Falar do outro é mais desconfortável e difícil que falar de si
A literatura brasileira historicamente produzida por classe média branca masculina precisou se reinventar para falar do outro a partir dos anos 1970, impulsionada pela urbanização acelerada e pela ditadura. Carolina Maria de Jesus emerge como figura central que desafia categorias literárias tradicionais, enquanto autores consagrados como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan reproduzem perspectivas elitistas na representação de personagens pobres.
- Livro de Regina Dalcastagnè mapeia literatura brasileira de 1970 a 2025, com mais de 600 páginas
- Carolina Maria de Jesus emerge como figura central que desafia categorias literárias tradicionais
- Urbanização acelerada e ditadura foram fenômenos que mais impactaram a literatura nos anos 1970
- Literatura contemporânea prioriza comunicação direta e evita experimentação por medo do cancelamento
Novo livro de Regina Dalcastagnè analisa como a ficção brasileira desde 1970 enfrentou o desafio de representar vozes marginalizadas, apontando persistentes problemas na representação de pobres e a tensão entre didatismo identitário e complexidade narrativa.
Regina Dalcastagnè, professora e crítica literária da Universidade de Brasília, acaba de lançar um livro de mais de seiscentas páginas que mapeia como a ficção brasileira aprendeu — ou deixou de aprender — a falar sobre pessoas diferentes de si mesma. O livro, intitulado "Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa", percorre cinco décadas de produção literária, de 1970 até 2025, rastreando um problema que se tornou central para escritores brasileiros a partir dos anos setenta: como representar o outro quando a literatura sempre foi feita por homens brancos da classe média intelectualizada?
O ponto de partida é concreto. Nos anos setenta, o Brasil passava por uma urbanização tão acelerada e desordenada que forçou os autores a inventarem novas maneiras de escrever. A cidade fragmentava a narrativa, acelerava o ritmo, criava uma cacofonia de vozes que a prosa tradicional não conseguia capturar. Ao mesmo tempo, a ditadura militar comprimia a liberdade de expressão, levando escritores a experimentarem com formas cifradas, alegóricas, quase quebra-cabeças. Naquele momento, a literatura brasileira era plural de um jeito que não é mais. Havia jornalistas, advogados, operários escrevendo. Mulheres e pessoas negras começavam a reivindicar espaço. A classe média branca que historicamente monopolizava a voz literária se viu obrigada a lidar com a existência de outras perspectivas.
Mas havia um problema estrutural que persiste até hoje: a literatura brasileira nunca resolveu bem como falar sobre pobres. Dalcastagnè aponta que mesmo autores consagrados como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, ao retratarem personagens humildes, o fazem de cima para baixo, reproduzindo o olhar das elites. Os pobres aparecem estereotipados, sem vida interior, sem a complexidade que os autores reservam para seus personagens de classe média. Carolina Maria de Jesus emerge como figura central nessa história — uma mulher negra, migrante, que escrevia da favela e via até seus vizinhos como "os outros". Sua obra se contrapõe radicalmente ao que era a literatura brasileira antes dela, e por isso tentaram apagá-la. Mas ela ressurge, sempre, bagunçando as categorias que separam literatura de testemunho, forma de conteúdo.
O que Dalcastagnè observa na ficção contemporânea é uma regressão formal preocupante. Nos anos setenta, autores como Sérgio Sant'Anna, Ignácio de Loyola Brandão e Hilda Hilst esticavam a linguagem, convidavam o leitor a participar de um jogo, aceitavam que nem todos conseguiriam acompanhar. Havia ambiguidade, havia metáfora, havia risco. Hoje, a pressão é por uma comunicação mais direta, mais segura. A ideia subjacente é clara: se eu não escrever de forma cristalina e tomar cuidado extremo com meus personagens, o leitor não vai entender e talvez eu seja cancelado. Essa autocensura, ainda que motivada por preocupações legítimas com representação, empobrece a literatura. O didatismo identitário — aquela literatura que diz "isso aconteceu assim" e apaga a complexidade dos personagens — é limitante. Não se trata de negar a importância das vozes marginalizadas. Trata-se de reconhecer que a melhor literatura é aquela que oferece múltiplas perspectivas falando ao mesmo tempo, que se contradizem, que perturbam.
Dalcastagnè cita dois exemplos que funcionam como polos opostos. "Viva o povo brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro, de 1985, é um livro cheio de vozes contraditórias, de ironia e deboche, que nunca aplaca o horror da escravidão mas permite ao leitor rir, concordar, discordar. "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves, de 2006, é narrado pela perspectiva de uma mulher negra ex-escravizada que tem autoridade e legitimidade para contar uma história que ainda não tinha sido contada — e se o leitor discorda da narradora, corre o risco de ser indelicado com a dor do outro. São textos de tempos diferentes, de vozes autorais diferentes, mas ambos funcionam porque não têm certezas demais, porque deixam espaço para o incômodo.
O que fica claro ao conversar com Dalcastagnè é que o desafio de falar do outro não foi resolvido. A literatura brasileira continua sendo feita principalmente por pessoas de classe média, e mesmo aqueles que nascem pobres, quando começam a escrever, adquirem uma nova perspectiva social e olham para suas origens com outras questões. O problema não é que a literatura deva parar de tentar representar vidas diferentes. É que ela precisa fazer isso com a mesma complexidade, a mesma ambiguidade, a mesma recusa de certezas que dedica aos personagens que se parecem com seus autores. Nos anos setenta, havia uma disposição para o risco, para a experimentação, para deixar o leitor desconfortável. Hoje, a segurança parece ter vencido. E com ela, perdeu-se algo importante.
Citas Notables
A literatura é uma forma de conectar as pessoas, dá para se relacionar com ela de diferentes formas, principalmente quando ela não é didática.— Regina Dalcastagnè
Carolina foi uma mulher negra e migrante que lutou para poder escrever, cuja obra se contrapõe à dos escritores brancos de classe média e representa um corte com o que era a nossa literatura antes.— Regina Dalcastagnè
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Carolina Maria de Jesus é tão central no seu livro? Ela é apenas um exemplo histórico ou há algo mais?
Carolina bagunça as categorias. Ela era uma mulher negra, migrante, que lutou para poder escrever. Sua obra não é apenas um testemunho — é literatura que desafia o que a gente entendia como literatura. Tentaram apagá-la, mas ela sempre ressurge. Isso nos força a pensar sobre quem tem voz, o que conta como forma, o que é só conteúdo.
Você critica o didatismo identitário, mas não corre risco de parecer que está pedindo para as pessoas marginalizadas serem menos diretas, menos claras sobre suas experiências?
Não é isso. Entendo a necessidade das pessoas de se verem na literatura. Mas o didatismo é limitante. A melhor literatura é aquela que oferece perspectivas ricas, que permite múltiplas vozes falando ao mesmo tempo, que se contradizem. É mais desconfortável falar do outro do que falar de si mesmo. Mas é também mais interessante.
Você diz que a ficção contemporânea é mais conservadora na forma. Isso é culpa dos autores ou do mercado?
É uma pressão sistêmica. Os autores têm medo de ser cancelados se não forem diretos demais, se não tomarem cuidado demais com os personagens. Nos anos setenta, essa preocupação não existia. Havia experimentação, havia risco. Hoje, a comunicação é mais direta, perdeu-se a ambiguidade e as metáforas.
Mas nem todo leitor quer quebra-cabeças. Nem todo leitor quer ser desconfortável.
Verdade. Nem todos conseguiam participar daquele jogo nos anos setenta. Mas eram propostas interessantes. O que estou dizendo é que perdemos a linha de força da experimentação. A não ser por um autor aqui e outro ali, a literatura brasileira não está mais esticando a linguagem, não está mais convidando o leitor a participar de algo que o desafia.