

O risco dessa ofensiva ocidental no Sul Global é real e multifacetado. Escobar alerta para possíveis tentativas de desestabilização política na região, que podem variar desde movimentos indiretos até intervenções mais profundas. No caso da Venezuela, qualquer ação externa poderia ter "consequências inimagináveis", inclusive o risco de transformar o país em um novo Vietnã — uma comparação que não é hiperbólica, mas um aviso baseado em padrões históricos de intervenção.

O realinhamento no Oeste Asiático reforça essa dinâmica. Regimes árabes sunitas aderiram aos Acordos de Abraão sob pressão norte-americana, afastando-se da causa palestina e da coordenação com potências não-alinhadas. Em contraste, a coordenação entre os Brics e a Organização de Cooperação de Xangai se fortalece, reforçada pela presença de lideranças estratégicas em Moscou durante a semana da cúpula.

Durante sua estadia, Escobar conversou com o economista russo Sergei Glazyev, responsável pelas negociações do Estado União entre Rússia e Belarus. Glazyev apresentou uma perspectiva intrigante sobre a estratégia fiscal norte-americana: o governo Trump poderia transferir a dívida pública dos EUA para um futuro dólar digital, como forma de administrar o impacto dos trilhões acumulados. É uma solução que reflete a criatividade — ou o desespero — de uma potência enfrentando limites econômicos reais.

Um ponto que Escobar levanta, quase de passagem mas com peso considerável, é a necessidade de aprofundar o intercâmbio acadêmico entre Rússia e China. Faltam especialistas dos dois lados capazes de compreender com profundidade as dinâmicas históricas e culturais envolvidas nessa parceria estratégica. Essa lacuna é significativa: a aliança sino-russa é menos uma amizade ideológica e mais uma convergência de interesses, e entendê-la requer conhecimento que vai além dos comunicados diplomáticos.

De Moscou, Escobar conclui que a cidade se mantém como uma das capitais mundiais do diálogo, onde temas espinhosos — inclusive para os próprios russos — são debatidos sem filtros. Essa abertura reflete a centralidade crescente da Eurásia na reorganização da ordem internacional. O que está em jogo não é apenas a Ucrânia ou o comércio sino-americano, mas a estrutura fundamental do poder global nos próximos anos.

Enquanto não tiver as condições estabelecidas, não tem menor sentido a gente fazer um novo encontro
— Chanceler Sergei Lavrov, conforme relatado por Escobar
Aqui se discute tudo em termos racionais
— Pepe Escobar, descrevendo o ambiente de Moscou
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Escobar vê a reorientação energética russa como tão definitiva? Não poderia haver uma reconciliação com a Europa?

Model

Porque a "demência guerreira" europeia, como ele a chama, não é um acidente político passageiro. É uma campanha sistemática que destruiu a confiança. Quando você constrói um gasoduto para a Ásia em vez da Europa, está dizendo que não acredita mais que a Europa será um parceiro confiável. Essa decisão é irreversível.

Inventor

E quanto a Trump? Escobar sugere que os russos estão esperando por algo específico dele?

Model

Não estão esperando promessas. Lavrov foi claro: sem mudanças concretas na agenda norte-americana, não há sentido em se reunir. Os russos aprenderam que palavras não significam nada. Precisam ver ações.

Inventor

Qual é o maior risco que Escobar identifica para a América Latina?

Model

A "Doutrina Monroe 2.0" — Washington deslocando sua atenção para a região porque perdeu espaço na Ásia. Não é uma ameaça abstrata. É uma potência em declínio tentando recuperar influência onde ainda pode. A Venezuela é o exemplo mais perigoso: qualquer intervenção lá poderia se transformar num conflito prolongado.

Inventor

Como a China derrotou os EUA na guerra comercial, segundo essa análise?

Model

Não foi uma batalha única. Foi a acumulação de vantagens tecnológicas, capacidade de manufatura, e uma estratégia de longo prazo que os EUA subestimaram. Agora os americanos enfrentam uma derrota "praticamente inevitável", como Escobar diz. Isso muda tudo — força Washington a buscar poder em outro lugar.

Inventor

E o intercâmbio acadêmico que Escobar menciona? Por que isso importa?

Model

Porque a aliança sino-russa não é baseada em ideologia compartilhada. É convergência de interesses. Sem especialistas que entendam profundamente as dinâmicas históricas e culturais dos dois lados, a parceria fica frágil. É um detalhe que revela como essas alianças precisam de fundações sólidas, não apenas de conveniência.

Inventor

Moscou realmente funciona como um espaço de diálogo racional, como Escobar sugere?

Model

Segundo ele, sim. E isso é importante porque contrasta com o Ocidente, onde certos temas não podem ser discutidos sem filtros ideológicos. Moscou permite o debate sem censura, mesmo sobre questões difíceis. Isso a torna central na reorganização da ordem internacional.

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