Eles não estão deixando que os russos ocupem a cidade
Rússia reposiciona tropas para o leste após derrotas em Kiev, focando na conquista total de Donbass, região historicamente industrial e de maioria russófona. Ucrânia mantém forças bem treinadas na região desde 2014 e promete resistência total; cidades como Slovyansk são consideradas cruciais para o sucesso da defesa ucraniana.
- Rússia afirma controlar 93% de Luhansk e 54% de Donetsk após um mês de guerra
- Slovyansk, cidade de 125 mil habitantes, é considerada crucial para o sucesso da defesa ucraniana
- Dez brigadas da Operação de Forças Conjuntas formam o núcleo da defesa ucraniana no leste desde 2014
- Cidades como Rubizhne, Lysychansk, Popasna e Severodonetsk estão sob bombardeio intenso
Após recuar de Kiev, a Rússia concentra esforços em conquistar Donbass no leste ucraniano, região de importância estratégica e simbólica. A Ucrânia promete resistir a cada metro do território enquanto a comunidade internacional observa o prolongamento do conflito.
Depois de semanas recuando diante da resistência ucraniana perto de Kiev, a Rússia reposicionou suas forças. O foco agora é o leste — a região conhecida como Donbass, dois territórios imensos chamados Luhansk e Donetsk que se estendem do sul, perto de Mariupol, até a fronteira russa ao norte. Para Putin, conquistar essa zona não é apenas uma questão militar. É simbólica. É histórica. É a chance de reivindicar uma vitória antes do Dia da Vitória em 9 de maio, quando a Rússia celebra sua derrota da Alemanha nazista em 1945.
O Donbass é o antigo coração industrial da Ucrânia — região de carvão e aço onde o russo é amplamente falado. Putin identificou-a como território que deveria ser russo, não ucraniano. Pouco antes de invadir, ele reconheceu formalmente as duas regiões como independentes da Ucrânia. Agora, se conseguisse conquistá-las, poderia anexá-las como fez com a Crimeia em 2014, através de um referendo contestado. Mas o caminho até lá é longo e sangrento. Quando a guerra começou, dois terços dessas regiões estavam sob controle ucraniano. O restante era governado por separatistas apoiados pela Rússia desde 2014. Um mês após a invasão, a Rússia afirmava controlar 93% de Luhansk e 54% de Donetsk — números que mascaram a realidade de um território vasto demais para ser facilmente dominado.
A estratégia russa é cercar o exército ucraniano vindo do norte, leste e sul, movendo-se principalmente pelas rodovias principais e ferrovias. Cidades como Izyum, uma encruzilhada estratégica, já caíram. Mas o próximo grande teste é Slovyansk, uma cidade de 125 mil habitantes que foi tomada pelos russos em 2014 e depois recapturada pelos ucranianos. Analistas americanos do Instituto de Estudos da Guerra afirmam que se a Ucrânia mantiver Slovyansk, a campanha russa para conquistar as duas regiões provavelmente fracassará. Mais a leste, cidades como Rubizhne, Lysychansk, Popasna e Severodonetsk já estão sob bombardeio intenso. Blocos de apartamentos desabam. Civis morrem em suas casas. Os russos querem essas cidades porque controlá-las permitiria reunir suas forças e avançar para o oeste, fechando um cerco.
A Ucrânia tem uma vantagem: as forças mais bem treinadas do país já estavam posicionadas no leste desde a guerra de 2014 contra os separatistas. Dez brigadas da Operação de Forças Conjuntas formam o núcleo da defesa. Sofreram perdas significativas, mas ainda representam um desafio formidável. O presidente Volodymyr Zelensky prometeu lutar por cada metro do território. Especialistas em defesa acreditam que a estratégia ucraniana é infligir o máximo de perdas possível aos russos usando táticas assimétricas, evitando grandes batalhas convencionais. Enquanto isso, as forças russas — compostas por homens recrutados das regiões separatistas e do exército regular — já sofreram perdas enormes e o moral está abalado.
Mas há um custo humano imenso. Maryna Agafonova, 27 anos, fugiu de Lysychansk deixando seus pais para trás enquanto as bombas caem. Ela relatou à BBC que não há aquecimento, nem eletricidade. Os hospitais foram atacados. Os prédios residenciais também. Nas áreas controladas pelos separatistas, a vida é mais calma, mas assustadora. Uma mulher anônima de Luhansk descreveu blindados russos nas ruas, homens sendo convocados à força para as milícias locais, pessoas sendo presas nas ruas se tentarem fugir do alistamento. Os homens desapareceram das lojas, das ruas, das cidades. Ela disse que já se sentem parte da Rússia — informalmente. Todos têm passaportes russos. Nas estações ferroviárias, civis fogem para o oeste em trens e ônibus enquanto ainda podem. Em 8 de abril, um ataque russo à estação de Kramatorsk matou dezenas de pessoas na plataforma. As linhas para Rubizhne, Izyum, Mariupol e Melitopol foram cortadas. Apenas Slovyansk ainda tinha trens saindo para o oeste.
O que vem a seguir é incerto. A Rússia controla grandes áreas, mas não conseguiu infligir uma derrota decisiva às forças armadas ucranianas. Não conseguiu tomar Kharkiv, a segunda maior cidade do país. Mariupol foi reduzida a ruínas, mas a resistência ucraniana não foi quebrada. Os russos estão tentando controlar as linhas de suprimento — rodovias e ferrovias — para cortar a mobilidade ucraniana e facilitar seu próprio avanço. Mas cada cidade é uma batalha. Cada quilômetro custa vidas. E se a Ucrânia conseguir manter Slovyansk, toda a campanha russa pode entrar em colapso. O que começou como uma tentativa de captura rápida de Kiev transformou-se em uma guerra de atrito no leste, onde o terreno é vasto, as cidades são fortes, e nenhum dos lados está disposto a ceder.
Notable Quotes
Vamos lutar por cada metro da nossa terra— Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky
Se a Ucrânia mantiver o controle de Slovyansk, a campanha russa para capturar as duas regiões provavelmente irá fracassar— Instituto de Estudos da Guerra (ISW)
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Putin insiste tanto em Donbass? Não é apenas mais um pedaço de território?
Não. Para Putin, é o coração da Ucrânia — literalmente. É onde falam russo, onde há indústria pesada, onde ele pode argumentar que está "libertando" pessoas que deveriam ser russas. É também simbólico. Se conseguir conquistar antes de 9 de maio, pode exibir como vitória no Dia da Vitória.
Mas a Ucrânia está realmente em posição de resistir?
Sim, porque as forças mais bem treinadas da Ucrânia já estavam lá desde 2014. Eles conhecem o terreno. Conhecem as táticas. Sofreram perdas, mas não foram quebrados. E a Rússia também sofreu perdas enormes.
Qual é o ponto crítico? Onde a guerra se decide?
Slovyansk. Se a Ucrânia mantiver essa cidade, os analistas americanos dizem que a campanha russa provavelmente fracassa. É por isso que os russos estão bombardeando cidades ao redor dela — tentando cercar, cortar as linhas de suprimento.
E os civis? O que está acontecendo com eles?
Estão sendo evacuados. Trens saindo para o oeste enquanto ainda há linhas abertas. Mas muitos não conseguem sair. Nas áreas separatistas, homens estão sendo forçados ao alistamento. Mulheres ficam para trás. Cidades inteiras estão sendo bombardeadas — hospitais, prédios residenciais. Mariupol é praticamente ruínas.
Isso pode durar muito tempo?
Tudo indica que sim. Não é uma guerra de movimento rápido. É cerco, é atrito, é controle de infraestrutura. Os russos querem as ferrovias e rodovias. Os ucranianos querem mantê-las abertas. Cada quilômetro é uma batalha.