Biólogo propõe restaurar parcerias entre humanos e outras espécies para viver em harmonia

Talvez sejam os cães que levam seus donos para passear
Dunn inverte perspectivas sobre quem se beneficia em parcerias entre espécies, questionando suposições sobre dominação e controle.

Há milênios, humanos e outras espécies teceram alianças silenciosas — com árvores, micróbios, animais — que sustentaram a vida em formas que a ciência moderna mal começou a nomear. O biólogo Rob Dunn, em seu novo livro, convida a humanidade a reconhecer essas parcerias ancestrais não como curiosidades evolutivas, mas como modelos para um futuro mais habitável. Sua proposta é ao mesmo tempo simples e subversiva: medir o valor de uma relação não pelo número de descendentes que produz, mas pela qualidade de vida que oferece a todos os envolvidos.

  • A ciência tradicional avalia parcerias entre espécies pelo sucesso reprodutivo — uma métrica que justifica bilhões de galinhas em condições miseráveis como 'mutualismo bem-sucedido'.
  • Dunn denuncia um planeta desequilibrado: animais domésticos respondem por 58% da biomassa de mamíferos, e a alimentação humana depende de apenas oito culturas agrícolas.
  • O autor propõe substituir a lógica da reprodução pela do bem-estar — longevidade, qualidade de vida e plenitude como novos critérios para avaliar a coexistência entre espécies.
  • Suas visões de futuro incluem comunicação direta entre humanos e animais, carnes produzidas com micróbios e tijolos cultivados a partir de fungos — mas ele mesmo reconhece os obstáculos políticos e econômicos.
  • Uma tensão persiste: as soluções mais criativas de Dunn tendem a servir elites, enquanto os verdadeiros protagonistas históricos da cooperação com outras espécies foram agricultores, caçadores e povos indígenas.

Rob Dunn, biólogo e escritor, lança um livro que propõe repensar a relação da humanidade com o restante do planeta. Intitulado 'O chamado do guia-do-mel' na edição em português, a obra explora os chamados 'mutualismos' — parcerias entre espécies diferentes que moldaram a história da vida na Terra. A ideia central é que, durante séculos, humanos e outras criaturas viveram em cooperação genuína: árvores frutíferas, gatos, micróbios intestinais. Dunn inverte perspectivas com humor, sugerindo que talvez sejam os cães que levam seus donos para passear, ou que as leveduras, a seu modo, 'domesticaram' a humanidade.

O problema, segundo Dunn, está em como medimos essas parcerias. A ciência tradicional usa o número de descendentes como critério de sucesso — o que tornaria a relação com galinhas industriais um 'mutualismo exemplar'. Ele rejeita essa lógica e propõe alternativas: longevidade, bem-estar, qualidade de vida. Um animal de estimação não aumenta nossa taxa reprodutiva, mas oferece beleza, inspiração e plenitude. 'Não há resposta única', reconhece o autor, admitindo que indivíduos e culturas fariam escolhas muito diferentes sobre quais parcerias cultivar.

As reflexões de Dunn revelam um desequilíbrio profundo: animais domésticos representam 58% da biomassa de mamíferos do planeta, e a alimentação humana depende de apenas oito culturas agrícolas. Suas projeções para o futuro são ousadas — comunicação direta entre espécies, colaboração entre cientistas, artistas e chefs, materiais construídos a partir de fungos — mas ele mesmo reconhece que os sistemas políticos e econômicos atuais tornam essas visões improváveis no curto prazo.

Há uma tensão que o livro não resolve por completo: as soluções mais criativas tendem a servir elites, enquanto os exemplos históricos que Dunn celebra envolvem agricultores, caçadores de subsistência e povos indígenas — os verdadeiros protagonistas da cooperação com outras espécies. Ainda assim, Dunn se une a uma geração de escritores que destacam o lado colaborativo da natureza, ecoando conceitos de reciprocidade e reintrodução da vida selvagem. A ideia de que outras espécies nos beneficiam, e nós a elas, soa quase radical — algo antigo e, ao mesmo tempo, urgentemente novo.

Rob Dunn, biólogo e escritor, acaba de lançar um livro que convida a humanidade a repensar sua relação com o resto do planeta. Não como dominadores ou exploradores, mas como parceiros em uma rede antiga de trocas mútuas. O livro, intitulado "O chamado do guia-do-mel" na edição em português, explora o que Dunn chama de "mutualismos" — aquelas parcerias entre espécies diferentes que moldaram a história da vida na Terra e que, segundo ele, poderiam ser restauradas para criar um futuro mais harmonioso.

A ideia central é simples, mas radical: durante séculos, humanos e outras criaturas viveram em cooperação genuína. Árvores frutíferas e humanos se beneficiavam mutuamente. Gatos e pessoas compartilhavam espaços. Até mesmo os micróbios em nossos intestinos fazem parte dessa teia de interdependência. Dunn descreve essas relações com humor e curiosidade, invertendo perspectivas de forma provocadora. Talvez, sugere, sejam os cães que levam seus donos para passear, não o contrário. As leveduras, de certa forma, "domesticaram" a humanidade, impulsionando até a invenção da escrita — "ou pelo menos é assim que elas contariam a história", escreve com ironia.

Mas há um problema fundamental em como medimos essas parcerias. A ciência tradicional avalia o sucesso de um mutualismo pelo número de descendentes que gera. Por essa métrica, a relação entre humanos e galinhas seria "benéfica" — afinal, criamos bilhões delas. Dunn questiona essa lógica. Muitas dessas galinhas vivem vidas curtas e miseráveis. Ele propõe parâmetros alternativos: longevidade, bem-estar, qualidade de vida. Um cão ou gato de estimação não aumenta nossa taxa reprodutiva. Na verdade, convivem com famílias menores. Mas oferecem algo menos mensurável e talvez mais valioso: beleza, inspiração, um senso de plenitude. "Não há resposta única", reconhece Dunn. "Indivíduos e culturas diferem amplamente nas escolhas que fariam sobre mutualismos futuros."

Essa reflexão revela um desequilíbrio profundo no mundo atual. Animais domésticos representam 58% da biomassa de mamíferos do planeta. A maior parte da alimentação humana depende de apenas oito culturas agrícolas. Dunn não quer apenas saber como coexistir com outras formas de vida — quer saber como viver bem ao lado delas. É uma pergunta que ultrapassa a biologia e entra em territórios da filosofia, ética e espiritualidade.

Suas ideias sobre o passado são convincentes. Dunn mostra como parcerias improváveis beneficiaram a humanidade ao longo dos séculos. Suas projeções para o futuro são mais ousadas e especulativas. Imagina avanços técnicos que permitiriam comunicação direta entre humanos e outras espécies — embora, sob os atuais sistemas políticos e econômicos, pareça improvável que sociedades realmente ajam com base no que um esquilo ou um tordo tivessem a dizer. Sugere também que cientistas colaborem com artistas, chefs e arquitetos para criar soluções sustentáveis: carnes produzidas com micróbios, tijolos cultivados a partir de fungos. Um otimismo discreto permeia essas ideias.

Mas há uma tensão que Dunn não resolve completamente. Suas soluções mais criativas — as criações de chefs e arquitetos — tendem a servir elites. Os exemplos históricos que ele celebra, porém, envolvem agricultores, caçadores de subsistência e povos indígenas. Esses eram os verdadeiros protagonistas da cooperação com outras espécies. Dunn se une a uma geração emergente de escritores que destacam o lado colaborativo da natureza, em contraste com a visão tradicional de "luta brutal pela sobrevivência". Ele convida a humanidade a participar dessa rede de ajuda mútua, ecoando conceitos de reciprocidade e apelos pela reintrodução da vida selvagem. A ideia de que outras espécies nos beneficiam, e nós a elas, soa quase radical — algo antigo e, ao mesmo tempo, novo.

Não há resposta única. Indivíduos e culturas diferem amplamente nas escolhas que fariam sobre mutualismos futuros.
— Rob Dunn
A ideia de que outras espécies nos beneficiam, e nós a elas, soa quase radical — algo antigo e, ao mesmo tempo, novo.
— Rob Dunn
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que Dunn insiste que isso é uma questão de bem-estar e não apenas de números?

Model

Porque os números mentem. Uma galinha que se reproduz rapidamente mas vive em sofrimento não está em uma parceria real — está sendo explorada. Dunn quer que a gente reconheça isso.

Inventor

Mas como você mede bem-estar em uma relação entre espécies tão diferentes?

Model

Exatamente a pergunta que Dunn faz. Ele não oferece uma fórmula. Diz que longevidade importa, que qualidade de vida importa, que beleza e inspiração importam — mesmo que não caibam em uma equação.

Inventor

Suas ideias sobre o futuro — comunicação direta com esquilos — parecem fantasiosas.

Model

São. Dunn sabe disso. Mas ele está tentando expandir o que é possível imaginar. O ponto não é que vamos conversar com esquilos amanhã. É que precisamos parar de pensar em outras espécies como recursos e começar a pensar como parceiros.

Inventor

Quem se beneficia mais com essas soluções que ele propõe?

Model

Aí está o incômodo. Os chefs e arquitetos criam para elites. Mas os agricultores indígenas e caçadores de subsistência — os que realmente vivem em cooperação com outras espécies — não têm acesso a nada disso. Dunn vê a contradição mas não a resolve.

Inventor

Então o livro é esperançoso ou pessimista?

Model

Esperançoso, mas com os olhos abertos. Dunn acredita que é possível restaurar essas parcerias. Mas reconhece que os sistemas políticos e econômicos atuais trabalham contra isso. É um otimismo discreto, não ingênuo.

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