RS quadruplica Defesa Civil e se prepara para Super El Niño, diz Leite

Enchentes de 2024 causaram 185 mortes, 23 desaparecidos, 806 feridos e desalojaram 581 mil pessoas em 478 municípios.
Não podemos controlar o clima, mas podemos controlar nossa preparação
O governador resume a mudança de mentalidade do estado após a tragédia de 2024.

Estado ampliou estrutura de monitoramento com 129 estações hidrometeorológicas, novos radares e programa Prepara RS focado em antecipação de riscos. Enchentes de 2024 deixaram 185 mortos, 23 desaparecidos e afetaram 2,39 milhões de pessoas em 478 municípios gaúchos.

  • Enchentes de 2024 deixaram 185 mortos, 23 desaparecidos, 806 feridos e afetaram 2,39 milhões de pessoas em 478 municípios
  • Prejuízo econômico estimado em R$ 88,9 bilhões segundo Banco Mundial, BID e Cepal
  • Estado quadruplicou estrutura de Defesa Civil com 129 estações hidrometeorológicas, três novos radares e programa Prepara RS
  • Todos os 497 municípios gaúchos agora têm planos de contingência, ante pouco mais de 60 em 2024
  • Investimento de R$ 70 milhões no Centro Estadual de Gestão Integrada de Riscos e Desastres e R$ 3 bilhões em rodovias

Governador do RS anuncia quadruplicação da Defesa Civil e novo programa de preparação para enfrentar Super El Niño, dois anos após enchentes de 2024 que causaram R$ 88,9 bilhões em prejuízos.

Duas semanas atrás, chuvas intensas voltaram a castigar o Rio Grande do Sul. As regiões Noroeste e Nordeste do estado entraram em alerta máximo. O Rio Uruguai subia perigosamente na Fronteira Oeste. E desta vez, havia algo diferente: o estado estava esperando.

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu sua maior tragédia climática registrada. Chuvas torrenciais transformaram rios em torrentes, deslizaram encostas inteiras, inundaram cidades. Quando tudo terminou, 185 pessoas estavam mortas. Outras 23 desaparecidas. Mais de 800 feridas. Em 478 municípios, 2,39 milhões de gaúchos tiveram suas vidas viradas de cabeça para baixo. No pico da crise, 581 mil pessoas foram desalojadas de suas casas. Os economistas fizeram as contas: R$ 88,9 bilhões em prejuízos diretos, segundo relatório conjunto do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.

Agora, com a chegada de um Super El Niño previsto pelos principais centros meteorológicos para os próximos meses, o estado está se preparando de forma radicalmente diferente. O governador Eduardo Leite, em entrevista exclusiva, afirma que o Rio Grande do Sul quadruplicou sua estrutura de Defesa Civil. Não é uma frase de efeito. Significa mais gente, mais equipamento, mais tecnologia, mais coordenação. O Corpo de Bombeiros foi ampliado. Uma rede inteira de monitoramento foi implantada do zero. Três novos radares meteorológicos foram contratados. Das 130 estações hidrometeorológicas planejadas, 129 já estão instaladas e em calibração.

Mas números de infraestrutura não contam a história completa. O que mudou, segundo Leite, foi a mentalidade. Antes, o estado reagia aos desastres. Agora, tenta antecipar-se a eles. O programa Prepara RS, lançado especificamente para enfrentar o El Niño 2026-2027, funciona como um guarda-chuva que reúne monitoramento, inteligência situacional, logística humanitária, comunicação de risco e fortalecimento dos municípios. Enquanto as chuvas caem, equipes já estão posicionadas. Informações do Centro de Monitoramento são compartilhadas com prefeituras antes da água chegar. Ajuda humanitária é pré-posicionada. Especialistas em gestão de desastres estão de prontidão.

O estado também está construindo infraestrutura para o longo prazo. Um Centro Estadual de Gestão Integrada de Riscos e Desastres, com investimento de R$ 70 milhões, reunirá monitoramento, inteligência e coordenação operacional em um único lugar. Quatro centros regionais e um centro estadual de logística humanitária darão mais velocidade à distribuição de ajuda. Obras estruturantes estão em execução: sistemas de drenagem sendo recuperados, rios sendo desassoreados, diques sendo reforçados, casas de bombas sendo restauradas. Cerca de R$ 3 bilhões estão sendo investidos em rodovias, com centenas de obras de contenção de encostas para tornar a infraestrutura mais resiliente.

Leite é claro sobre as limitações. Nenhuma região do mundo está blindada contra chuvas excepcionais. Um El Niño intenso não significa necessariamente a repetição de 2024, que foi resultado de uma combinação rara de fatores climáticos extremos. Mas o estado está trabalhando com a possibilidade de cenários críticos. O inverno e a primavera próximos representam períodos de risco elevado, com previsão de aumento na frequência e intensidade das chuvas.

O maior aprendizado da tragédia de 2024, segundo o governador, foi simples e profundo: não se pode controlar o clima, mas se pode controlar o nível de preparação. Antes, a preparação começava quando a chuva chegava. Agora começa meses antes, com planejamento, monitoramento, treinamento, fortalecimento das capacidades municipais. Dos 497 municípios gaúchos, pouco mais de 60 tinham planos de contingência em 2024. Hoje, todos os 497 têm. O estado também passou a trabalhar com previsão de impactos, não apenas previsão de tempo. Consegue modelar o comportamento dos rios, simular manchas de inundação, identificar previamente quais ruas e comunidades podem ser atingidas. Isso permite decisões mais rápidas para evacuação e proteção.

A integração entre estados também se intensificou. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná mantêm articulação permanente com compartilhamento de informações e coordenação de apoio operacional. O diálogo com o governo federal também se fortaleceu. A tragédia deixou claro que enfrentar mudanças climáticas exige atuação coordenada entre União, estados e municípios. Nos próximos meses, quando o Super El Niño chegar, o Rio Grande do Sul estará muito mais preparado do que estava há dois anos. Mas a verdadeira medida do sucesso será simples: quantas vidas serão poupadas.

Podemos dizer que fortalecemos muito a capacidade de prevenção e de resposta, embora nenhuma região do mundo esteja blindada diante de chuvas excepcionais
— Governador Eduardo Leite
A preparação não começa quando a chuva chega. Ela começa muito antes, com planejamento, monitoramento, treinamento das equipes e comunicação permanente com a população
— Governador Eduardo Leite
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o governador insiste tanto que nenhuma região do mundo está blindada contra chuvas excepcionais? Parece quase uma advertência.

Model

É uma advertência, sim. Ele está dizendo: não prometo que não vai chover, não prometo que não vai haver desastres. O que prometo é que estaremos muito mais preparados. É honestidade sobre os limites.

Inventor

A quadruplicação da Defesa Civil — isso é realmente significativo, ou é mais um número para parecer que algo foi feito?

Model

É significativo porque vem acompanhado de coisas concretas: 129 estações de monitoramento, novos radares, centros de coordenação sendo construídos. Não é só dizer que cresceu; é mostrar como cresceu e para quê.

Inventor

O programa Prepara RS parece focar muito em antecipar riscos. Como você antecipa um risco que ainda não aconteceu?

Model

Modelando. Você estuda como os rios se comportam em diferentes cenários de chuva, simula onde a água vai chegar, identifica quais comunidades estão no caminho. Não é adivinhação; é ciência aplicada.

Inventor

Mas se 2024 foi uma combinação rara de fatores extremos, como o estado se prepara para algo que talvez não se repita?

Model

Exatamente a questão. Você não se prepara apenas para 2024 de novo. Você se prepara para diferentes cenários: enchentes em vales, deslizamentos na serra, inundações na região metropolitana. É preparação para múltiplos desastres, não apenas um.

Inventor

O que mais impressiona você nesta entrevista?

Model

A mudança de paradigma. De reagir a desastres para antecipar-se a eles. Antes, a preparação começava quando a chuva chegava. Agora começa meses antes. Isso é uma transformação cultural, não apenas operacional.

Inventor

E os R$ 88,9 bilhões em prejuízos de 2024 — quanto disso o estado consegue realmente recuperar?

Model

Essa é a pergunta que fica no ar. As obras estruturantes levam tempo. Enquanto isso, o foco é em vidas. Preservar vidas é o objetivo principal. O resto vem depois.

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