R$ 1 bilhão captado para prevenção, mas desastres climáticos continuam devastando

Mais de 100 mil pessoas afetadas diretamente por desastres climáticos na Bahia; 54 mortos em São Sebastião (SP); desalojamentos, desabamentos e alagamentos aprofundam desigualdades de gênero, raça e classe social.
A água deságua nos bueiros das desigualdades
Descrição de como eventos climáticos extremos afetam desproporcionalmente comunidades pobres e negras nas cidades.

A cada nova estação de chuvas, o Brasil repete um ritual conhecido: decretos de calamidade, imagens de destruição e promessas de reconstrução. Entre 2019 e 2022, quase R$ 778 milhões foram investidos em gestão de riscos — e ainda assim mais de 100 mil pessoas foram afetadas apenas na Bahia, e 54 morreram em São Sebastião. O que os números revelam não é escassez de recursos ou de tecnologia, mas uma escolha coletiva e sistemática de não agir antes que a água chegue — escolha cujo peso recai, invariavelmente, sobre os mesmos corpos: negros, pobres, invisíveis às políticas públicas.

  • Com capacidade de prever chuvas extremas com 30 dias de antecedência, o Brasil ainda falha em transformar alertas em ação: avisos não chegam à população e planos de evacuação simplesmente não são executados.
  • A Bahia concentrou o epicentro da crise no fim de 2022 — 120 mil afetados, 16 mil desalojados, 49 municípios em emergência —, mas o padrão se repete no Norte, Nordeste e Sudeste, sempre nos mesmos bairros e nas mesmas encostas.
  • O orçamento federal para gestão de riscos em 2023 é de R$ 1,17 bilhão, o menor em 14 anos, enquanto o Plano Nacional de Adaptação ao Clima avança no Congresso sem priorizar prevenção ou grupos vulneráveis.
  • Gestores públicos encontram conveniência política na tragédia: decretar calamidade libera recursos federais sem exigir responsabilização, perpetuando o ciclo de omissão preventiva e resposta emergencial.
  • Cada morte — como as 54 em São Sebastião — é apontada por especialistas não como fatalidade climática, mas como consequência direta da ausência de reflorestamento, saneamento e moradia segura nas periferias.

No fim de 2022, a Bahia viveu mais uma crise que não surpreendeu quem a estuda. Quase 120 mil pessoas foram afetadas por chuvas extremas, 16 mil perderam suas casas e 49 municípios decretaram emergência. Norte, Nordeste e Sudeste repetiam o mesmo ciclo: água em excesso, infraestrutura insuficiente e morte concentrada nos lugares mais pobres.

A pergunta que persiste depois de cada tragédia é incômoda: se há dinheiro e tecnologia — hoje é possível prever chuvas com 30 dias de antecedência —, por que continuamos perdendo vidas? Entre 2019 e 2022, o governo federal investiu quase R$ 778 milhões em gestão de riscos. Minas Gerais recebeu 27% desse total; Bahia, quase 13%. Para 2023, o orçamento previsto é de R$ 1,17 bilhão — o menor em 14 anos.

O problema não é a chuva. É o que gestores deixam de fazer quando sabem que ela vem. Planos de evacuação não são executados. Matas ciliares não são recuperadas. Rios urbanos viram esgotos. Em Salvador, após receber R$ 117 milhões para obras de infraestrutura, o município ignorou recomendações de saneamento e reflorestamento — e a cidade continuou inundando. O Centro Nacional de Monitoramento de Desastres alerta: cidades atlânticas e amazônicas não suportam 100 milímetros de chuva em sete dias. Essa água deságua nas desigualdades, nos bairros negros e pobres construídos em encostas porque não havia outro lugar.

Em São Sebastião, 54 pessoas morreram. Cada morte representa uma escolha de não investir em prevenção. O Plano Nacional de Adaptação ao Clima tramita no Congresso, mas mantém invisíveis as prioridades reais: saneamento, moradia, reflorestamento e acesso à terra urbana. Enquanto isso, a conveniência política das tragédias persiste — decretar calamidade libera recursos sem exigir responsabilização. As chuvas viram cifras. E as pessoas vulneráveis continuam morrendo nos mesmos lugares, pelos mesmos motivos.

No final de 2022, a Bahia acordou para uma crise que não era nova. Quase 120 mil pessoas enfrentavam os efeitos de chuvas extremas. Dezesseis mil haviam sido desalojadas de suas casas. Quarenta e nove municípios decretaram estado de emergência. Mais de cem mil sofreram perdas diretas — sociais, culturais, econômicas, ambientais. A região Norte, o Nordeste e o Sudeste viviam o mesmo ciclo: água demais, infraestrutura de menos, morte e desespero concentrados nos mesmos lugares.

Mas há uma questão que fica suspensa no ar depois de cada tragédia: se temos dinheiro, se temos tecnologia, se conseguimos prever chuvas com 30 dias de antecedência quando antes precisávamos de 90, por que continuamos perdendo vidas? A resposta não está na falta de recursos. Está na falta de vontade de usá-los.

Entre 2019 e 2022, o governo federal investiu quase 778 milhões de reais através do Programa de Gestão de Riscos e Desastres. Minas Gerais recebeu 27,21% desse montante. A Bahia, 12,81%. Amazonas, 11,92%. O dinheiro chegou aos municípios e estados em forma de transferências, de auxílios, de contribuições. Para este ano, a previsão é de 1,17 bilhão de reais — o menor orçamento para essa finalidade em 14 anos. Então temos menos dinheiro agora, não mais.

O problema real não é a chuva. É o que os gestores municipais, estaduais e federais deixam de fazer quando sabem que ela vem. Não executam planos de evacuação. Não garantem acesso a terrenos seguros. Não recuperam as matas que deveriam conter encostas. Não limpam os rios urbanos que viraram esgotos. Em Salvador, em 29 de fevereiro de 2008, choveu 29,3 milímetros em 24 horas. A cidade acordou inundada. Setenta e oito deslizamentos de terra. Desabamentos. Muros caindo. Ruas viradas em rios. O município recebeu 117,4 milhões de reais do governo federal para obras de infraestrutura. E transformou os rios urbanos em esgotos, ignorando as recomendações do Instituto de Gestão das Águas e Clima, que exigia recuperação de matas ciliares e saneamento como condição para qualquer obra.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais avisa regularmente: cidades atlânticas e amazônicas não suportam 100 milímetros de chuva em sete dias. Essa água não tem para onde ir. Deságua nos bueiros das desigualdades. E ali, naqueles bairros onde a população é majoritariamente negra, pobre ou extremamente pobre, onde as casas foram construídas em encostas porque não havia outro lugar, é onde as pessoas morrem.

Em São Sebastião, no litoral de São Paulo, 54 pessoas morreram em um evento climático extremo. Cada morte é uma falha de prevenção. Cada morte é uma escolha de não investir em recuperação de matas, de não executar planos de evacuação, de não garantir moradia segura. O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima tramita agora no Congresso Nacional, mas mantém invisível aquilo que realmente importa: prevenção, investimento em grupos vulneráveis, saneamento, moradia, reflorestamento, revisão dos planos diretores municipais, acesso à terra urbana.

A conveniência está em manter as tragédias como eventos naturais inevitáveis. Assim, quando chove, os gestores públicos podem decretar calamidade, captar recursos federais, e continuar sem responsabilidade real. As chuvas viram cifrão. E as pessoas vulneráveis continuam morrendo nos mesmos lugares, pelos mesmos motivos, enquanto o dinheiro para evitar isso existe, mas não é gasto.

Cidades atlânticas e amazônicas não aguentam 100 milímetros de chuvas em sete dias, essas desaguam nos bueiros das desigualdades
— Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)
A conveniência com as tragédias faz das chuvas cifrão para gestores públicos sem a devida responsabilidade com a emergência das mudanças climáticas
— Diosmar Filho, geógrafo e pesquisador
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Se temos previsões de chuva com 30 dias de antecedência, por que as pessoas ainda são pegas de surpresa?

Model

Porque o alerta não chega até elas. Os gestores sabem que vai chover, mas não executam evacuação, não garantem terrenos seguros. O conhecimento técnico existe. A vontade política não.

Inventor

Você mencionou que cidades atlânticas não suportam 100 milímetros de chuva em sete dias. Isso é um limite físico ou um problema de infraestrutura?

Model

É ambos. Mas o que mata é a infraestrutura. Quando chove, a água deságua nos bueiros das desigualdades — é assim que o Centro de Monitoramento descreve. Vai para os bairros onde não há drenagem, onde as casas estão em encostas sem mata ciliar.

Inventor

O dinheiro foi investido. Quase um bilhão em quatro anos. Então onde foi?

Model

Transferências aos municípios, auxílios, contribuições. Mas sem exigência de que fizessem prevenção real. Salvador recebeu 117 milhões e transformou rios em esgotos em vez de recuperá-los. O dinheiro não garante ação.

Inventor

E agora, em 2023, o orçamento é menor?

Model

Sim. É o menor em 14 anos. Enquanto o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima tramita no Congresso mantendo invisível a prevenção e o investimento nos vulneráveis.

Inventor

Então a tragédia é conveniente para alguém?

Model

Para os gestores que a usam para captar recursos federais sem responsabilidade real. As chuvas viram cifrão. E as mesmas pessoas morrem nos mesmos lugares.

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