O que importa são os resultados. Se alguém não consegue fazer o trabalho, prefiro que tenha outro emprego
Em Washington, a missão americana junto à OEA atravessa uma crise silenciosa que revela uma tensão mais profunda: o choque entre a tradição diplomática construída ao longo de décadas e a nova ordem imposta pela administração Trump. Sob o comando do embaixador Leandro Rizzuto Jr., aliado pessoal do presidente e homem de negócios sem carreira no serviço exterior, praticamente toda a liderança da representação se desfez — e com ela, parte da memória institucional que sustenta a influência americana no hemisfério. A história registra que grandes potências raramente perdem prestígio por um único gesto; perdem-no pela erosão lenta da competência e da confiança.
- Pelo menos quatro diplomatas sêniors abandonaram a missão americana na OEA em poucos meses, deixando a representação sem sua liderança técnica em um dos fóruns multilaterais mais estratégicos das Américas.
- O embaixador Rizzuto chamou de 'ratos' os funcionários que levaram preocupações ao Departamento de Estado, instalando uma atmosfera de desconfiança que acelerou as demissões e pedidos de desligamento.
- Rizzuto quer reorientar a atuação dos EUA na OEA, esvaziando pautas de democracia e direitos humanos em favor de interesses econômicos — uma ruptura com décadas de posicionamento americano na organização.
- O Departamento de Estado não respondeu às perguntas sobre os conflitos internos, enquanto a crise na OEA se insere num desmonte mais amplo da diplomacia de carreira promovido desde o retorno de Trump à Casa Branca.
- Ao esvaziar justamente a instituição mais importante para as relações hemisféricas, a estratégia de Trump corre o risco de minar a própria capacidade americana de exercer influência duradoura na América Latina.
A missão dos Estados Unidos junto à Organização dos Estados Americanos vive uma crise interna que expõe o choque entre o serviço exterior tradicional e a nova ordem da administração Trump. Nos últimos meses, pelo menos quatro diplomatas de alto escalão deixaram seus cargos — entre eles o vice-chefe da missão, o chefe de gabinete e um conselheiro político sênior —, representando praticamente toda a liderança da representação americana na entidade sediada em Washington.
No centro da turbulência está Leandro Rizzuto Jr., embaixador nomeado por Trump e aliado pessoal do presidente. Seu estilo de gestão é descrito por colegas como confrontador e imprevisível. Em episódio revelador, Rizzuto teria chamado de 'ratos' os funcionários que levaram preocupações diretamente ao Departamento de Estado. Em entrevista, confirmou as saídas, mas rejeitou as críticas: para ele, a missão deve reduzir a ênfase em democracia e direitos humanos e ampliar o foco em questões econômicas. 'Sou um homem de negócios. O que importa são os resultados', declarou. Um detalhe simbólico: após assumir o cargo, mandou instalar um grande retrato a óleo de si próprio no salão principal da missão.
A trajetória de Rizzuto já acumulava controvérsias. Herdeiro de uma fortuna do setor de cosméticos e amigo de longa data de Trump, teve uma primeira indicação para embaixador em Barbados rejeitada após a divulgação de publicações com teorias conspiratórias. Passou por um posto nas Bermudas antes de conseguir confirmação para a OEA no segundo mandato republicano.
O episódio se insere num contexto mais amplo: desde seu retorno à Casa Branca, Trump promoveu uma ampla reestruturação da diplomacia americana, dispensando centenas de funcionários e removendo dezenas de embaixadores de carreira, muitas vezes sem substitutos imediatos. Na OEA — o principal fórum multilateral hemisférico, fundado em 1948 —, essa perda de experiência acumulada ocorre justamente quando a disputa por influência política e econômica na América Latina se intensifica, sugerindo que a estratégia pode estar comprometendo a própria capacidade americana de exercer poder de forma sustentada no continente.
A missão diplomática dos Estados Unidos junto à Organização dos Estados Americanos enfrenta uma crise interna que expõe as tensões entre a velha guarda do serviço exterior americano e a nova ordem trazida pela administração Trump. Nos últimos meses, pelo menos quatro diplomatas de alto escalão — o vice-chefe da missão, o chefe de gabinete, um conselheiro político sênior e outro membro do corpo diplomático — deixaram seus cargos, voluntariamente ou não. Essas saídas representam praticamente toda a liderança da representação americana na entidade sediada em Washington.
No centro da turbulência está Leandro Rizzuto Jr., embaixador nomeado por Trump e aliado pessoal do presidente. Segundo relatos de diplomatas que trabalham na missão, o estilo de gestão de Rizzuto é confrontador e imprevisível. Em um episódio particularmente revelador, o embaixador teria comparado funcionários que levaram preocupações diretamente ao Departamento de Estado a "ratos" — uma caracterização que captura a atmosfera de desconfiança que tomou conta da representação. Rizzuto confirmou em entrevista que diplomatas experientes foram demitidos ou pediram desligamento, mas rejeitou as críticas. Para ele, sua gestão busca redirecionar o foco da OEA, reduzindo a ênfase em temas como democracia e direitos humanos e ampliando a atenção a questões econômicas. "Sou um homem de negócios. O que importa são os resultados. Se alguém não consegue fazer o trabalho, prefiro que tenha outro emprego", afirmou.
A OEA, fundada em 1948, é o principal organismo multilateral das Américas. Historicamente, a organização atuou em áreas como democracia, direitos humanos, segurança regional e desenvolvimento econômico, servindo como fórum importante para mediação de crises políticas, observação de processos eleitorais e condenações internacionais a violações de direitos humanos em países como Cuba e Nicarágua. A reorientação proposta por Rizzuto representa uma mudança significativa nessa missão histórica.
A trajetória de Rizzuto já havia sido marcada por controvérsias antes de sua chegada à OEA. Herdeiro de uma fortuna do setor de cosméticos e amigo de longa data de Trump, ele foi indicado para o cargo de embaixador em Barbados durante o primeiro mandato do presidente republicano. A indicação fracassou após a divulgação de publicações em redes sociais nas quais compartilhava teorias conspiratórias, incluindo alegações falsas envolvendo o senador republicano Ted Cruz. Posteriormente, foi nomeado para um posto diplomático nas Bermudas e, já no segundo mandato de Trump, conseguiu confirmação para assumir a representação dos Estados Unidos na OEA.
Um detalhe revelador sobre o comando de Rizzuto: segundo três fontes, após assumir o cargo, ele mandou instalar um grande retrato a óleo de si próprio no salão principal da missão americana junto à organização. O embaixador não respondeu aos questionamentos sobre o episódio. O Departamento de Estado, por sua vez, também não respondeu aos questionamentos sobre os conflitos internos na missão.
As mudanças na OEA ocorrem em um contexto mais amplo de reformulação do corpo diplomático americano. Desde seu retorno à Casa Branca, a administração Trump promoveu uma ampla reestruturação da diplomacia dos Estados Unidos. Centenas de funcionários foram dispensados em cortes coletivos e dezenas de embaixadores de carreira perderam seus cargos, muitos deles sem substituição imediata. Essa transformação reflete a postura mais crítica da administração em relação a instituições multilaterais e sua preferência por diplomatas alinhados com a visão de Trump.
O processo tem enfraquecido a capacidade técnica e a experiência acumulada da diplomacia dos Estados Unidos em um momento de crescente disputa por influência política e econômica no continente americano. Enquanto Trump busca reforçar a influência dos Estados Unidos na América Latina, a perda de pessoal experiente na OEA — justamente a instituição multilateral mais importante para as relações hemisféricas — sugere que essa estratégia pode estar comprometendo a própria capacidade americana de exercer influência de forma sustentada.
Citas Notables
Sou um homem de negócios. O que importa são os resultados. Se alguém não consegue fazer o trabalho, prefiro que tenha outro emprego— Embaixador Leandro Rizzuto Jr.
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um embaixador nomeado por Trump causaria tanta turbulência em uma missão diplomática? Não deveria haver alinhamento automático?
Porque diplomacia de carreira e política presidencial operam em lógicas diferentes. Os diplomatas que saíram passaram décadas construindo expertise em direitos humanos, democracia, mediação de conflitos. Rizzuto chegou como homem de negócios, sem experiência diplomática, querendo mudar tudo isso.
E a comparação com "ratos"? Isso parece pessoal demais para ser apenas sobre diferenças de gestão.
É pessoal, sim. Quando funcionários levam preocupações ao Departamento de Estado — que é o canal apropriado — e o embaixador os chama de ratos por isso, você cria um clima de medo. Ninguém mais fala. A missão para de funcionar como instituição.
O retrato a óleo dele no salão principal — é simbólico ou apenas excêntrico?
Ambos. É o gesto de alguém que vê a posição como poder pessoal, não como serviço público. Um diplomata de carreira nunca faria isso. Sinaliza que a missão agora é sobre ele, não sobre os interesses americanos.
Trump está realmente tentando enfraquecer a OEA, ou isso é consequência não intencional?
Provavelmente ambos. Ele desconfia de instituições multilaterais por princípio. Mas nomeando alguém como Rizzuto — sem experiência, com histórico de teorias conspiratórias — ele está garantindo que a missão americana não funcionará bem. É difícil saber se é estratégia ou incompetência.
E a América Latina? Como isso afeta a região?
A OEA era um espaço onde os EUA tinham influência através de expertise, mediação, legitimidade. Se a missão americana vira um caos, os EUA perdem capacidade de influenciar. Outros atores — China, Rússia — ganham espaço. É um tiro no próprio pé.