Vigilância é um processo que não pode parar
Três décadas após os primeiros casos de hantavirose no Brasil, e com a memória viva da pandemia de Covid-19, a Fiocruz retoma uma rede nacional de vigilância de zoonoses que havia se fragmentado. Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz trabalham com secretarias estaduais e municipais para treinar profissionais em diferentes biomas, preparando o país não apenas para responder a surtos, mas para antecipá-los. É o reconhecimento de que a fronteira entre o mundo selvagem e o humano nunca foi tão porosa — e que vigiar essa fronteira é uma forma de cuidado coletivo.
- A hantavirose mata com frequência desproporcional à sua raridade, e o Brasil abriga múltiplas variantes do vírus, cada uma ligada a espécies distintas de roedores em biomas diferentes.
- A pandemia de Covid-19 expôs uma lacuna perigosa: o país havia perdido a continuidade de sua vigilância sobre reservatórios silvestres de patógenos, justamente quando o mundo aprendia o custo dessa negligência.
- Desde 2023, equipes da Fiocruz viajam para onde as doenças realmente ocorrem — Minas Gerais, Alagoas, Bahia, e em breve a Amazônia — capacitando 55 profissionais em captura de mamíferos, coleta de amostras e biossegurança.
- Fenômenos como as 'ratadas' e as mudanças climáticas ameaçam expandir o alcance geográfico dos roedores reservatórios, tornando a vigilância permanente não uma opção, mas uma necessidade urgente.
A Fiocruz está reconstruindo algo que havia se perdido: uma rede nacional capaz de rastrear doenças que saltam de animais selvagens para pessoas. O esforço foi retomado em 2023, trinta anos após o Brasil identificar seus primeiros casos de hantavirose, e ganhou nova urgência com a pandemia de Covid-19 — que deixou evidente o quanto o mundo depende do monitoramento contínuo dos reservatórios naturais de patógenos.
Paulo D'Andrea, que coordena o trabalho a partir do Instituto Oswaldo Cruz, define vigilância como um processo permanente de antecipação, não uma tarefa que se conclui. A rede opera em parceria com o Ministério da Saúde para qualificar profissionais de secretarias estaduais e municipais em todo o país. Os treinamentos acontecem nos próprios biomas onde as doenças circulam — já passaram por Virgem da Lapa, Santana do Ipanema e Barreiras, e em breve chegarão à Amazônia. Até agora, 55 profissionais foram capacitados em técnicas de campo e protocolos de biossegurança desenvolvidos desde 1993.
A hantavirose é transmitida pela urina, fezes e saliva de roedores infectados. É rara, mas letal. O que torna o trabalho complexo é que o Brasil abriga diferentes variantes do vírus, cada uma associada a espécies distintas de roedores com habitats específicos — campos de grãos, florestas, áreas alagadas. Identificar o roedor envolvido num surto é o primeiro passo para entender onde o risco é maior. D'Andrea, que integrou a primeira equipe nacional nos anos 1990, aponta ainda que esse trabalho ampliou o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira, chegando a revelar novas espécies.
No horizonte, as ameaças crescem. As chamadas 'ratadas' — explosões populacionais de roedores após grande oferta de alimento — multiplicam o contato entre humanos e animais selvagens. E as mudanças climáticas podem expandir o território de espécies reservatórias para regiões onde antes não havia circulação relevante desses vírus. É por isso que reconstruir essa rede importa: não para responder ao que já aconteceu, mas para estar pronto para o que ainda pode vir.
A Fiocruz está reconstruindo uma estrutura nacional de vigilância que havia desaparecido: uma rede de pesquisadores e profissionais de saúde treinados para rastrear doenças que saltam de animais selvagens para pessoas. O trabalho começou de novo em 2023, três décadas depois que o Brasil identificou seus primeiros casos de hantavirose, e ganhou urgência quando a pandemia de Covid-19 deixou claro o quanto o mundo precisa monitorar os reservatórios naturais de patógenos perigosos.
Paulo D'Andrea, que coordena o esforço a partir do Instituto Oswaldo Cruz, explica que vigilância não é algo que se faz uma vez e depois se abandona. É um processo contínuo de antecipação. A rede trabalha em parceria com o Ministério da Saúde, especificamente com o Grupo Técnico de Roedores, para qualificar profissionais das secretarias estaduais e municipais em todo o país. O objetivo é simples e urgente: preparar o Brasil para surtos futuros, não apenas de hantavírus, mas de outras zoonoses que podem emergir.
Os treinamentos acontecem onde as doenças realmente ocorrem. Equipes viajam para diferentes biomas, adaptando o ensino às características locais. Já passaram por Virgem da Lapa em Minas Gerais, Santana do Ipanema em Alagoas e Barreiras na Bahia. Em breve chegarão à Amazônia. Até agora, 55 profissionais foram capacitados em técnicas que combinam teoria e prática de campo: como escolher áreas para investigação, como capturar pequenos mamíferos selvagens sem risco, como coletar e preservar amostras biológicas com qualidade suficiente para análise laboratorial. Tudo isso envolve protocolos rigorosos de biossegurança, desenvolvidos ao longo de décadas desde que a hantavirose foi identificada no Brasil em 1993.
A hantavirose é transmitida principalmente pela urina, fezes e saliva de roedores infectados. É relativamente rara, mas mata. Exige vigilância constante, especialmente em áreas rurais e nas bordas onde a natureza encontra a ocupação humana. O que torna o trabalho particularmente complexo é que o Brasil abriga diferentes variantes do hantavírus, cada uma associada a espécies distintas de roedores. Quando um surto acontece, uma das primeiras tarefas é identificar qual roedor está envolvido. Um vive em campos de grãos, outro em florestas, outro em áreas alagadas. Conhecer essas espécies é fundamental para entender onde o risco é maior e como orientar as estratégias de controle.
D'Andrea, que integrou a primeira equipe nacional de vigilância de hantavirose nos anos 1990, treinada por especialistas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, aponta que esse conhecimento tem benefícios que vão além da saúde pública. O estudo dos hantavírus e seus reservatórios contribuiu para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira. Em alguns casos, a associação específica com variantes virais ajudou a identificar diferenças entre roedores aparentemente semelhantes, levando à descrição de novas espécies.
Mas há ameaças crescentes no horizonte. Fenômenos naturais como as "ratadas"—explosões populacionais de roedores após períodos de grande oferta de alimento, como a floração de bambus—aumentam exponencialmente o contato entre humanos e animais selvagens, e com ele o risco de transmissão. Mais preocupante ainda: as mudanças climáticas podem favorecer a expansão geográfica de espécies de roedores reservatórios, ou mesmo introduzir esses animais em regiões onde antes não havia circulação importante desses vírus. Por isso a reconstrução dessa rede nacional é tão crítica. Não é apenas sobre responder a surtos que já aconteceram. É sobre estar permanentemente vigilante diante do que pode vir.
Citas Notables
A importância dessa rede é que estamos nos antecipando, qualificando quadros em todo país, para enfrentamento a futuros possíveis surtos, não só de hantavírus, mas também de outras zoonoses— Paulo D'Andrea, coordenador-geral da iniciativa
Mudanças climáticas podem favorecer a expansão geográfica e demográfica, ou mesmo a introdução de espécies de roedores em regiões onde antes não havia circulação importante desses vírus. Precisamos estar permanentemente vigilantes— Paulo D'Andrea
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a Fiocruz precisou "retomar" essa rede? Ela não existia continuamente?
Não. Depois dos anos 2000, quando a hantavirose foi identificada e investigada intensamente, a estrutura foi se esvaziando. Pessoal se aposentava, recursos iam para outras prioridades. A rede praticamente desapareceu.
E o que mudou em 2023 para trazer tudo de volta?
A Covid-19. Quando o mundo viu como um vírus de origem animal podia paralisar tudo, ficou claro que monitorar reservatórios selvagens não é luxo. É defesa. O Ministério da Saúde entendeu que precisava reconstruir essa capacidade.
Esses 55 profissionais que foram treinados—eles vão ficar onde? Como a rede funciona na prática?
Eles voltam para suas secretarias estaduais e municipais. A ideia é que cada região tenha gente preparada para reconhecer sinais de surto, coletar amostras corretamente, saber que roedor está envolvido. É descentralizado, mas conectado.
Você mencionou que cada roedor carrega uma variante viral diferente. Por que isso importa tanto?
Porque muda tudo. Se você sabe qual roedor está causando o surto, você sabe onde procurar, que ambientes monitorar, como orientar as pessoas. Um roedor de grão é um problema diferente de um roedor de floresta.
E as mudanças climáticas que D'Andrea menciona—como isso entra na equação?
Roedores podem se expandir para regiões onde antes não havia. Ou explodir em população quando as condições são certas. Se o clima muda, os padrões mudam. A vigilância precisa ser permanente, não apenas reativa.
Então essa rede é basicamente um sistema de alerta antecipado?
Exatamente. Não é esperar o surto chegar. É estar preparado, qualificado, sabendo o que procurar antes que as pessoas comecem a adoecer.