Nenhuma cidade do Norte e Nordeste figura entre as vinte melhores
Pela décima sexta vez, o Instituto Trata Brasil expõe uma fratura antiga na geografia do país: enquanto cidades do Sul e Sudeste garantem água e esgoto a quase toda a sua população, municípios do Norte e Nordeste seguem à margem de direitos que deveriam ser universais. O ranking de 2024, divulgado em 20 de março, não é apenas uma lista de desempenho — é um espelho das desigualdades estruturais que moldam a saúde, a dignidade e as oportunidades de dezenas de milhões de brasileiros.
- 32 milhões de brasileiros ainda bebem água sem tratamento adequado e 90 milhões vivem sem coleta de esgoto — números que persistem após mais de uma década de monitoramento.
- Nas dez piores cidades, como Macapá e Santarém, apenas 20% do esgoto recebe algum tratamento, transformando rios e solos em vetores de doenças evitáveis.
- Nenhuma cidade do Norte ou do Nordeste aparece entre as vinte melhores colocadas, revelando que as políticas nacionais de saneamento ainda não alcançaram as regiões mais vulneráveis.
- As vinte cidades líderes — quinze delas em São Paulo e no Paraná — demonstram que cobertura quase universal é tecnicamente possível, tornando a desigualdade uma escolha política, não uma fatalidade.
- O Novo Marco Legal do Saneamento Básico orienta os critérios do ranking, mas os dados de 2022 indicam que a lei ainda não se traduziu em convergência real entre as regiões do país.
O Instituto Trata Brasil apresentou, em 20 de março, a 16ª edição de seu ranking sobre saneamento básico nas cem cidades mais populosas do país. O resultado confirma uma divisão profunda: Maringá, São José do Rio Preto e Campinas lideram a lista, e quinze das vinte melhores cidades estão concentradas em São Paulo e no Paraná. Nenhuma cidade do Norte ou do Nordeste figura nesse grupo — uma ausência que traduz décadas de desigualdade estrutural em infraestrutura e investimento público.
As cidades do topo garantem água potável a 98,8% da população, coleta de esgoto a 96% e tratamento a 78,4% — percentuais que refletem planejamento de longo prazo e gestão eficiente. No extremo oposto, as dez piores cidades, entre elas Macapá, Santarém e Belém, oferecem água tratada a apenas 82% dos moradores, coleta de esgoto a 28% e tratamento a somente 20%. Nesses municípios, a maior parte dos resíduos humanos segue sem qualquer processamento, contaminando o ambiente e alimentando doenças infecciosas.
O levantamento, baseado em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2022, documenta um problema que o próprio instituto monitora desde 2009 sem que as disparidades regionais tenham sido superadas. Por trás dos percentuais estão 32 milhões de pessoas sem acesso à água potável e 90 milhões sem coleta de esgoto — crianças expostas à contaminação, comunidades vulneráveis a epidemias e sistemas de saúde pública sobrecarregados por enfermidades que o saneamento básico poderia prevenir.
O Instituto Trata Brasil apresentou nesta quarta-feira, 20 de março, os resultados de sua 16ª avaliação sobre saneamento básico nas cem cidades mais populosas do país. O retrato que emerge é de um Brasil profundamente dividido: enquanto algumas cidades do Sul e Sudeste desfrutam de infraestrutura praticamente universal, regiões inteiras permanecem à margem de serviços básicos de água e esgoto.
Maringá, no Paraná, encabeça o ranking, seguida por São José do Rio Preto e Campinas, ambas em São Paulo. Dessas vinte melhores cidades avaliadas segundo os critérios do Novo Marco Legal do Saneamento Básico, quinze localizam-se em São Paulo e no Paraná. Nenhuma cidade das regiões Norte e Nordeste figura entre as vinte melhores — um vazio que fala por si só sobre as desigualdades estruturais do país.
Os números das cidades líderes revelam o que é possível alcançar com investimento adequado. Em média, elas garantem acesso à água potável para 98,8% da população, coleta de esgoto para 96% e tratamento para 78,4%. Esses percentuais refletem décadas de planejamento e investimento em infraestrutura, além de gestão eficiente dos serviços. A metodologia do ranking considera indicadores como acesso e eficiência do serviço, desperdício de água pelo sistema e investimentos no setor, todos baseados em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2022.
No extremo oposto, as dez piores cidades — Macapá, Santarém, Rio Branco, Belford Roxo, Duque de Caxias, São Gonçalo, Belém, Várzea Grande, Juazeiro do Norte e Ananindeua — enfrentam realidades radicalmente diferentes. Nelas, apenas 82% da população tem acesso à água tratada. A coleta de esgoto alcança apenas 28% dos domicílios, e o tratamento, apenas 20%. Essas proporções significam que em cidades como Macapá e Santarém, a maioria dos resíduos humanos segue sem qualquer tratamento, contaminando o ambiente e propagando doenças.
O levantamento do Instituto Trata Brasil, que monitora esses indicadores desde 2009, documenta um problema que permanece histórico no Brasil: 32 milhões de pessoas carecem de acesso à água potável, enquanto 90 milhões não dispõem de coleta de esgoto. Essas cifras não são abstratas. Representam crianças que bebem água contaminada, comunidades onde doenças infecciosas se propagam livremente, e sistemas de saúde pública sobrecarregados por problemas que seriam evitáveis com saneamento básico adequado.
A concentração de cidades bem avaliadas no Sul e Sudeste não é coincidência. Essas regiões historicamente receberam mais investimentos em infraestrutura e possuem maior arrecadação tributária municipal. O Norte e o Nordeste, por sua vez, enfrentam desafios econômicos maiores e menor capacidade de investimento próprio. A ausência completa dessas regiões do top vinte do ranking sugere que as políticas nacionais de saneamento ainda não conseguiram reduzir as disparidades regionais de forma significativa, apesar de mais de uma década de monitoramento e alertas.
Notable Quotes
O Instituto Trata Brasil monitora esses indicadores desde 2009 para destacar um problema histórico no país: milhões de pessoas sem acesso à água potável e coleta de esgoto, o que afeta gravemente a saúde pública— Instituto Trata Brasil
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Maringá consegue o que Macapá não consegue? São cidades do mesmo país.
Maringá teve décadas de investimento contínuo em infraestrutura e uma administração municipal que priorizou saneamento. Macapá enfrenta limitações orçamentárias muito maiores e uma população dispersa em uma região com desafios geográficos e econômicos distintos. Não é incompetência — é desigualdade estrutural.
Esses números de 32 milhões sem água potável — como isso afeta a saúde das pessoas?
Diretamente. Sem água tratada, aumentam casos de diarreia, cólera, hepatite A. Crianças desnutrem porque o corpo gasta energia combatendo infecções. Hospitais públicos ficam lotados. É um ciclo que perpetua pobreza.
O ranking existe desde 2009. Por que a disparidade não diminuiu?
Porque exige investimento massivo e contínuo. Você não constrói uma rede de esgoto em um ano. E as regiões que mais precisam têm menos recursos para investir. O ranking documenta o problema, mas não resolve a questão de financiamento.
Se as vinte melhores cidades têm 98,8% de acesso à água, por que não 100%?
Sempre há bolsões de exclusão — favelas, ocupações irregulares, áreas remotas dentro de cidades grandes. Mesmo em Maringá, 1,2% da população fica de fora. É a última milha do saneamento, a mais cara de resolver.
O que muda se isso continuar assim?
A saúde pública piora. Epidemias se tornam mais prováveis. E a desigualdade se aprofunda — quem tem água e esgoto vive mais, trabalha melhor, estuda melhor. É um divisor de destinos.