Expandiu demais usando fazendas como moeda de troca
Uma das maiores forças do agronegócio cafeeiro brasileiro, a Ruiz Coffees, obteve da Justiça uma pausa de 60 dias em todos os seus pagamentos — um sinal de que a expansão acelerada dos últimos anos cobrou seu preço. A empresa, que atravessa uma transição de liderança após a morte de seu fundador, enfrenta vencimentos simultâneos de dívidas em instrumentos de mercado de capitais que somam ao menos R$ 300 milhões. O momento coloca em xeque não apenas o futuro de um grupo centenário, mas também a confiança dos investidores no modelo de financiamento agrícola via CRAs e Fiagros.
- A Ruiz Coffees, segundo maior produtora de café do Brasil, suspendeu todos os pagamentos aos credores por decisão judicial — um movimento raro e de alto impacto no setor.
- Vencimentos simultâneos de CRAs, somando ao menos R$ 300 milhões, ameaçam a solvência de uma empresa que cresceu rápido demais usando suas próprias fazendas como garantia.
- Três Fiagros — Vectis, Galápagos e Suno — têm exposição direta à dívida e podem acabar como proprietários das fazendas caso as garantias fiduciárias sejam executadas.
- A empresa garante que colheita, beneficiamento e distribuição seguem normais, mas o risco para fornecedores e empregos cresce a cada dia sem acordo.
- Os próximos 60 dias definem o destino da Ruiz: um acordo negociado ou uma recuperação judicial que pode redesenhar o mapa do crédito agrícola no Brasil.
A Ruiz Coffees, segundo maior produtor de café do Brasil, recorreu à Justiça na segunda-feira para suspender todos os seus pagamentos aos credores. O juiz Paulo Roberto Zaidan Maluf, de São José do Rio Preto, concedeu uma medida cautelar que congela as dívidas por 60 dias. Se nenhum acordo for alcançado nesse prazo, a recuperação judicial se torna o próximo passo.
A empresa chegou a esse ponto após uma expansão agressiva financiada pelo mercado de capitais. A partir de 2021, a Ruiz emitiu um CRI e vários CRAs, usando suas fazendas — mais de 9 mil hectares de café arábica em Minas Gerais e Bahia — como garantia fiduciária. Agora, vários desses títulos estão vencendo ao mesmo tempo, e a companhia, que desde março de 2025 está sob o comando de João Luiz Lourenço Filho após a morte do patriarca, apontou esses vencimentos como risco direto à sua solvência.
Entre os credores expostos estão os Fiagros de Vectis (VCRA11), Galápagos (GCRA11) e Suno (SNAG11), este último com 5,67% de seu patrimônio líquido comprometido com a Ruiz. Como todos possuem alienação fiduciária como garantia, as fazendas podem acabar transferidas a esses fundos caso a recuperação judicial se concretize — embora a execução judicial no Brasil costume ser lenta. Considerando apenas os CRAs, o passivo chega a pelo menos R$ 300 milhões.
A Ruiz afirmou em nota que suas operações produtivas e comerciais seguem sem interrupções, com colheita, beneficiamento e distribuição preservados. Ainda assim, o mercado de capitais agrícola observa com atenção: os próximos 60 dias vão determinar se um grupo com quase um século de história consegue renegociar suas dívidas — ou se enfrenta um processo que pode redefinir o modelo de crédito no agronegócio brasileiro.
A Ruiz Coffees, segundo maior produtor de café do Brasil, bateu à porta da Justiça na segunda-feira para fazer algo que poucos grupos agrícolas de seu porte ousam fazer: suspender todos os pagamentos aos credores. O juiz Paulo Roberto Zaidan Maluf, da Vara Regional Empresarial de São José do Rio Preto, concedeu uma medida cautelar que congela as dívidas por 60 dias — um respiro que, se não resultar em acordo, pode levar a empresa direto para uma recuperação judicial.
A decisão ainda está sob sigilo, mas a notícia já circula pelos corredores da Faria Lima há semanas. O que surpreende é que a Ruiz chegou a esse ponto apesar de ter desfrutado de margens excepcionais nos últimos anos. A empresa, agora sob comando de João Luiz Lourenço Filho após a morte do patriarca em março de 2025, expandiu agressivamente — talvez demais. Com mais de 9 mil hectares de café arábica espalhados entre Minas Gerais e Bahia, a companhia começou a acessar o mercado de capitais em 2021, emitindo primeiro um CRI e depois vários CRAs. Para financiar essa expansão, usou suas próprias fazendas como garantia fiduciária, um tipo de penhor que fica fora do escopo de uma recuperação judicial e oferece proteção extra aos credores.
O problema é que vários desses títulos estão vencendo agora. No pedido enviado à Justiça, a Ruiz apontou justamente a proximidade desses vencimentos como risco à sua solvência. Entre os credores estão três fundos de investimento em agronegócio: o Fiagro de Vectis (VCRA11), o de Galápagos (GCRA11) e o de crédito da Suno (SNAG11). Este último tem uma exposição equivalente a 5,67% de seu patrimônio líquido na Ruiz. Todos os três possuem alienação fiduciária como garantia — o que significa que, se a recuperação judicial se concretizar, as fazendas podem acabar nas mãos desses fundos, ainda que a Justiça demore para executar as garantias, algo comum no Brasil. Considerando apenas os CRAs, as dívidas da Ruiz somam pelo menos R$ 300 milhões.
Em nota, a empresa afirmou que suas operações produtivas e comerciais seguem funcionando normalmente, sem interrupções. A colheita, o beneficiamento e a distribuição de café para os mercados nacional e internacional permanecem ativos, disse a Ruiz, protegendo postos de trabalho e a cadeia de fornecedores. A companhia reafirmou seu compromisso com a transparência e sua confiança no diálogo com instituições parceiras e investidores.
Mas a realidade é que os próximos 60 dias são críticos. Se a Ruiz não conseguir chegar a um acordo com seus credores durante esse período, o processo se transformará em uma recuperação judicial — com todas as consequências que isso implica para um grupo que construiu sua reputação em quase um século de operações. O mercado de capitais agrícola, que apostou na expansão da empresa, agora observa atentamente o desenrolar dessa negociação.
Citações Notáveis
Suas operações produtivas e comerciais permanecem em funcionamento integral e normal, sem qualquer interrupção— Grupo Ruiz, em nota
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como um produtor que desfrutava de margens excepcionais chega a esse ponto de ter que suspender pagamentos?
A expansão agressiva consome capital. A Ruiz usou suas fazendas como garantia para financiar o crescimento — uma estratégia que funciona enquanto os preços do café e as condições de mercado permanecem favoráveis. Quando os vencimentos chegam todos de uma vez, a liquidez desaparece.
E por que a alienação fiduciária é tão importante nessa história?
Porque ela fica fora de uma recuperação judicial. Se a Ruiz entrar em recuperação, esses fundos de investimento podem executar suas garantias e tomar as fazendas sem passar pelo processo. É proteção extra para quem emprestou o dinheiro.
Então as fazendas podem mudar de dono?
Sim. Se não houver acordo nos próximos 60 dias, é provável que Vectis, Galápagos e Suno acabem controlando parte significativa das operações de café da Ruiz.
A empresa diz que continua operando normalmente. Isso é verdade?
Provavelmente sim, por enquanto. A colheita e a venda de café continuam gerando receita. Mas a incerteza jurídica afeta tudo — fornecedores ficam nervosos, clientes questionam a estabilidade, investidores se afastam.
Qual é o cenário mais provável daqui para frente?
Ou a Ruiz consegue renegociar as dívidas com os credores, ou entra em recuperação judicial. Não há muito meio termo quando você deve R$ 300 milhões em CRAs com vencimentos próximos.