Não existe representatividade que não seja coletiva
Em um país que lidera os índices mundiais de assassinatos de pessoas trans, Luh Maza emerge como a primeira roteirista negra e trans da televisão brasileira — não para confirmar que exceções são possíveis, mas para questionar por que ainda são exceções. Aos 33 anos, ela escreve personagens que carregam o peso da interseccionalidade entre raça e gênero, e alerta que visibilidade individual sem transformação coletiva é apenas uma cortina de fumaça. Sua trajetória coloca em xeque o que o mercado audiovisual brasileiro chama de inclusão.
- O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, e 90% das mulheres trans vivem da prostituição — é nesse abismo que Luh Maza constrói sua carreira.
- O mercado audiovisual a convida constantemente, mas quase sempre com a etiqueta do 'perfil', reduzindo-a a um símbolo de diversidade em vez de reconhecê-la como criadora.
- Ela teme ser usada como token — a travesti visível que desaparece do emprego um ano depois — e insiste que representatividade que não é coletiva não é representatividade.
- Com a série Xposed em negociação com grandes plataformas e o sonho de escrever para a novela das nove, Maza avança para ocupar espaços de poder real na produção audiovisual.
- Ligada à base por meio de cursos, lives e parcerias com a Transemprego e o Google, ela recusa a visibilidade que não retorna às pessoas que ainda estão nascendo para essa luta.
Luh Maza passa a pandemia em isolamento com o namorado, escrevendo uma série sobre cam girls, um documentário franco-alemão e os episódios de Sessão de Terapia que acompanham Nando — um homem negro bem-sucedido cujo sucesso profissional da companheira desperta uma crise de masculinidade. Para Maza, o personagem é um retrato urgente de como machismo e racismo agem simultaneamente sobre um corpo negro. É um tema que ela sente que o Brasil finalmente está pronto para ver.
Aos 33 anos, ela é a primeira roteirista negra e trans da televisão brasileira. Carrega esse marco com precisão: quer ser a exceção que muda a regra, não a que a confirma. O mercado audiovisual aprendeu que uma sala de roteiristas sem pessoas pretas não faz sentido — a diversidade traz qualidade à dramaturgia. Mas a maioria das empresas ainda usa pessoas trans como tokens, como sinal de modernidade sem compromisso real. Quando você vir uma travesti em posição de poder, ela diz, procure por ela um ano depois.
Os convites chegam com frequência, quase sempre marcados pelo 'perfil': projetos sobre gênero e raça. Ela gosta desses temas — escreve para as meninas pretas, para a travesti que está nascendo — mas também quer escrever sobre amigas que viajam de carro e bebem vinho. Não quer ser artista apesar de sua identidade. É criadora antes de ser representação. E teme que sua visibilidade sirva apenas para parecer que está tudo bem, quando o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo.
Sua série Xposed, sobre cam girls e a uberização do corpo, está em negociação com grandes players do audiovisual. Ela será showrunner. Mas o sonho maior é a novela das nove — o primeiro contato de todo brasileiro com a dramaturgia. Tem como referência Janet Mock, primeira roteirista trans e negra da TV americana, hoje com contrato milionário na Netflix. E aqui no Brasil, apoia e é apoiada por outros roteiristas trans que estão abrindo caminhos.
Faz análise, é feliz com sua analista, e acredita que cuidar da saúde mental é essencial para quem carrega o peso do ativismo. Segue ensinando na SP Escola de Teatro, dando cursos com a Transemprego e o Google, mediando lives. Porque quem conquistou visibilidade, ela sabe, tem obrigação de permanecer ligada à base.
Luh Maza está em isolamento com o namorado durante a pandemia, trabalhando em uma série sobre cam girls, um documentário franco-alemão, e os episódios das quartas-feiras de Sessão de Terapia — uma das séries brasileiras mais aclamadas dos últimos anos. Aos 33 anos, ela é a primeira roteirista negra e trans da televisão brasileira, um marco que carrega com clareza sobre o que significa e o que não deve significar.
Na série que estreou em meio à crise sanitária, Maza escreveu os sete episódios que acompanham Nando, personagem de David Júnior: um homem negro bem-sucedido que procura terapia e descobre que sua impotência sexual está ligada à ascensão profissional de sua companheira. É um retrato de interseccionalidade — como o machismo e o racismo agem simultaneamente sobre um corpo negro masculino. Nando teve o que ela chama de passabilidade, mas sua mulher conseguiu mais sucesso desenvolvendo sua intelectualidade preta. Isso o quebra. No divã do terapeuta Caio, ele aprenderá o que essas forças fizeram com ele. Para Maza, é urgente discutir a masculinidade negra agora, quando finalmente as pessoas estão vendo isso.
Mas Maza não quer ser a exceção que confirma a regra. Quer ser a exceção que muda a regra. Essa distinção importa porque o mercado audiovisual brasileiro está aprendendo a abrir portas — entendeu que uma sala de roteiristas sem pessoas pretas, sem quem compreenda lugar de fala, não faz sentido. A diversidade traz qualidade à dramaturgia. O problema é que a maioria das empresas ainda usa pessoas trans como tokens, como cortina de fumaça para parecer moderna. Quando você vir uma travesti em um lugar de poder, ela diz, procure por ela um ano depois e pergunte se está empregada e com saldo positivo no banco.
Maza recebe convites constantemente, mas muitos vêm com a marca do perfil: "Esse projeto tem o seu perfil", dizem. A maior parte é sobre gênero e raça. Ela gosta desses temas — trabalha para as meninas pretas, para a travesti que está nascendo — mas também quer escrever sobre amigas que viajam de carro e bebem vinho, e essa pode ser uma história de mulheres negras. Não quer ser artista apesar de; é uma criadora antes de ser essas representações. Teme ser usada como cortina de fumaça para parecer que está tudo bem. A visibilidade é capenga. Mas não existe representatividade que não seja coletiva.
O contexto em que ela fala é brutal. O Brasil é o país que mais mata pessoas transgênero e travestis no mundo. Noventa por cento das mulheres trans estão na prostituição; apenas dois por cento trabalham com carteira assinada. Uma pessoa negra em posição de poder é transformador, ela diz, mas também pavoroso. A reparação histórica é urgente. Ela produziu muito, carregou muito peso nas costas. Agora recebe convites e acredita que quem a convida é um aliado.
Sua série Xposed, sobre cam girls — fenômeno que cresceu na pandemia — está sendo negociada com dois grandes players do audiovisual. Ela será showrunner, não apenas roteirista, mas em outro lugar da produção. Quer investigar a uberização, a prostituição, a encenação. Mas seu sonho maior é chegar na novela das nove. É o primeiro contato de todo brasileiro com a dramaturgia. Quer amplificar essas discussões para o público mais amplo. Se há inspiração, ela vem de Janet Mock, primeira roteirista trans e negra da televisão americana, que aos 37 anos tem contrato milionário com a Netflix. Também de Our Lady J, roteirista de Pose e Transparent. E aqui no Brasil, de Julia Caterini, Ave Terrena, Ariel Nobre, Daniel Veiga e outros roteiristas trans que estão abrindo caminhos.
Maza faz análise e é feliz com sua analista. Entende a terapia como ferramenta importante para compreender sua identidade de gênero e seu lugar. É difícil um ativista ficar bem, sobretudo agora. Mas espera que as pessoas entendam como é importante cuidar da saúde mental. Há iniciativas para facilitar o acesso à terapia, mas ela ainda é vista como luxo. Deveria ser oferecida pelo SUS. Enquanto isso, ela segue escrevendo, ensinando na SP Escola de Teatro, mediando lives, dando cursos sobre transformação com a Transemprego e o Google. Segue ligada à base. Porque quem conseguiu visibilidade tem que estar ligada à base.
Citações Notáveis
Eu não quero ser a exceção que confirma a regra; quero ser a exceção que muda a regra— Luh Maza
Quando vir uma travesti na novela ou em outro lugar de poder, procure por ela um ano depois e pergunte se está empregada e com saldo positivo no banco— Luh Maza
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você insiste tanto em dizer que não quer ser a exceção que confirma a regra?
Porque quando você é a única, você vira prova de que o sistema funciona. As pessoas apontam para você e dizem: viu? Consegue sim. Mas aí ninguém pergunta por que você é a única, por que não há dez, cem, mil.
E a série Xposed, sobre cam girls — por que esse tema agora?
Porque a pandemia acelerou algo que já existia. Mulheres perdendo emprego e entrando nessa economia. Ninguém fala sobre isso com seriedade. É prostituição? É encenação? É trabalho? Precisa de uma mulher escrevendo para não virar exploração.
Você tem medo de ser usada como cortina de fumaça. Como você reconhece quando isso está acontecendo?
Quando você é convidada só para falar sobre raça e gênero. Quando não te deixam escrever sobre amigas bebendo vinho. Quando você é a representatividade da empresa inteira, em vez de uma entre muitas.
A novela das nove é seu grande sonho. Por quê?
Porque é onde todo brasileiro vai. É o primeiro contato com dramaturgia. Se eu consigo colocar uma discussão sobre masculinidade negra, sobre interseccionalidade, ali — isso muda a conversa do país inteiro.
Você diz que 90% das mulheres trans estão na prostituição. Como você carrega esse número?
Pesadamente. Porque eu não deveria estar aqui sozinha. Deveria haver outras dez comigo. A reparação histórica não é simbólica. É emprego, é carteira assinada, é poder.
E a análise? Por que foi importante escrever Sessão de Terapia sendo quem você é?
Porque Nando é um homem que não consegue nomear o que o sufoca. A terapia é o lugar onde você descobre que o problema não é você — é o que fizeram com você. Isso é revolucionário para um homem negro.