O ideal é agradar os dois lados
No labirinto das consequências do 8 de Janeiro, o deputado Paulinho da Força busca a saída mais estreita: não o perdão pleno, mas a atenuação das penas. Com a sinalização do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de que uma versão reduzida da anistia poderia ser pautada, abre-se um corredor político onde diferentes forças tentam coexistir sem que nenhuma precise ceder tudo. É a arte antiga do possível — aplicada a uma ferida ainda aberta na democracia brasileira.
- O projeto de anistia ampla, que livraria Bolsonaro das penas impostas pelo STF, encontra resistência firme no Senado e não tem votos para passar na forma atual.
- Alcolumbre sinalizou que só pautaria a proposta se ela chegar da Câmara sem o perdão ao ex-presidente — criando uma pressão direta sobre o texto do relator.
- Paulinho da Força articula uma versão 'light' da anistia, focada apenas na redução de penas aos manifestantes do 8 de Janeiro, buscando apoio de líderes como Sóstenes Cavalcante, Rogério Marinho e Ciro Nogueira.
- Nos bastidores, ministros do STF e o presidente Lula já acenam com tolerância à proposta de redução de penas — abrindo uma janela rara de convergência entre Executivo, Judiciário e parte do Legislativo.
- O relator tem agenda intensa de conversas com Michel Temer, governadores e lideranças do Congresso para consolidar um texto com chances reais de aprovação nas duas casas.
Paulinho da Força, relator do projeto de anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, revelou ao Metrópoles que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sinalizou abertura para pautar a proposta — mas apenas em versão reduzida, sem o perdão amplo que beneficiaria Bolsonaro. "Não tem outro caminho, me parece", disse o deputado da SD-SP, descrevendo a conversa com Alcolumbre. "Acho que sim há chances de pautar o projeto no Senado se o caminho for o da redução."
O projeto original é de autoria do deputado Marcelo Crivella e propõe anistia a participantes de manifestações políticas ocorridas entre 30 de outubro de 2022 e a vigência da lei. A urgência foi aprovada na Câmara com 311 votos a favor e 163 contra, mas Paulinho reconhece que o texto atual não tem condições reais de aprovação. Sua missão agora é construir um parecer viável — e para isso, tem percorrido os corredores do poder.
Nas últimas semanas, o relator conversou com Sóstenes Cavalcante, Rogério Marinho e Ciro Nogueira. Tem agendadas reuniões com Michel Temer, com o governador do Rio, Claudio Castro, e com Odair Cunha, líder do governo na Câmara. Também pretende procurar Tarcísio de Freitas. "Vou falar ainda com muita gente", garantiu.
O que está em jogo é uma terceira via: nem anistia plena que contrarie o STF, nem rejeição total que deixe todos os condenados sem qualquer benefício. Nos bastidores, ministros do Supremo e o próprio Lula já acenam com tolerância à proposta de redução de penas. Questionado se conversaria com o Planalto apesar do rompimento com Lula, Paulinho respondeu que sim — e que aguarda convite.
Paulinho da Força está tentando encontrar um caminho pelo meio. Como relator do projeto de anistia aos condenados pelo golpe de Estado, o deputado da SD-SP conversou com o Metrópoles para revelar que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sinalizou estar aberto a pautar a proposta — mas apenas em uma versão reduzida, sem o perdão amplo que livraria Bolsonaro de cumprir a pena determinada pelo Supremo Tribunal Federal.
A estratégia é clara: em vez de anistia plena, apenas redução de penas para os manifestantes do 8 de Janeiro. "Não tem outro caminho, me parece", disse Paulinho da Força, descrevendo sua conversa recente com Alcolumbre. "O ideal é agradar os dois lados. Acho que sim há chances de pautar o projeto no Senado se o caminho for o da redução." Nas últimas semanas, Alcolumbre tem sido firme em afirmar que não colocaria em votação uma anistia que beneficiasse o ex-presidente, mantendo assim a decisão do STF intacta.
O projeto em questão é de autoria do deputado Marcelo Crivella, que propõe anistia aos participantes de manifestações políticas ocorridas entre 30 de outubro de 2022 e a data de entrada em vigor da lei. A urgência dessa proposta foi aprovada pela Câmara com 311 votos a favor e 163 contra, permitindo que o texto seja votado diretamente em plenário sem passar por comissões. Mas Paulinho da Força reconhece que, na forma atual, o projeto não tem condições de ser aprovado. Cabe ao relator agora conversar com as lideranças para construir um parecer viável.
Paulinho acredita que essa redução de penas é o que conseguirá passar. "Pelo que já vem sendo conversado, acho que eles sabem que não dá para passar a versão ampla", explicou, apontando que até a proposta de Crivella, embora tenha servido como base para a votação de urgência, não tem condições reais de ser aplicada. Essa possibilidade de redução de penas — sem anistia plena — já é aceita nos bastidores por ministros do STF e também pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O relator tem se movimentado para construir consenso. Conversou com Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, e com Rogério Marinho, líder da oposição no Senado. Também falou com Ciro Nogueira, presidente do PP. Paulinho tem uma agenda de conversas previstas: na noite de quinta-feira (18 de setembro) com Michel Temer, ex-presidente e jurista respeitado; na segunda-feira (22 de setembro) com o governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, e com Odair Cunha, líder do governo na Câmara. Também pretende procurar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. "Vou falar ainda com muita gente", garantiu.
Questionado se está disposto a conversar com o Planalto apesar do rompimento político com Lula, Paulinho respondeu afirmativamente, dizendo que aguarda convite. O que está em jogo é a possibilidade de encontrar um acordo que satisfaça diferentes setores políticos — nem uma anistia que livre Bolsonaro, nem uma rejeição total que deixe todos os condenados do 8 de Janeiro sem qualquer benefício. É um exercício de política prática, onde o relator tenta construir uma terceira via que consiga passar nas duas casas do Congresso.
Citações Notáveis
Não tem outro caminho, me parece. O ideal é agradir os dois lados. Acho que sim há chances de pautar o projeto no Senado se o caminho for o da redução— Paulinho da Força, relator do projeto de anistia
Pelo que já vem sendo conversado, acho que eles sabem que não dá para passar a versão ampla— Paulinho da Força
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Alcolumbre está disposto a pautar apenas uma versão reduzida e não a anistia ampla?
Porque ele já disse publicamente que não vai colocar em votação algo que tire Bolsonaro da cadeia. O STF já decidiu, e Alcolumbre não quer ser visto como quem desfez essa decisão. Uma redução de penas para manifestantes é politicamente mais defensável.
Então Paulinho está basicamente negociando o que é possível em vez do que foi pedido?
Exatamente. Ele reconhece que a versão ampla não passa. Nem no Senado, nem no STF, nem com Lula. Então ele está tentando salvar algo — reduzir penas para quem foi condenado por estar na rua naquele dia.
E os ministros do STF estão de acordo com isso?
Nos bastidores, sim. Uma redução de penas é diferente de anistia. É uma clemência menor, mais palatável. Não apaga o crime, apenas suaviza a punição.
Por que Paulinho está conversando com tantas pessoas — Temer, governadores, líderes de partidos diferentes?
Porque precisa de cobertura política. Se conseguir apoio de gente respeitada como Temer, de governadores de diferentes partidos, e de líderes da oposição, o texto fica mais robusto. Ninguém quer ser visto como quem matou a proposta sozinho.
E se ninguém concordar com essa redução?
Aí a proposta morre. Mas Paulinho parece acreditar que há espaço para isso. O STF aceita, Lula aceita, Alcolumbre sinalizou que aceita. O desafio agora é convencer os deputados e senadores que isso é o melhor que se consegue.