Reunião entre Americanas e bancos termina sem acordo sobre aporte de capital

Potencial impacto em milhares de funcionários e fornecedores da Americanas caso empresa entre em falência.
Os bancos consideraram o valor "risível" diante da dívida
Reação das instituições financeiras à proposta inicial de R$ 2 bilhões em financiamento DIP pelos acionistas.

Bilionários oferecem R$ 7 bilhões, mas bancos exigem R$ 15 bilhões para cobrir fraude contábil na varejista. Americanas entrou em recuperação judicial com dívidas de R$ 43 bilhões; Bradesco é maior credor com R$ 5,1 bilhões.

  • Acionistas oferecem R$ 7 bilhões; bancos exigem R$ 15 bilhões
  • Rombo contábil descoberto: R$ 20 bilhões
  • Dívida total da Americanas: R$ 43 bilhões
  • Bradesco é maior credor com R$ 5,1 bilhões
  • Prazo para acordo: 20 de março de 2023

Reunião entre Americanas e bancos credores termina sem acordo sobre aporte de R$ 7 bilhões dos acionistas Lemann, Telles e Sicupira, considerado insuficiente para cobrir rombo contábil de R$ 20 bilhões.

Na manhã de quinta-feira, 16 de fevereiro, os bancos credores da Americanas deixaram claro que não havia espaço para acordo. Antes das 11 da manhã, as instituições financeiras rejeitaram a proposta trazida à mesa de negociações em São Paulo, encerrando a reunião sem qualquer avanço. O impasse girava em torno de um número que separava as duas partes: quanto os acionistas de referência da varejista estavam dispostos a injetar na empresa para tentar salvá-la do colapso.

Os três bilionários que controlam a Americanas — Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, donos de 31% do capital social — sinalizaram que aportariam R$ 7 bilhões. Era R$ 1 bilhão a mais do que havia sido indicado em janeiro, quando Sergio Rial, ex-presidente da empresa, havia representado o trio em negociações anteriores. Mas para os bancos, esse incremento modesto não resolvia o problema fundamental. Eles acreditavam que seria necessário um aporte de R$ 15 bilhões para cobrir o rombo contábil de R$ 20 bilhões que havia sido descoberto nos balanços da varejista. A Americanas havia entrado em recuperação judicial em 19 de janeiro com dívidas declaradas de R$ 43 bilhões.

Havia esperança de que a reunião de quinta-feira marcasse um ponto de inflexão. Pela primeira vez, um representante direto dos bilionários participaria pessoalmente das conversas: Roberto Thompson Motta, sócio do trio na 3G Capital, a empresa de private equity que havia construído seu império. Thompson não era um intermediário qualquer. Conhecia Lemann desde 1986, quando ambos trabalhavam no banco Garantia. Na própria Americanas, ele havia ocupado posição de destaque na área financeira, participando do conselho de administração por décadas e tendo a última palavra em operações que envolviam instituições bancárias. Segundo fontes próximas ao executivo, foi Thompson quem desenhou as operações de risco sacado — também conhecidas como "adiantamento a fornecedores" ou "forfait" — que agora estavam no cerne do escândalo contábil que havia derrubado a empresa.

Para as instituições financeiras, não havia dúvida: houve fraude contábil deliberada para inflar os balanços da varejista e, consequentemente, o valor de suas ações. Isso beneficiou diretamente os acionistas e diretores cuja remuneração variável estava atrelada ao desempenho das ações — uma prática comum nas empresas administradas pelo trio de bilionários. O maior peso da dívida recaía sobre os bancos privados, que somavam quase R$ 19,5 bilhões em créditos. O Bradesco era o maior credor com R$ 5,1 bilhões, seguido por Santander (R$ 3,6 bilhões), BTG (R$ 3,5 bilhões), Itaú Unibanco (R$ 2,7 bilhões) e Safra (R$ 2,5 bilhões). Os bancos públicos Banco do Brasil (R$ 1,6 bilhão) e Caixa (R$ 500 milhões) também estavam na lista de credores.

Em comunicado divulgado no final da tarde, a Americanas confirmou que a Rothschild & Co, seu assessor contratado, havia apresentado uma proposta que contemplava o aumento de capital de R$ 7 bilhões com suporte dos acionistas de referência, recompra de dívida de cerca de R$ 12 bilhões e conversão de dívidas financeiras de aproximadamente R$ 18 bilhões em capital ou dívida subordinada. Mas a empresa reconheceu que não havia acordo "até o momento". A companhia esperava continuar mantendo discussões construtivas com seus credores em busca de uma solução que permitisse a continuidade de suas atividades.

O cenário que se desenhava era sombrio. Para que o plano de recuperação judicial fosse apresentado à Justiça em 20 de março, a Americanas precisava entrar em acordo com os grandes credores. Estes se mostravam extremamente insatisfeitos com o que consideravam soluções paliativas. O financiamento DIP (debtor-in-possession financing) aprovado pela Justiça em 9 de fevereiro, no valor de até R$ 2 bilhões, havia sido visto pelos bancos como "risível" diante do montante total da dívida. Os acionistas haviam aportado efetivamente R$ 1 bilhão e esperavam captar a mesma quantia com credores ou outros interessados no mercado. Neste tipo de empréstimo, se a empresa saísse do processo de recuperação, o investidor se tornaria acionista. Caso contrário, se a empresa fosse à falência, o investidor seria privilegiado, recebendo antes de todos os outros credores.

Os bancos viam o DIP como uma aberração — uma forma de os acionistas aportarem dinheiro às custas dos credores, oferecendo apenas uma remuneração de 128% do CDI sem garantias. Na visão das instituições financeiras, os acionistas deviam injetar capital genuinamente na Americanas, não propor empréstimos. Uma solução alternativa seria transformar a dívida bilionária em participação societária, aliviando o caixa da varejista e permitindo o cumprimento do plano de recuperação sem grandes sobressaltos. Mas sem acordo até 20 de março, o caminho que restaria à Americanas era a falência — uma solução que não seria boa para ninguém, incluindo as próprias instituições financeiras.

A companhia espera continuar mantendo discussões construtivas com seus credores em busca de uma solução sustentada que permita a continuidade de suas atividades.
— Comunicado da Americanas
Os bancos consideraram o primeiro valor proposto, de R$ 2 bilhões, "risível", diante do montante da dívida.
— Fonte que acompanha a negociação
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que os bancos rejeitaram R$ 7 bilhões se é uma quantia tão grande?

Model

Porque o rombo é de R$ 20 bilhões. Os bancos acreditam que R$ 15 bilhões seria o mínimo necessário. Para eles, R$ 7 bilhões é apenas um gesto simbólico diante da escala do problema.

Inventor

Mas esses bilionários já controlavam a empresa. Por que não injetaram mais capital antes?

Model

Porque não havia incentivo. Enquanto os balanços pareciam saudáveis — ainda que fraudados — as ações deles valiam mais e a remuneração variável dos executivos continuava crescendo. O aporte só se torna urgente quando tudo desaba.

Inventor

Quem é Roberto Thompson Motta e por que sua presença importava?

Model

Ele é o homem que desenhou as operações de risco sacado que causaram o escândalo. Conhece Lemann há 37 anos. Sua presença na reunião sinalizava que o trio estava levando a negociação a sério. Mas ele só trouxe R$ 1 bilhão a mais.

Inventor

E se não chegarem a um acordo até março?

Model

A Americanas vai à falência. Ninguém sai ganhando — nem os bancos, que perdem bilhões, nem os funcionários, nem os fornecedores. É o pior cenário para todos.

Inventor

Os bancos estão pedindo algo impossível?

Model

Talvez. Mas eles veem isso como uma questão de justiça. Se houve fraude para inflar as ações, quem se beneficiou deve arcar com o custo de consertar o estrago.

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