O que pode ser melhor na economia pode ser muito pior institucionalmente
Casa de análises do BTG Pactual trocou BR Partners por Vitru Educação em carteira de small caps, justificando com análise técnica de desempenho histórico. Relatório foi amplificado em redes de extrema direita após fala de Ricardo Lacerda sobre riscos institucionais maiores em possível vitória de Flávio Bolsonaro.
- Empiricus trocou BR Partners por Vitru Educação em carteira de small caps em 18 de junho
- CEO Ricardo Lacerda criticou riscos institucionais de candidatura bolsonarista em entrevista anterior
- Ações do BR Partners caíram 3,94% após polêmica, de R$ 14,99 para R$ 14,40
- Empiricus havia recomendado compra do BR Partners em maio, um mês antes da venda
A Empiricus recomendou venda de ações do BR Partners em relatório técnico que ganhou repercussão política após CEO criticar riscos institucionais de candidatura bolsonarista, gerando ataques em redes sociais.
No meio de junho, a Empiricus — a casa de análises que integra o BTG Pactual — publicou um relatório recomendando a venda das ações do BR Partners. A mudança era rara: a própria Empiricus destacava em seu título que raramente fazia alterações nessas recomendações de investimento para small caps, empresas menores listadas em bolsa. Tecnicamente, a justificativa parecia sólida. O banco de investimentos enfrentava estagnação de lucros e uma política de distribuição de dividendos que poderia comprometer sua expansão. A Vitru Educação, que a Empiricus escolheu para substituir o BR Partners na carteira, oferecia liderança no segmento de educação a distância e resiliência diante de novas regulações.
Mas o timing importava. Dias antes, Ricardo Lacerda, CEO do BR Partners, havia concedido uma entrevista ao jornalista Guilherme Amado para o programa Amado Mundo. Nela, Lacerda falou sobre os riscos institucionais de uma possível vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições. Comparou com Lula, dizendo que o presidente era figura conhecida que ninguém imaginava atentar contra a democracia. Já Flávio Bolsonaro representava incerteza: teria o pai na prisão, em conflito com o Supremo Tribunal Federal, e Lacerda questionava se conseguiria manter a instituição funcionando normalmente. "O que pode ser um pouquinho melhor do lado da economia, pode ser muito pior do lado institucional", resumiu.
Quando o relatório da Empiricus circulou, a fala de Lacerda circulou junto. Influenciadores de extrema direita — entre eles Paulo Figueiredo e Bruno Musa, sócio da Acqua Vero Investimentos e colunista do Brasil Paralelo — amplificaram o conteúdo em suas redes sociais, transformando uma análise técnica de small caps em munição política. O relatório, que começava com uma citação irônica do filósofo sufi Rumi sobre sabedoria e mudança, virou símbolo de uma suposta conspiração da elite financeira contra candidatos de direita.
A Empiricus respondeu ao Estadão negando qualquer conexão entre o relatório e as declarações políticas de Lacerda. A mudança na carteira, afirmou a casa de análises, baseava-se exclusivamente em metodologia própria que avalia o comportamento histórico dos ativos por meio de indicadores gráficos, incluindo desempenho dos últimos cinco anos. Nenhuma relação com um único fator político. Porém, um mês antes, em maio, a Empiricus havia mantido recomendação de compra do BR Partners, classificando-o como "tese resiliente para investimentos, com histórico excelente de retorno sobre o patrimônio, potencial de crescimento e múltiplos atrativos". A mudança de posição em apenas trinta dias alimentou as suspeitas.
No mercado, as ações do BR Partners caíram 3,94% entre 18 de junho e o dia seguinte, passando de R$ 14,99 para R$ 14,40. Mas era impossível atribuir a queda exclusivamente aos ataques políticos. O setor financeiro inteiro vivia alta volatilidade após decisão do Copom — o Comitê de Política Monetária do Banco Central — que havia cortado sutilmente a taxa básica de juros, travando o crescimento econômico. Toda a indústria financeira sentia o impacto.
O barulho nas redes sociais, porém, foi muito maior que o impacto no preço das ações. Lacerda recebeu agressões e ameaças diretas em sua conta no Instagram. Os posts de seus críticos alcançavam milhares de engajamentos. O que começou como uma recomendação técnica de investimento havia se transformado em arena de polarização política, com a figura do CEO do BR Partners no centro de uma tempestade que extrapolava qualquer análise de fundamentals ou gráficos históricos. A tensão pré-eleitoral havia migrado das brigas abstratas nas redes para o coração da Faria Lima, o bairro onde se concentra o poder financeiro de São Paulo.
Citações Notáveis
A informação de que teria recomendado a venda em razão das declarações políticas não corresponde aos fatos. O relatório é análise técnica baseada em metodologia própria.— Empiricus, em nota ao Estadão
O presidente Lula ninguém acha que pode atentar contra a democracia. Já do lado do Flávio Bolsonaro é mais incerto, porque vai ter o pai na prisão querendo sair e brigando com o Supremo.— Ricardo Lacerda, CEO do BR Partners
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um relatório técnico sobre small caps virou assunto de polarização política?
Porque o timing e o contexto importam mais que a intenção. A Empiricus pode ter razões técnicas legítimas, mas publicar uma recomendação de venda do BR Partners dias depois do CEO criticar riscos institucionais de um candidato bolsonarista criou uma narrativa irresistível nas redes.
A Empiricus realmente mudou de posição em um mês. Como explicar isso?
Eles dizem que usam metodologia própria baseada em indicadores históricos. Mas quando você recomenda compra em maio e venda em junho, sem mudanças fundamentais visíveis no banco, fica difícil separar análise técnica de contexto político.
Ricardo Lacerda foi imprudente ao falar sobre política?
Ele estava respondendo uma pergunta legítima sobre risco institucional. Não inventou nada. Mas em um ambiente polarizado, qualquer crítica a candidatos de direita vira munição para ataques coordenados.
As ações caíram. Isso prova que o mercado concordou com a Empiricus?
Não necessariamente. O setor inteiro estava volátil por causa das decisões do Banco Central. É impossível separar o que foi impacto do relatório e o que foi movimento geral do mercado.
Qual é o risco real aqui?
Que análises técnicas legítimas fiquem contaminadas por suspeita política. Se investidores começam a desconfiar que recomendações são motivadas por ideologia, a credibilidade de toda a indústria sofre.