Oito em cada dez pacientes chegam já nos estágios III e IV
80% dos pacientes descobrem a doença em estágios III e IV, quando chances de cura caem drasticamente; diagnóstico precoce eleva taxa de cura a 90%. Prevenção inclui evitar tabagismo e alcoolismo, proteção solar, relações sexuais protegidas e vacinação contra HPV, disponível gratuitamente no SUS.
- 740 novos casos anuais de câncer de cabeça e pescoço no RN; 200 em Natal
- 80% dos pacientes descobrem a doença em estágios III e IV; diagnóstico precoce eleva cura a 90%
- Liga Norte-Riograndense Contra o Câncer realizou 22.835 procedimentos em 2025
- HPV é fator causal crescente em cânceres de orofaringe; vacinação disponível gratuitamente no SUS
Instituto Nacional de Câncer estima 740 novos casos anuais de câncer de cabeça e pescoço no RN, com 200 concentrados em Natal. Campanha Julho Verde busca conscientizar sobre prevenção e diagnóstico precoce.
Todos os anos, o Rio Grande do Norte enfrenta uma realidade silenciosa: cerca de 740 pessoas receberão o diagnóstico de câncer de cabeça e pescoço. Desses, aproximadamente 200 viverão em Natal. Os números vêm do Instituto Nacional de Câncer, e apontam para tumores que se alojam na cavidade oral, laringe e tireoide — regiões que muitos de nós raramente pensamos até que algo dá errado.
O problema não é apenas a quantidade de casos. É quando eles são descobertos. Hoje, cerca de oito em cada dez pacientes chegam ao consultório já nos estágios III e IV da doença, quando o corpo já foi significativamente comprometido e as opções de tratamento se tornam mais agressivas e menos promissoras. Nesse ponto, a chance de cura cai drasticamente. Mas se a mesma doença fosse identificada cedo — quando ainda é pequena, quando ainda é tratável — a taxa de cura poderia alcançar 90%. Essa diferença de perspectiva é o que move a campanha Julho Verde, iniciativa da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço com apoio da Organização Mundial da Saúde. O mês foi escolhido para coincidir com o Dia Mundial de Prevenção e Combate ao Câncer de Cabeça e Pescoço, em 27 de julho.
Juliana Fernandes, cirurgiã especializada nessa área, explica que a campanha existe há quase uma década justamente para democratizar o conhecimento sobre sinais de alerta. Uma ferida na boca que não cicatriza em mais de 15 dias. Uma rouquidão que persiste por três semanas ou mais. Dificuldade para engolir ou falar. Nódulos no pescoço. Sangramentos na cavidade oral, no nariz ou na garganta que aparecem sem motivo aparente. Esses são os sussurros que o corpo dá antes de gritar. E a maioria das pessoas não sabe ouvi-los.
A prevenção, segundo Fernandes, passa por escolhas que parecem simples mas exigem disciplina. Não fumar. Não beber em excesso. Usar camisinha em todas as relações sexuais — oral, vaginal e anal — para evitar a transmissão do HPV. Proteger a pele do sol todos os dias: chapéu, óculos escuros, camisas de manga comprida. Essas medidas não são sugestões ocasionais; são hábitos que precisam se tornar constantes. E há um fator que ganhou relevância nos últimos anos: o HPV, vírus que historicamente era associado ao câncer de colo de útero, agora aparece com frequência alarmante em tumores de orofaringe e faringe, tanto em homens quanto em mulheres. A vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente pelo SUS para públicos elegíveis, é altamente eficaz e reduz drasticamente o risco.
O padrão de incidência revela também uma divisão por gênero. Homens desenvolvem mais cânceres de cabeça e pescoço relacionados ao tabagismo e ao alcoolismo — boca, garganta, faringe, nasofaringe. Mulheres, por sua vez, têm maior incidência de câncer de tireoide. Fernandes enfatiza que essa conversa não pode ficar confinada aos consultórios de cirurgiões. Médicos generalistas, dentistas, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, gestores públicos e até familiares precisam estar atentos. Às vezes, quem convive com a pessoa consegue notar algo diferente antes que o próprio paciente perceba.
Há ainda uma ameaça emergente que Fernandes chama de "caixa de surpresas": os vapes. Ninguém sabe exatamente quais substâncias tóxicas cada marca coloca em seus produtos, pois as composições variam amplamente. Mas o que já está estabelecido é que os componentes são agressivos, cancerígenos e potencialmente piores que os do cigarro convencional. É um risco que cresce enquanto a regulação ainda tenta acompanhar.
No Rio Grande do Norte, a Liga Norte-Riograndense Contra o Câncer é o único Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia do estado. Em 2025, realizou 22.835 procedimentos relacionados a câncer de cabeça e pescoço: 14.295 consultas, 4.303 cirurgias e 4.237 procedimentos diversos como biópsias e endoscopias. A instituição absorve 65% da demanda oncológica estadual e atende principalmente pacientes do SUS — 70% de sua clientela. Funciona em sete unidades espalhadas por Natal, Seridó e Vale do Açu, além de manter uma casa de acolhimento para quem precisa se deslocar para tratamento.
O que fica claro é que essa não é uma batalha que se vence apenas com cirurgias e radioterapia. Vence-se com vigilância, com conhecimento, com hábitos que protegem. E vence-se melhor quando o diagnóstico chega cedo.
Citações Notáveis
Não só os médicos, não só os cirurgiões de cabeça e pescoço, mas todos os médicos, dentistas, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, gestores e, inclusive, até mesmo os familiares precisam estar atentos— Juliana Fernandes, cirurgiã de cabeça e pescoço
Os vapes são uma caixa de surpresas — não sabemos ao certo a quantidade de substâncias tóxicas que contêm, mas já é bem estabelecido que os componentes são agressivos, cancerígenos e piores que os do cigarro convencional— Juliana Fernandes
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a diferença entre descobrir cedo e descobrir tarde é tão dramática? 90% de cura contra taxas muito menores?
Porque no estágio inicial, o tumor ainda é pequeno, localizado, controlável. Você remove ou trata sem destruir estruturas vitais. Nos estágios III e IV, o câncer já invadiu tecidos adjacentes, pode ter atingido linfonodos, às vezes até órgãos distantes. Aí você precisa de cirurgias mutilantes, radioterapia agressiva, quimioterapia. O corpo já foi muito comprometido.
E por que as pessoas chegam tão tarde? É falta de acesso ou falta de conhecimento?
Ambos. Muitas lesões na boca as pessoas acham que é afta normal. Uma rouquidão, acham que passa. Não sabem que 15 dias já é sinal de alerta. E depois há a questão do acesso — nem todo mundo consegue consulta rápido com especialista.
O HPV é realmente um fator novo nesse tipo de câncer?
Não é novo, mas ganhou visibilidade recentemente. Sempre esteve lá, mas agora a gente consegue identificar melhor. E a incidência está crescendo, especialmente em cânceres de garganta e faringe. A vacinação é a grande arma contra isso.
E os vapes? Parecem ser uma preocupação que está crescendo.
Sim. Ninguém sabe exatamente o que tem dentro deles. Cada marca usa composição diferente. Mas já sabemos que são agressivos e cancerígenos. É um risco que estamos começando a dimensionar agora, enquanto milhões de pessoas já estão usando.
A Liga Norte-Riograndense Contra o Câncer absorve 65% da demanda do estado. Isso é suficiente?
Absorve, mas está sobrecarregada. 22 mil procedimentos em um ano é muito para uma instituição. E ainda há 35% da demanda que não está sendo contabilizada ali. Há gargalos no sistema.