Restringir educação sexual prejudica prevenção ao HIV, alerta infectologista

Jovens, especialmente adolescentes e homens que fazem sexo com homens, enfrentam maior vulnerabilidade ao HIV, com disparidades significativas entre grupos raciais e de gênero.
Empodera a pessoa a se cuidar mais
O infectologista defende que educação sexual qualificada não estimula atividade precoce, mas fortalece o autocuidado.

Educação sexual qualificada não estimula atividade sexual precoce, mas empodera jovens para autocuidado e prevenção, defende especialista. Pessoas de 15 a 24 anos representam 25,7% de todos os casos de HIV notificados no Brasil desde 1991, com concentração entre homens jovens.

  • Pessoas de 15 a 24 anos representam 25,7% de todos os casos de HIV notificados no Brasil desde 1991 (175.803 casos)
  • Em 2024, homens de 20 a 29 anos responderam por 44,7% dos novos casos de HIV registrados no país
  • Projetos de lei restringindo conteúdos sobre diversidade sexual responderam por 33,3% das iniciativas legislativas anti-LGBTQIA+ nos cinco primeiros meses de 2026
  • Taxa de mortalidade por Aids entre adolescentes de 15 a 19 anos caiu 57,1% entre 2014 e 2024

Infectologista alerta que restringir debates sobre sexualidade nas escolas dificulta acesso de jovens a informações sobre prevenção ao HIV, enquanto dados mostram que adolescentes e jovens adultos concentram novos casos da infecção no Brasil.

Vinicius Borges, infectologista conhecido nas redes sociais como Doutor Maravilha, fez um alerta direto durante a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo: quando as escolas deixam de debater sexualidade, adolescentes e jovens perdem acesso a informações que poderiam salvá-los. A restrição desses debates, disse ele em entrevista à Diadorim, não protege ninguém — apenas afasta a prevenção ao HIV de quem mais precisa dela.

O médico é claro sobre um equívoco que persiste: educação sexual não estimula atividade sexual precoce. Pelo contrário. "Falar de prevenção não estimula a sexualidade precoce. Na verdade, empodera a pessoa a se cuidar mais", afirmou. Borges observa que muitos jovens têm acesso ilimitado às redes sociais, mas isso não significa que recebam informações confiáveis sobre seu próprio corpo, sobre autocuidado, sobre PrEP ou sobre como se proteger. E em casa? Raramente o assunto aparece. "Que pai e que mãe vão dar conselhos para o filho sobre prevenção numa relação entre dois homens, de autocuidado, de PrEP?", questionou. Para ele, a escola deveria ser esse espaço — um lugar de informação e acolhimento, respeitando a idade dos alunos.

Os números justificam a urgência. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025 do Ministério da Saúde, pessoas entre 15 e 24 anos representam 25,7% de todos os casos de HIV notificados no Brasil desde 1991 — um total de 175.803 infecções. A epidemia concentra-se fortemente entre homens jovens. Em 2024, homens de 20 a 29 anos responderam por 44,7% dos novos casos registrados no país. Entre adolescentes do sexo masculino de 15 a 19 anos, foram 5,2%. Entre homens que fazem sexo com homens, a transmissão sexual segue sendo a principal via: 59,8% dos casos de Aids entre adolescentes de 13 a 19 anos e 56% entre pessoas de 20 a 29 anos.

Há uma boa notícia dentro dessa realidade: a mortalidade caiu. Entre 2014 e 2024, a taxa de morte por Aids entre adolescentes de 15 a 19 anos diminuiu 57,1%. Globalmente, as novas infecções entre jovens de 15 a 24 anos caíram 54% entre mulheres e 45% entre homens entre 2010 e 2025, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids. Mas a vulnerabilidade persiste, especialmente para mulheres jovens — cerca de 160 mil mulheres de 15 a 24 anos adquiriram HIV em 2025 em todo o mundo.

O contexto político torna o alerta de Borges ainda mais relevante. Dados da Observatória, monitor legislativo da Diadorim, mostram que projetos de lei voltados à restrição de conteúdos sobre diversidade sexual e de gênero no ambiente educacional responderam por 25% dos projetos apresentados em 2025 e por 33,3% das iniciativas registradas nos cinco primeiros meses de 2026. A censura escolar tornou-se o principal foco dos projetos anti-LGBTQIA+ no país.

Borges também aponta outra falha estrutural: as desigualdades regionais. Quando se fala de prevenção ao HIV no Brasil, fala-se principalmente dos grandes centros — São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, e especialmente do Sudeste. "Não adianta você ter PrEP e 40% dela estar em São Paulo", disse. Ele questiona: e o interior? E os homens gays, as mulheres trans, as pessoas LGBT que vivem longe das capitais? Nascido no interior de Minas Gerais, Borges defende que as estratégias precisam considerar as diferentes realidades do país.

O médico também ressalta que a pauta do HIV é universal, mas exige equidade. "Uma travesti negra na periferia tem muito mais chance de morrer de Aids do que um homem cis branco hétero", afirmou. Mulheres heterossexuais negras em São Paulo têm três vezes mais chance de morrer de Aids do que homens heterossexuais brancos. Como integrante do comitê de prevenção do Ministério da Saúde, Borges trabalha com o conceito de "populações-chave" — grupos que necessitam de estratégias específicas. "É universal, mas respeitando a equidade", resumiu. O Brasil está entre os 54 países que se comprometeram a ampliar investimentos públicos na resposta ao HIV a partir de 2025, com aumento de até 10% no financiamento doméstico. Novas tecnologias, como o lenacapavir — um medicamento injetável de longa duração para PrEP — apontam caminhos promissores para ampliar a proteção de grupos mais vulnerabilizados.

A gente não fala de educação sexual em casa, muito menos com foco LGBT. Que pai e que mãe vão dar conselhos para o filho sobre prevenção numa relação entre dois homens?
— Vinicius Borges, infectologista
Uma travesti negra na periferia tem muito mais chance de morrer de Aids do que um homem cis branco hétero
— Vinicius Borges
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o senhor insiste que educação sexual não leva jovens a fazer sexo mais cedo?

Model

Porque os dados mostram isso. Países com educação sexual robusta não têm mais atividade sexual precoce. O que eles têm é menos gravidez indesejada, menos infecções. Informação empodera, não estimula.

Inventor

Mas muitos pais acreditam que falar sobre isso em casa é responsabilidade deles, não da escola.

Model

Concordo que é responsabilidade deles. O problema é que a maioria não fala. Então o jovem fica sem informação, ou pior, recebe informação errada das redes sociais. A escola não substitui a família — complementa.

Inventor

O senhor mencionou que 40% da PrEP está em São Paulo. Isso é um número real ou uma ilustração?

Model

É uma ilustração do problema real. A concentração é absurda. Você tem acesso fácil aqui na capital, mas sai de São Paulo e some. Isso não é equidade.

Inventor

Como se explica que homens jovens concentrem tanto os novos casos?

Model

Principalmente porque homens que fazem sexo com homens têm transmissão sexual como via principal. Mas também porque há menos educação específica para eles, menos acesso a prevenção, mais estigma.

Inventor

A redução na mortalidade significa que estamos vencendo a epidemia?

Model

Significa que o tratamento melhorou muito. Mas novos casos continuam aparecendo. Reduzir mortalidade é importante, mas não é suficiente. Precisamos reduzir infecções.

Inventor

E as mulheres negras que o senhor mencionou — por que elas têm risco tão maior?

Model

Porque enfrentam múltiplas vulnerabilidades: racismo, sexismo, pobreza, acesso limitado a serviços. Não é só sobre HIV. É sobre como a sociedade as coloca em risco.

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