O dinheiro tem que ser mandado para nós, para proteger nossas terras
Aos 93 anos, Raoni Metuktire chegou à COP30 em Belém em cadeira de rodas — não como voz de abertura de uma conferência realizada em seu próprio território, mas como presença que precisou de um país estrangeiro para encontrar um palco. O episódio coloca em relevo uma tensão antiga entre o gesto simbólico e o poder real: o maior líder indígena do Brasil falou para 60 pessoas num pavilhão lateral, enquanto o governo celebrava números de credenciamento. A distância entre a rampa do Planalto e o corredor da COP revela quanto do reconhecimento às lideranças originárias ainda é cerimônia, e quanto é substância.
- Raoni, o maior líder indígena do Brasil, chegou à COP30 sem convite oficial para discursar — nem da presidência da conferência, nem do governo Lula.
- Sua equipe passou semanas buscando um espaço; quem finalmente abriu uma porta foi a delegação do Panamá, não o país anfitrião.
- Com credenciais para apenas quatro pessoas, um homem de 93 anos em cadeira de rodas viu-se dependente de documentação estrangeira para trazer sua própria delegação.
- O governo respondeu citando 360 indígenas credenciados na Zona Azul e 15 encontros nacionais, mas a equipe de Raoni descreveu o evento como um protesto pela falta de diálogo.
- Ativistas apontam que a marginalização de Raoni não é falha burocrática, mas decisão política — e que colocar um homem branco à frente da COP da Amazônia tem um significado que vai além do protocolo.
Raoni Metuktire chegou a Belém no sábado à tarde em cadeira de rodas, acompanhado pela ministra Sônia Guajajara. Tinha algo a dizer na COP30 — mas o espaço que encontrou não era um palco de abertura. Era um pavilhão chamado The Climate Funds, onde falaria para cerca de 60 pessoas num evento que sua própria equipe definia como protesto pela falta de diálogo.
A frustração vinha de semanas. O líder Mebêngôkre, aos 93 anos, não havia recebido convite para discursar oficialmente pela presidência da conferência nem pelo governo brasileiro. Foi a delegação do Panamá — por iniciativa do vice-presidente da COP, Juan Carlos Monterrey Gómez — que viabilizou o evento e conseguiu credenciais para cerca de 30 membros de sua delegação. O maior líder indígena do Brasil precisou de um país estrangeiro para ter voz na conferência climática realizada em seu próprio território.
Mayalu Kokometi Waura Txucarramãe, coordenadora do Instituto Raoni, descreveu o que esperavam: uma fala de abertura ou encerramento, um momento de destaque. O que havia sido programado era nada. Quando o governo foi questionado, o Ministério dos Povos Indígenas afirmou desconhecer as críticas e destacou a credenciamento de 360 indígenas na Zona Azul como parte da maior participação indígena da história das COPs.
Quando Raoni finalmente subiu ao pequeno auditório — após uma reunião com ministros que atrasou sua chegada em uma hora — sua mensagem foi direta. Pediu que a floresta fosse defendida pela verdade e denunciou que recursos destinados aos povos indígenas não estavam chegando a eles. Depois que falou, mulheres Kayapó cantaram, como fazem nos territórios. A cena contrastava com a imagem de dois anos antes, quando Raoni subiu a rampa do Planalto de braços dados com Lula recém-empossado.
A ativista Paloma Costa, co-organizadora do evento, foi direta na crítica: a marginalização de Raoni não era falha de um ministério, mas decisão presidencial. 'Querendo ou não, o Brasil colocou um homem branco como presidente dessa COP.' A tensão revelou, mais uma vez, a distância entre o gesto simbólico feito às lideranças indígenas e o lugar que realmente ocupam quando as decisões sobre a Amazônia são tomadas.
Raoni Metuktire, aos 93 anos, chegou a Belém no sábado à tarde em cadeira de rodas, acompanhado pela ministra Sônia Guajajara. Ele estava ali para a COP30, a conferência climática das Nações Unidas, e tinha algo a dizer. Mas o espaço que encontrou não era o que sua equipe esperava — não era um palco de abertura ou encerramento, não era um lugar de destaque na Zona Azul onde as delegações oficiais negociam o futuro do planeta. Era um pavilhão chamado The Climate Funds, onde falaria para cerca de 60 pessoas, um evento que sua equipe descrevia como um protesto pela falta de diálogo.
A frustração vinha de longe. Raoni, líder do povo Mebêngôkre, também conhecido como Kayapó, não havia sido convidado para discursar oficialmente pela presidência da COP, coordenada pelo Brasil, nem pelo governo Lula. Sua equipe buscou um espaço por semanas. Quem ofereceu ajuda foi a delegação do Panamá — Juan Carlos Monterrey Gómez, vice-presidente da COP, conseguiu montar o evento porque, segundo ele, era necessário que as vozes indígenas fossem ouvidas. Mas isso significava que o maior líder indígena do Brasil precisava de um país estrangeiro para ter um lugar na conferência climática realizada em seu próprio território.
As dificuldades começaram antes. Raoni tinha credenciais para ele e três pessoas próximas. Sua equipe considerou isso insuficiente para um homem de 93 anos que se locomove em cadeira de rodas e está acostumado a estar rodeado de pessoas. Foi o Panamá que conseguiu documentação para cerca de 30 membros de sua delegação. Mayalu Kokometi Waura Txucarramãe, coordenadora do Instituto Raoni, explicou a frustração: era para ser o grande evento dele na COP, uma fala de abertura ou encerramento, mas nada havia sido programado. A equipe estava buscando um espaço para que pudesse fazer incidência política antes de voltar ao Mato Grosso na segunda-feira.
Quando o governo foi questionado, respondeu através do Ministério dos Povos Indígenas que desconhecia as críticas e não havia recebido comunicação formal. O ministério afirmou ter feito uma grande articulação para garantir a maior participação indígena da história das COPs, credenciando 360 indígenas na Zona Azul como parte da delegação brasileira, através da iniciativa COParente, que realizou 15 encontros em todas as regiões do Brasil dialogando com cerca de 2 mil lideranças. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, havia 3 mil indígenas credenciados no total — o que significava que os 360 representavam 12% desse número.
No sábado à tarde, Raoni subiu ao pequeno auditório. Antes disso, havia participado de uma reunião com ministros — Marina Silva, Sônia Guajajara, André Corrêa do Lago e Guilherme Boulos — que atrasou sua chegada em uma hora. Quando finalmente falou, sua mensagem foi direta. "Vocês precisam defender a floresta pela verdade", disse, referindo-se ao lema da COP30 como a "COP da Verdade e da implementação". Raoni também criticou o fluxo de recursos: parte do dinheiro enviado para os povos indígenas não estava chegando a eles. "Esse dinheiro tem que ser mandado para nós, para que a gente possa, além de fazer o nosso trabalho, proteger também nossas terras."
Depois que falou, o líder Megaron Txucarramãe, anunciado como seu futuro sucessor, pediu para as mulheres Kayapó cantassem, como fazem nos territórios. A cena contrastava com a imagem de dois anos antes, quando Raoni subiu a rampa do Palácio do Planalto de braços dados com Lula, recém-empossado. Na semana anterior à COP, Raoni havia cobrado em declaração exclusiva o cumprimento da promessa presidencial de demarcar todas as terras indígenas. Lula havia demarcado 16 territórios desde o terceiro mandato, superando o compromisso inicial, mas havia uma campanha para que formalizasse outras 67.
Paloma Costa, ativista brasileira e co-fundadora do Youth Climate Justice Fund, uma das organizadoras do evento com Raoni, ofereceu uma crítica mais ampla. "A ministra lutou muito para ter um espaço dos povos indígenas aqui na COP, mas eu acho que a decisão não recai só sobre a ministra. Eu acho que é uma decisão presidencial. Querendo ou não, o Brasil colocou um homem branco como presidente dessa COP." A tensão revelava uma distância entre as promessas feitas a lideranças indígenas e o lugar que realmente ocupavam nos eventos oficiais da conferência que deveria ser, afinal, sobre a Amazônia.
Citas Notables
Era para ser o grande evento do Raoni aqui na COP como o maior líder dos povos indígenas. Ele deveria ter feito uma fala de abertura ou de encerramento e não tem nada programado— Mayalu Kokometi Waura Txucarramãe, coordenadora do Instituto Raoni
Eu acho que é uma decisão presidencial. Querendo ou não, o Brasil colocou um homem branco como presidente dessa COP— Paloma Costa, ativista e co-fundadora do Youth Climate Justice Fund
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Raoni não recebeu um convite formal para discursar?
Sua equipe diz que nunca foi convidada pela presidência da COP ou pelo governo Lula. O governo respondeu que desconhecia as críticas, mas a verdade é que Raoni precisou de ajuda do Panamá para ter um espaço.
Qual era o tamanho do evento que conseguiu?
Cerca de 60 pessoas em um pavilhão. Para alguém que é considerado a maior liderança indígena do Brasil, em uma conferência sobre clima realizada na Amazônia, é um espaço muito pequeno.
E quanto ao credenciamento?
Raoni tinha credenciais para ele e três pessoas. Sua equipe achou insuficiente para um homem de 93 anos que usa cadeira de rodas. O Panamá conseguiu documentação para 30 pessoas da delegação dele.
O governo não fez nada para ampliar a participação indígena?
O governo diz que credenciou 360 indígenas na Zona Azul e que fez uma grande articulação. Mas isso é 12% do total de 3 mil indígenas credenciados. A questão é: por que Raoni, especificamente, não teve um lugar de destaque?
Qual foi a mensagem dele quando finalmente falou?
Que precisam defender a floresta pela verdade, e que o dinheiro destinado aos povos indígenas não está chegando a eles. Pediu que os recursos fossem enviados para que pudessem proteger suas terras.
Como isso se relaciona com as promessas de Lula?
Dois anos atrás, Raoni subiu a rampa do Palácio do Planalto de braços dados com Lula. Agora cobra o cumprimento da promessa de demarcar todas as terras indígenas. A distância entre aquele momento e este evento em um pavilhão pequeno diz muito.