Raí diz que futebol masculino brasileiro está em decadência e alerta sobre ameaça da ultradireita

Quando estamos no meio de uma pandemia, com centenas de milhares morrendo, como não falar?
Raí explica por que decidiu se posicionar politicamente durante a crise do Covid-19, apesar dos riscos.

Raí, ex-jogador e agora cidadão do mundo dividido entre Paris e São Paulo, oferece um diagnóstico sereno mas preocupante: o futebol brasileiro decaiu porque nunca aprendeu a formar quem forma — os treinadores — enquanto a Europa investia décadas nessa base silenciosa. Fora dos gramados, ele carrega o mesmo senso de responsabilidade para a política, alertando que a ascensão da extrema direita, tanto na França quanto no Brasil, representa um desafio aos valores mais fundamentais da convivência humana.

  • O Brasil chega às Olimpíadas sem perspectiva de título mundial no curto prazo, resultado de anos de instabilidade técnica e ausência de uma cultura sólida de formação de treinadores.
  • Neymar, símbolo do talento individual que sempre sustentou o futebol brasileiro, carrega o peso de polêmicas autoinfligidas que corroem sua imagem pública mesmo entre quem o admira.
  • Raí perdeu patrocinadores e enfrentou pressões para silenciar, mas escolheu falar quando viu centenas de milhares morrendo enquanto o poder público promovia remédios sem eficácia.
  • Seu discurso num comício francês contra a ultradireita repercutiu nos dois países, revelando que brasileiros e franceses compartilham os mesmos medos sobre democracia e racismo.
  • Ele não acredita que a extrema direita está derrotada, mas aposta que sociedades com tecido social mais organizado — como a francesa — oferecem maior resistência ao retrocesso.

Caminhar por Paris ao lado de Raí é uma sequência de pausas: desconhecidos o reconhecem, pedem fotos, oferecem guarda-chuvas sob a chuva olímpica. Aos 58 anos, cidadão francês desde 2006 e recém-formado em Políticas Públicas pela Sciences Po, ele transita entre dois países com a mesma naturalidade com que sempre transitou entre o talento e a responsabilidade. Almoçou com Macron e Lula, voltou ao Brasil no avião presidencial, e mantém a Fundação Gol de Letra enquanto serve como conselheiro do Paris FC.

Sobre o futebol masculino brasileiro, o diagnóstico é direto: decadência estrutural. O país nunca investiu na formação de treinadores da forma como Portugal, Espanha, França e Inglaterra fizeram por cinquenta anos. Hoje, 90% dos técnicos dos últimos campeões brasileiros são estrangeiros. A seleção passou dois anos sem um treinador fixo, e a promessa de Carlo Ancelotti nunca se concretizou. Só talento, diz Raí, não basta mais — a tática e a estratégia passaram a pesar tanto quanto o dom individual.

Sobre Neymar, reconhece o gênio, mas aponta as polêmicas desnecessárias como um peso que o próprio jogador carrega. Quem o conhece pessoalmente gosta dele, diz. O problema é a imagem construída publicamente. E sobre o dinheiro excessivo que envolve o futebol de elite, Raí é compreensivo: é difícil para um garoto transformado em estrela gerir tanto assédio e tanta riqueza sem se blindar do mundo.

Seu engajamento político nasceu da vivência. Quatro anos de Bolsonaro lhe deram testemunho direto do que é viver sob a extrema direita — e quando viu o mesmo movimento avançar na França, falou num comício. O discurso repercutiu nos dois países porque, segundo ele, as pessoas estão sensíveis aos mesmos temas: democracia, racismo, extrema direita. Perdeu patrocinadores, recebeu conselhos para calar, mas havia um limite que ele não conseguia ignorar.

Raí não celebra vitória. A ultradireita não está vencida, avisa. Mas acredita que a França, com seu tecido social mais organizado e suas conquistas públicas consolidadas em educação e saúde, oferece mais resistência. No Brasil, esse chão ainda é mais frágil. E é por isso que ele continua falando.

Caminhar pelas ruas de Paris ao lado de Raí é parar a cada quarteirão. Um desconhecido o reconhece, pede uma foto, oferece um guarda-chuva quando começa a chover. Diferente de outras celebridades internacionais, ele nunca se irrita com essas abordagens. É totalmente acessível, mesmo em uma cidade em festa pelas Olimpíadas.

Raí se tornou ídolo na França depois de jogar no Paris-Saint Germain entre 1993 e 1998, e o governo francês lhe concedeu cidadania. Agora, aos 58 anos, ele divide seu tempo entre os dois países. Recentemente concluiu um mestrado em Políticas Públicas na Sciences Po e pretende passar seis meses em Paris, onde é conselheiro e embaixador do Paris Futebol Clube, e seis meses no Brasil, onde mantém a Fundação Gol de Letra e outros projetos. Almoçou com Emmanuel Macron e Lula quando o presidente francês visitou o Brasil em março, e voltou a Paris no avião presidencial.

Em conversa durante as Olimpíadas, Raí não hesita em diagnosticar o problema do futebol masculino brasileiro: decadência estrutural. O Brasil não tem perspectiva de ser campeão do mundo no curto prazo, diz. A seleção passou dois anos sem um treinador fixo, mudou várias vezes de técnico, e o anúncio da contratação de Carlo Ancelotti em junho do ano anterior nunca se concretizou. Agora começou com Dorival Júnior, mas é cedo para saber quanto tempo ele permanecerá. O problema, segundo Raí, é mais profundo: o futebol brasileiro sempre se baseou no talento individual e nunca investiu na formação de treinadores. Países como Portugal, Espanha, França e Inglaterra investem há 50 anos em cursos reconhecidos de treinadores, que por sua vez formam os jogadores. O Brasil tem isso há muito pouco tempo. Hoje, 90% dos técnicos dos últimos campeões brasileiros são estrangeiros. A técnica, os esquemas táticos e a estratégia contam muito mais do que antes. Só talento não basta mais.

Sobre Neymar, Raí reconhece seu gênio como atleta, mas aponta dois problemas: contusões em momentos importantes e a tendência de alimentar polêmicas desnecessárias que prejudicam sua carreira. Por causa dessas polêmicas, as pessoas têm uma imagem muito negativa dele, diz. Porém, todos que o conhecem pessoalmente gostam de Neymar. Pelo lado humano, ele não é um cara do mal.

Raí também discute o excesso de dinheiro que alguns jogadores ganham. Não é um problema só do Brasil, é mundial. Um jogador de elite hoje ganha em seis meses o que ele ganhou na carreira inteira. Isso mexe com a cabeça. Os jogadores são muito assediados e acabam blindados, cercados por assessores de imprensa, nutricionistas, empresários. Na época de Raí, todos esses profissionais eram do clube. É natural que um garoto que se transforma em estrela tenha dificuldade em gerir todo esse assédio, toda essa grana.

Seu envolvimento político é outro tema central. Raí se envolveu na campanha contra a ultradireita nas eleições francesas recentes porque é cidadão francês desde 2006 e porque se preocupa com esse movimento global de ascensão da extrema direita. Seu discurso em um comício repercutiu tanto na França quanto no Brasil, o que o surpreendeu. Acho que acertei porque as pessoas, nos dois países, estão sensíveis aos mesmos temas: extrema direita, democracia, racismo. Sua opinião foi muito baseada no que viveu no Brasil durante os quatro anos de Bolsonaro. Ele deu testemunho do que é viver sob a extrema direita.

Ao se posicionar politicamente, Raí coloca muita coisa em risco e já perdeu patrocinadores que recuaram por causa de suas posições. Muita gente lhe dizia para não se manifestar, ter cuidado, especialmente durante a pandemia. Mas foi um nível de absurdo que não dava para ficar quieto, diz. Quando centenas de milhares de pessoas morriam de Covid-19, o presidente falava de cloroquina. Quando começou a se naturalizar discriminação, violência contra as mulheres, estupros de meninas de 13 anos, como não falar sobre isso? São coisas básicas, são o limite dos valores humanos. Sempre foi discreto, mas há limites.

Raí não acredita que a ultradireita está definitivamente vencida. Longe disso. Mas guarda esperança de reverter esse movimento. A grande diferença entre a extrema direita francesa e a brasileira, segundo ele, é que a França tem um tecido social muito mais organizado. Se um cara de extrema direita vencesse lá, teria muita resistência para implantar coisas que talvez no Brasil conseguisse. Ninguém toca na qualidade da educação pública ou da saúde pública na França. As coisas estão estabelecidas em um patamar muito mais civilizado e organizado. Mas em termos de valores da extrema direita, é a mesma preocupação. É absurdo demais.

O Brasil está numa decadência, com certeza. Você não vê perspectiva de sermos campeões do mundo no curto prazo.
— Raí, sobre a seleção brasileira
Sempre fui discreto, mas há limites. Quando estamos no meio de uma pandemia com centenas de milhares morrendo, como não falar sobre isso?
— Raí, sobre seu engajamento político
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Você diz que o Brasil sofre de decadência no futebol, mas isso não é um pouco dramático? O Brasil ainda tem jogadores talentosos.

Model

Talento individual não é mais suficiente. Veja a diferença: países europeus investem em formação de treinadores há 50 anos. O Brasil faz isso há muito pouco tempo. Quando 90% dos técnicos dos últimos campeões brasileiros são estrangeiros, isso não é coincidência. É falta de estrutura.

Inventor

E por que você acha que Neymar virou um símbolo negativo se, como você mesmo disse, as pessoas que o conhecem gostam dele?

Model

Porque ele alimenta polêmicas onde não precisa. Isso prejudica a carreira dele e distorce a imagem pública. É um atleta genial, mas as contusões em momentos importantes e essas polêmicas criaram uma narrativa que não reflete quem ele é como pessoa.

Inventor

Você se envolveu na política francesa contra a ultradireita. Isso não coloca sua carreira em risco?

Model

Com certeza. Já perdi patrocinadores. Mas quando você vive em uma pandemia com centenas de milhares morrendo e o presidente fala de cloroquina, quando se naturaliza violência contra mulheres e meninas, há um limite. Não dá para ficar quieto.

Inventor

A esquerda brasileira depende muito de Lula. Isso não é um problema?

Model

É uma preocupação minha, e é uma crise global de lideranças. Mas tenho muita fé em Fernando Haddad. É um cara coerente, inteligente, preparado. Sua formação em Filosofia, Ciências Sociais e Economia fala muito.

Inventor

Você acha que a ultradireita foi derrotada?

Model

Não, longe disso. Mas guardo esperança de reverter esse movimento. O importante é ficar sempre alerta contra esse lado perverso da sociedade. Ele existe e está vivo.

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