Cirurgia de catarata reduz pressão ocular e colírios em pacientes com glaucoma

Aproximadamente 2,5 milhões de brasileiros têm glaucoma, doença silenciosa que pode causar perda permanente da visão se não diagnosticada e tratada adequadamente.
Adiar não é segurança — é risco
A medicina reforça que o maior perigo para a visão continua sendo o atraso no diagnóstico e no tratamento.

A catarata progressiva espessa o cristalino, dificultando a drenagem do fluido ocular e elevando a pressão intraocular, danificando o nervo óptico. Estudo com 623 voluntários mostrou queda significativa na pressão intraocular após cirurgia, com 30-80% dos pacientes reduzindo ou eliminando colírios.

  • Estudo com 623 pacientes mostrou queda significativa na pressão intraocular após cirurgia de catarata
  • Entre 30% e 50% dos pacientes com glaucoma leve a moderado conseguem parar com colírios após a cirurgia
  • Aproximadamente 2,5 milhões de brasileiros têm glaucoma
  • Com microstent de drenagem associado, o índice sobe para 70% a 80% dos pacientes livres de colírios

Cirurgia de catarata facilita o controle da pressão ocular em pacientes com glaucoma, podendo reduzir ou eliminar a necessidade de colírios, conforme comprovado por estudo publicado no American Journal of Ophthalmology.

Há anos, consultórios oftalmológicos recebem a mesma pergunta de pacientes com glaucoma: é seguro fazer cirurgia de catarata? A resposta, apoiada agora em evidências científicas sólidas, é não apenas segura — é benéfica. O problema é que muitos adiam o procedimento por falta de informação, sem compreender que cada mês de espera aumenta o risco de perda permanente da visão.

O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier, explica o mecanismo por trás dessa conexão. Quando a catarata avança, o cristalino do olho fica progressivamente mais espesso. Esse aumento de volume cria um obstáculo físico direto: o humor aquoso, fluido que preenche o interior do olho, não consegue drenar adequadamente. A pressão intraocular sobe. E quando a pressão sobe em um olho já comprometido pelo glaucoma, as células do nervo óptico começam a morrer. É um processo silencioso, muitas vezes sem sintomas até que o dano seja irreversível.

Um estudo publicado no American Journal of Ophthalmology forneceu a evidência que faltava. Pesquisadores acompanharam 623 pacientes com glaucoma de ângulo aberto que se submeteram à cirurgia de catarata. Os resultados foram claros: a pressão intraocular caiu significativamente após a intervenção. Mais importante ainda, a maioria dos pacientes conseguiu reduzir drasticamente — ou até eliminar — o uso diário de colírios. Para quem tem glaucoma de ângulo fechado, os números são ainda mais promissores. Nesses casos, remover o cristalino resolve o problema na raiz: elimina o bloqueio físico que impedia a drenagem do fluido.

Mas os números variam conforme a gravidade da doença. Em pacientes com glaucoma leve a moderado que fazem apenas a cirurgia de catarata, entre 30% e 50% conseguem parar completamente com os colírios. Quando a cirurgia é combinada com o implante de um microstent de drenagem, esse índice salta para 70% a 80%. Para quem tem glaucoma avançado, a realidade é diferente: a cirurgia isolada raramente substitui os medicamentos, funcionando mais para evitar novos picos de pressão. O alívio costuma durar entre um e dois anos, após o que os colírios precisam retornar gradualmente.

O Brasil abriga aproximadamente 2,5 milhões de pessoas com glaucoma, segundo estimativas do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. A doença é particularmente traiçoeira porque não avisa sua chegada. No estágio inicial, o campo visual permanece intacto nos testes padrão. O nervo óptico mostra apenas alterações sutilíssimas — um leve aumento da escavação — e o paciente não sente nada. No estágio moderado, manchas escuras começam a surgir na periferia, geralmente em apenas uma metade do campo visual, mas o cérebro e o olho saudável compensam os pontos cegos, então a pessoa continua sem perceber. Apenas no estágio avançado, quando os pontos cegos ocupam ambas as metades ou invadem a visão central, o paciente experimenta a "visão em túnel" — perda da visão lateral que torna difícil caminhar sem esbarrar em objetos ou ler com facilidade.

O risco imediato após a cirurgia de catarata é um pico de pressão intraocular. Em um olho saudável, um aumento súbito não causa danos. Mas em um nervo óptico já fragilizado pelo glaucoma, o impacto pode ser prejudicial. Esse pico pode resultar da retenção de fragmentos da substância viscoelástica usada durante a operação, da inflamação natural que segue qualquer cirurgia, ou do uso necessário de corticoides no pós-operatório. A boa notícia é que os cirurgiões estão preparados para combater esse risco imediatamente, com medicações específicas que conseguem reverter a situação.

O maior perigo para a visão do paciente com glaucoma não é a cirurgia de catarata — é o atraso em realizá-la. É também a falta de adesão ao tratamento, o diagnóstico tardio, a negligência. A ciência já mostrou o caminho. Agora depende de pacientes e médicos compreenderem que adiar não é segurança — é risco.

A catarata progressiva torna o cristalino mais espesso, dificultando a drenagem do humor aquoso e elevando a pressão intraocular, provocando a morte das células do nervo óptico
— Leôncio Queiroz Neto, oftalmologista e diretor executivo do Instituto Penido Burnier
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a catarata piora tanto o glaucoma se são duas doenças diferentes?

Model

Porque a catarata não é apenas um problema de visão turva. Quando o cristalino fica espesso, ele literalmente bloqueia a saída do fluido que preenche o olho. É como entupir um cano — a pressão sobe. E em um olho com glaucoma, essa pressão extra mata as células do nervo óptico.

Inventor

Então remover a catarata é como desentupir o cano?

Model

Exatamente. Ao tirar o cristalino espesso e colocar uma lente fina e flexível, você restaura a drenagem. A pressão cai. Em alguns casos, cai tanto que o paciente não precisa mais de colírios.

Inventor

Mas nem todos conseguem parar com os colírios, certo?

Model

Não. Depende de quanto dano o glaucoma já fez. Se a doença está no início, as chances são boas — 30% a 50% ficam livres dos medicamentos. Se está avançada, a cirurgia ajuda a controlar picos de pressão, mas os colírios geralmente voltam.

Inventor

E qual é o risco de fazer a cirurgia?

Model

O principal é um pico de pressão logo depois. Mas os cirurgiões sabem disso e têm medicações prontas para reverter. O risco real é não fazer a cirurgia — cada mês de espera aumenta a chance de perda permanente da visão.

Inventor

Então por que as pessoas adiam?

Model

Falta de informação. Muitos pacientes acham que cirurgia de catarata vai piorar o glaucoma. Ninguém explicou que é o oposto — que adiar é que piora.

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