RS ultrapassa mil transplantes em primeiro semestre de 2026

Quase 3 mil pessoas aguardam procedimentos de transplante no Rio Grande do Sul, com filas especialmente longas para rim e córnea.
Essa condição não seja detectada e, consequentemente, não seja notificada
O coordenador da Central de Transplantes explica por que muitos órgãos deixam de ser doados.

No primeiro semestre de 2026, o Rio Grande do Sul registrou 1.095 transplantes — uma marca que revela tanto o avanço da medicina quanto a distância ainda a percorrer: quase 3 mil pessoas aguardam na fila, muitas delas por um rim ou uma córnea que pode nunca chegar a tempo. O estado responde a esse descompasso não apenas com campanhas, mas com o treinamento silencioso de equipes hospitalares que aprendem a enxergar, em cada morte encefálica, uma possibilidade de vida.

  • O Rio Grande do Sul ultrapassou mil transplantes no primeiro semestre de 2026, mantendo ritmo semelhante ao ano anterior — mas a demanda segue muito além da oferta disponível.
  • Quase 3 mil pessoas aguardam na fila estadual, com 1.481 à espera de rim e 1.226 de córnea, tornando cada dia de espera uma questão de sobrevivência ou qualidade de vida.
  • Muitos casos de morte encefálica passam despercebidos em hospitais sem treinamento adequado, fazendo com que potenciais doações se percam antes mesmo de serem notificadas ao sistema.
  • A Secretaria da Saúde aposta na capacitação de equipes hospitalares como caminho mais imediato para ampliar captações — e o resultado já aparece: o Hospital São Vicente de Paulo, em Osório, realizou sua primeira doação após receber treinamento.
  • O desafio agora é escalar esse modelo para o maior número possível de hospitais com UTI, transformando estruturas já existentes em novos elos da cadeia de transplantes.

Entre janeiro e a segunda semana de junho de 2026, a Central de Transplantes do Rio Grande do Sul registrou 1.095 procedimentos — 367 de órgãos sólidos como rim, fígado, coração e pulmão, e 728 de tecidos como córneas, osso e medula óssea. O ritmo é quase idêntico ao do primeiro semestre de 2025, quando foram realizados 1.215 transplantes.

Mas os números de procedimentos escondem uma tensão persistente: quase 3 mil pessoas aguardam na fila estadual. Os mais numerosos são os que precisam de rim — 1.481 pacientes —, seguidos pelos 1.226 que esperam por uma córnea. A fila para fígado, com 152 pessoas, é menor, mas não menos urgente para cada um desses indivíduos.

Para encurtar esses tempos de espera, a Secretaria da Saúde atua em duas frentes: campanhas de conscientização pública e, de forma mais imediata, a qualificação de equipes hospitalares para identificar e notificar casos de morte encefálica. Muitas dessas situações passam despercebidas, e quando não são detectadas, potenciais doações simplesmente não acontecem.

Um caso recente ilustra o impacto dessa estratégia. Médicos do Hospital São Vicente de Paulo, em Osório, participaram de uma capacitação na Organização de Procura de Órgão, em Porto Alegre. O aprendizado se traduziu em ação: a instituição realizou sua primeira doação de órgão, com uma equipe da Santa Casa captando o rim e transplantando-o em um paciente que aguardava na fila.

Para Rogério Caruso, coordenador da Central de Transplantes, o episódio de Osório é exatamente o modelo a ser replicado. Todo hospital com UTI é um potencial ponto de captação — o que falta, muitas vezes, é o olhar treinado para reconhecer essa possibilidade e transformá-la em vida.

No primeiro semestre de 2026, o Rio Grande do Sul ultrapassou a marca de mil transplantes realizados. Entre janeiro e a segunda semana de junho, a Central de Transplantes do Estado registrou 1.095 procedimentos no total: 455 de córnea, 274 de rim, 112 de medula óssea, 95 de osso, 73 de tecido escleral, 61 de fígado, 17 de coração, 15 de pulmão e 3 de pele. Desse montante, 367 foram órgãos sólidos — rim, fígado, coração e pulmão — enquanto 728 corresponderam a tecidos como córneas, osso, pele e medula óssea. O ritmo mantém-se praticamente idêntico ao do primeiro semestre de 2025, quando foram realizados 1.215 transplantes.

Mas enquanto os números de procedimentos crescem, a demanda segue muito maior que a oferta. Quase 3 mil pessoas aguardam na fila por um transplante no estado. A maior concentração está entre aqueles que precisam de um rim: 1.481 indivíduos. Logo atrás vêm os 1.226 que esperam por uma córnea. A fila para transplante de fígado é menor, com 152 pessoas, mas ainda representa uma espera significativa para cada um desses pacientes.

Para tentar reduzir esses tempos de espera, a Secretaria da Saúde trabalha em duas frentes. A primeira é a conscientização pública sobre a importância da doação de órgãos. A segunda, talvez mais imediata, é a qualificação das equipes hospitalares para que identifiquem e notifiquem possíveis doadores à Central de Transplantes. Muitos casos de morte encefálica passam despercebidos nas instituições de saúde, e quando não são detectados, não geram notificações que poderiam levar a captações de órgãos.

Um exemplo concreto dessa estratégia de treinamento ocorreu recentemente. No final de 2025, médicos do Hospital São Vicente de Paulo, em Osório, participaram de uma capacitação na Organização de Procura de Órgão, vinculada ao Sistema Estadual de Transplantes e sediada no Hospital São Lucas, em Porto Alegre. O resultado prático veio na última sexta-feira, quando a instituição realizou sua primeira doação de órgão. A notificação foi feita em tempo hábil, permitindo que uma equipe da Santa Casa de Porto Alegre captasse o rim e o transplantasse em um paciente que aguardava.

Rogério Caruso, coordenador da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul, enfatiza que a expansão do número de hospitais capazes de notificar doadores é fundamental. "Todo hospital que possui UTI potencialmente apresenta casos de pacientes em morte encefálica. O que ocorre, muitas vezes, é que essa condição não seja detectada e, consequentemente, não seja notificada", observa. Para Caruso, o transplante realizado em Osório exemplifica exatamente essa evolução: uma instituição que recebeu treinamento adequado conseguiu identificar um doador e notificar o sistema, transformando uma oportunidade em um procedimento bem-sucedido. A questão agora é replicar esse modelo em quantos hospitais for possível.

A ampliação dos hospitais notificantes é de suma importância. Todo hospital que possui UTI potencialmente apresenta casos de pacientes em morte encefálica.
— Rogério Caruso, coordenador da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
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Por que a fila de transplantes no Rio Grande do Sul é tão grande se o estado está realizando mais de mil procedimentos por semestre?

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Porque a demanda é muito maior que a oferta. Quase 3 mil pessoas aguardam, e apenas 1.095 conseguem ser transplantadas em seis meses. É uma questão de escassez de órgãos disponíveis.

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E por que há tão poucos órgãos disponíveis?

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Porque nem todos os casos de morte encefálica são detectados ou notificados. Muitos hospitais ainda não têm equipes treinadas para identificar potenciais doadores. É por isso que o treinamento das equipes hospitalares é tão importante.

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O exemplo de Osório mostra que o treinamento funciona?

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Exatamente. O Hospital São Vicente de Paulo nunca tinha feito uma doação antes. Depois que seus médicos foram capacitados, conseguiram identificar um doador e notificar o sistema em tempo hábil. Um transplante de rim foi realizado como resultado direto disso.

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Qual órgão tem a fila mais longa?

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O rim. 1.481 pessoas aguardam por um transplante renal. Depois vem a córnea, com 1.226 pessoas na fila. Essas duas categorias representam a maioria absoluta dos que esperam.

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O ritmo de transplantes está acelerando?

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Não está acelerando, mas também não está desacelerando. Os números de 2026 estão praticamente iguais aos de 2025. O desafio agora é aumentar esse ritmo, e a estratégia é treinar mais hospitais para notificar doadores potenciais.

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