Regulação médica exige debate amplo além de provas cognitivas, defende AMB

Formar um médico com segurança exige tolerar a lentidão pedagógica necessária
Sabia Tallo critica a pressão por escala nas escolas privadas de medicina.

No coração do debate sobre a formação médica brasileira, emerge uma tensão antiga entre o que é mensurável e o que é essencial: a competência de quem cuida de vidas humanas. No 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da AMB, o Dr. Fernando Sabia Tallo alertou que reduzir a regulação do ensino médico a uma prova cognitiva única é confundir o instrumento com o propósito — e que o verdadeiro propósito, sempre, é a proteção do paciente. A expansão acelerada de escolas privadas com fins lucrativos torna esse debate não apenas acadêmico, mas urgente e ético.

  • A multiplicação de faculdades de medicina privadas lucrativas pressiona o sistema a crescer em escala, enquanto a formação médica exige exatamente o oposto: tempo, supervisão e prática real à beira do leito.
  • O modelo de avaliação em discussão — centrado em uma única prova cognitiva — é criticado como um erro conceitual que confunde três processos distintos: avaliar cursos, acompanhar estudantes e licenciar profissionais.
  • A AMB defende que o licenciamento profissional não existe para melhorar rankings, mas para garantir que o médico que chega ao atendimento seja capaz de exercer a medicina com segurança real.
  • Sem um debate mais amplo sobre como o ensino médico é estruturado no Brasil, qualquer instrumento regulatório corre o risco de tornar-se apenas controle superficial, incapaz de proteger quem busca um médico.

Na tarde do segundo dia do 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da AMB, o Dr. Fernando Sabia Tallo, Diretor Tesoureiro da entidade, conduziu uma reflexão sobre a regulação da formação médica no Brasil que expôs uma colisão fundamental: a lógica empresarial contra a lógica pedagógica. Em um país onde instituições privadas com fins lucrativos expandem rapidamente o número de vagas e escolas de medicina, essa tensão deixou de ser teórica.

Sabia Tallo foi direto ao ponto: ensinar medicina não combina com lógica de escala pura. Formar um médico com segurança exige discutir casos, acompanhar o estudante à beira do leito e tolerar a lentidão necessária ao aprendizado. Quando a pressão financeira pela expansão entra em choque com essas exigências, é a qualidade pedagógica — e, em última instância, o paciente — quem paga o preço.

O centro da crítica, porém, recaiu sobre o modelo de avaliação proposto para regular o ensino médico. Concentrar em uma única prova cognitiva a avaliação de escolas, o acompanhamento de estudantes e o licenciamento profissional representa, segundo ele, um erro conceitual grave. São três processos distintos com objetivos diferentes. O licenciamento, em especial, não existe para melhorar rankings: existe para garantir que quem chega ao atendimento tenha condições reais de exercer a medicina com segurança.

Sobre o Enamed, Sabia Tallo defendeu uma evolução para um modelo longitudinal e prático. A competência profissional não se mede em um dia, respondendo questões abstratas — ela se constrói ao longo do tempo, pela observação de como o estudante interage com pacientes, toma decisões sob pressão e aprende com seus erros. Sem esse debate mais amplo, qualquer instrumento de avaliação arrisca tornar-se apenas mecanismo de controle superficial, incapaz de cumprir sua função essencial: proteger quem procura um médico.

Na tarde do segundo dia do 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da AMB, um debate sobre a regulação da formação médica no Brasil colocou em evidência uma tensão fundamental que atravessa o ensino superior em saúde: a colisão entre a lógica empresarial e a lógica pedagógica. O Dr. Fernando Sabia Tallo, Diretor Tesoureiro da Associação Médica Brasileira, foi o conferencista responsável por essa reflexão, coordenada pelo Dr. Ramiro Colleoni Neto, professor adjunto e chefe do departamento de Cirurgia da Escola Paulista de Medicina.

O cenário que Sabia Tallo descreveu é o de um país onde as instituições privadas com fins lucrativos expandem-se rapidamente, aumentando o número de vagas e de escolas de medicina. Essa expansão, porém, não ocorre em vácuo. Ela acontece dentro de um sistema de ensino que exige, por natureza, supervisão intensiva, tempo dedicado, prática assistencial real e, acima de tudo, segurança do paciente. O conflito emerge quando a pressão pela sustentabilidade financeira e pela expansão de escala entra em choque com as exigências pedagógicas de uma profissão que lida com vidas humanas. "Ensinar medicina exige tempo, supervisão e prática real. É um processo que não combina com lógica de escala pura, porque formar um médico com segurança significa discutir casos, acompanhar o estudante à beira do leito e tolerar a lentidão pedagógica necessária ao aprendizado", afirmou.

Mas o cerne da crítica de Sabia Tallo vai além dessa tensão estrutural. Ele questionou diretamente o modelo de avaliação que vem sendo proposto para regular a qualidade do ensino médico no Brasil. Segundo sua perspectiva, concentrar a avaliação de escolas, estudantes e aptidão profissional em uma única prova cognitiva representa um erro conceitual grave. Avaliação de curso, acompanhamento do aluno e licenciamento profissional são, na verdade, três processos distintos com objetivos diferentes. O licenciamento, em particular, não existe para melhorar rankings ou desempenho acadêmico. Sua função central é proteger o paciente, garantindo que quem chega ao atendimento tenha condições reais de exercer a medicina com segurança.

Essa distinção é crucial para entender a posição da AMB sobre o Enamed, o exame nacional que vem sendo discutido como instrumento de avaliação. Sabia Tallo defendeu que a avaliação da formação médica deve ser longitudinal, prática e institucional. Uma prova de múltipla escolha, por mais bem construída que seja, não consegue capturar a complexidade do desenvolvimento de um futuro médico. A competência profissional não é algo que se mede em um dia, em uma sala de aula, respondendo questões abstratas. Ela se constrói ao longo do tempo, através do acompanhamento real da evolução do estudante, da observação de como ele interage com pacientes, de como ele toma decisões sob pressão, de como ele aprende com seus erros.

O que Sabia Tallo estava propondo, em essência, era um alargamento do debate sobre regulação médica. Não se trata apenas de definir qual prova aplicar ou como estruturar um exame. Trata-se de reconhecer que a regulação da graduação médica precisa ser analisada a partir de como o ensino médico é realmente estruturado no país, considerando as pressões comerciais que o atravessam, as limitações pedagógicas que o definem e a responsabilidade ética que o fundamenta. Sem esse debate mais amplo, qualquer instrumento de avaliação corre o risco de ser apenas um mecanismo de controle superficial, incapaz de garantir a qualidade real da formação e, portanto, incapaz de cumprir sua verdadeira função: proteger quem procura um médico.

O licenciamento existe para proteger o paciente, não para melhorar ranking de escola ou desempenho acadêmico
— Dr. Fernando Sabia Tallo, Diretor Tesoureiro da AMB
Não é possível reduzir a avaliação da formação médica a uma prova cognitiva de múltipla escolha
— Dr. Fernando Sabia Tallo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a AMB insiste que uma prova cognitiva não é suficiente para avaliar um médico?

Model

Porque medicina não é conhecimento. É prática. Você pode saber todas as respostas certas sobre um infarto e ainda não saber o que fazer quando o paciente chega à sua frente, suado, com dor no peito.

Inventor

Mas então como você avalia se alguém está pronto para exercer a profissão?

Model

Acompanhando. Vendo como ele trabalha ao longo do tempo, como ele interage com pacientes reais, como ele aprende com erros. Isso não cabe em uma prova.

Inventor

A questão é que as escolas privadas estão crescendo muito. Não precisamos de um instrumento que garanta um padrão mínimo?

Model

Precisamos, mas não assim. O problema é que quando você reduz tudo a uma prova, você está dizendo que a qualidade da escola não importa, que o acompanhamento do aluno não importa. Você está dizendo que importa apenas o resultado final.

Inventor

E qual é o risco disso?

Model

O risco é que você forma médicos que passam em provas mas não sabem cuidar de gente. E quem paga o preço é o paciente.

Inventor

Então a AMB está pedindo para não ter avaliação?

Model

Não. Está pedindo para ter avaliação de verdade. Avaliação das escolas, avaliação dos alunos durante o curso, avaliação da competência profissional. Três coisas diferentes, três processos diferentes.

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