A família sempre foi tudo para mim
Matos treinou em condições precárias em Porto Alegre antes de sua ascensão, incluindo sessões em clube abandonado com seu treinador Franco Ferreiro. O tenista perdeu o tio durante final em Chengdu e doou troféu de vice para sua avó, demonstrando importância da família em sua trajetória.
- Rafael Matos é o primeiro brasileiro campeão do Rio Open
- Treinou em clube abandonado em Teresópolis, Porto Alegre, em janeiro com 40 graus
- Seu tio faleceu durante a final de Chengdu em 2023
- Parceria com colombiano Nicolas Barrientos começou no início de 2024
Tenista gaúcho Rafael Matos tornou-se primeiro brasileiro campeão do Rio Open, emocionando-se ao lembrar do tio falecido e da dedicação familiar que o apoiou desde treinos em quadra abandonada.
Rafael Matos estava em pé na arquibancada do Rio Open, quebrando todo protocolo, abraçando um a um os membros da sua família. As lágrimas vinham enquanto ele segurava o troféu de campeão — o primeiro brasileiro a conquistar este título. Ninguém que o visse naquele momento poderia imaginar de onde ele tinha vindo para chegar ali.
Meses antes, Matos treinava em um clube abandonado em Teresópolis, bairro de Porto Alegre. Não havia estrutura, não havia conforto. Havia mato tomando conta das quadras, um sol de quarenta graus em janeiro, e apenas ele e seu treinador Franco Ferreiro. "Só quem viu aquela cena sabe como foi", disse o tenista gaúcho, descrevendo aqueles primeiros meses sem um lugar fixo para treinar, pulando de um clube para outro, buscando qualquer espaço onde pudesse trabalhar.
Mas a dificuldade física era apenas parte da história. No meio de 2023, durante a final de um torneio em Chengdu, na China, Matos recebeu uma ligação do pai. Seu tio tinha falecido. O homem tinha vivido a vida inteira com a avó de Rafael, eram muito apegados um ao outro. Matos perdeu aquela final e recebeu o troféu de vice-campeão. Em vez de guardá-lo, ele o entregou para sua avó, uma tentativa de aliviar a dor da perda.
"A família sempre foi tudo para mim", disse Matos, a voz quebrando ao lembrar daquele período. Ele tinha saído de casa dois anos antes, buscando sua carreira no tênis, mas sentia falta deles. Seus pais e avó o apoiavam desde aqueles treinos em quadra abandonada, desde os momentos mais difíceis. "Eles sempre me apoiaram e sou muito grato a eles."
A trajetória que o levou ao Rio Open começou a ganhar forma no início de 2024, quando Matos iniciou uma parceria em duplas com o colombiano Nicolas Barrientos. Juntos, disputaram sete torneios antes de chegar ao Rio. A escolha do parceiro tinha sido cuidadosa — Matos tinha encerrado 2023 sem um companheiro de duplas e precisava encontrar alguém que se encaixasse em seus critérios de jogo e de trabalho.
Quando o título chegou, não foi apenas uma vitória pessoal. Foi a culminação de treinos em quadras fantasmas, de uma ligação que trouxe luto no meio de uma competição, de uma família que nunca deixou de acreditar. Matos desceu daquele troféu e foi direto para os braços daqueles que o tinham sustentado em cada passo. O protocolo podia esperar.
Citas Notables
Treinou em um clube abandonado em Teresópolis, cheio de mato, só ele e seu treinador Franco Ferreiro, em janeiro, num sol de 40 graus— Rafael Matos
A família sempre foi tudo para mim. Saí de casa, fiquei dois anos morando fora, quis voltar, estava sentindo falta deles— Rafael Matos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como você explica a diferença entre treinar em um clube abandonado e depois conquistar um título em um torneio de nível internacional?
Não é só sobre o contraste físico. É sobre o que aquele abandono te ensina. Quando você está em um lugar assim, sozinho com seu treinador em um calor extremo, você aprende que o tênis não é sobre as estruturas ao seu redor. É sobre o que você carrega dentro.
A morte do seu tio durante a final em Chengdu — como você conseguiu continuar competindo depois disso?
Não consegui ganhar aquela final. Mas consegui transformar aquela derrota em algo que importava mais. Dar o troféu para minha avó foi minha forma de dizer que ela não estava sozinha na dor. E isso me deu força para seguir.
Por que a família é tão central na sua história?
Porque eles viram tudo. Viram os treinos em quadra cheia de mato, viram eu saindo de casa, viram eu voltando. Eles nunca duvidaram. Quando você tem isso, você não treina só por você.
E agora, com a parceria com Barrientos?
Agora é diferente. Tenho um companheiro que entende meu jogo, e tenho minha família vendo tudo isso acontecer. O título no Rio é deles também.