Os profissionais vacinam-se porque sabem que são risco e transmissão
À medida que o inverno avança, Portugal regista um dos melhores momentos da sua campanha de vacinação contra a gripe: quase três em cada quatro pessoas com mais de 80 anos já estão protegidas, e os profissionais de saúde, historicamente relutantes, começam a reconhecer o seu papel duplo — de protegidos e protetores. Num contexto de alerta europeu sobre uma época gripal precoce e intensa, estes números sugerem que a fadiga vacinal herdada da pandemia pode estar, finalmente, a ceder lugar a uma renovada consciência coletiva.
- O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças emitiu um alerta urgente: os casos de gripe estão a aumentar de forma invulgar e precoce, com uma nova estirpe em circulação.
- A taxa de vacinação entre profissionais de saúde saltou de 32,8% para 41,5%, sinal de que a mensagem sobre responsabilidade coletiva começa a ser interiorizada.
- Falhas na distribuição de vacinas de dose reforçada foram detetadas, e não há ainda garantia de que todas as rupturas de stock foram resolvidas.
- A redução da fadiga vacinal pós-pandemia e o peso da recomendação médica — responsável por mais de 37% das vacinações — estão a impulsionar a adesão em grupos vulneráveis.
- A campanha continua ativa, com margem para recuperar atrasos antes do pico da época gripal, e as coberturas mais altas registam-se nos grupos com doença respiratória, cardiovascular e diabetes.
Quase três em cada quatro pessoas com mais de 80 anos já receberam a vacina da gripe este ano. É o que revelam os dados da segunda ronda do Vacinómetro, sistema de monitorização criado em 2009 pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia e pela Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. A cobertura chega a 74,9% nos maiores de 80 anos e a 80,3% nos que têm 85 ou mais anos, grupo que recebe gratuitamente a dose elevada da vacina.
O dado que mais se destaca é a mudança entre os profissionais de saúde: a taxa de vacinação subiu de 32,8% para 41,5%. Nuno Jacinto, presidente da APMGF, descreve o resultado como positivo e explica que estes profissionais começaram a interiorizar que também são um grupo de risco e que o seu exemplo tem peso. Não se trata apenas de proteção individual, mas de responsabilidade coletiva.
Vários fatores explicam este movimento. O alerta europeu sobre o aumento precoce de casos de gripe pressionou os países a acelerar a vacinação. Ao mesmo tempo, o afastamento progressivo da pandemia parece estar a reduzir a fadiga vacinal — aquele cansaço acumulado perante campanhas contínuas — e a devolver à vacina da gripe a atenção que merece.
Os padrões variam entre grupos: 64,9% das pessoas com 65 ou mais anos já se vacinaram; nas grávidas, a cobertura é de 49,8%, com 90,2% a fazê-lo por recomendação médica. Entre os doentes crónicos, destacam-se os com doença respiratória (74,3%), cardiovascular (70,9%) e diabetes (70,9%). O médico de família continua a ser um ator central: mais de 37% das vacinações resultaram de recomendação clínica direta.
Nem tudo corre sem problemas. Houve falhas na distribuição de vacinas de dose reforçada, e Jacinto admite não poder garantir que todas estejam já resolvidas. Ainda assim, a época gripal não terminou, e há margem para recuperar. A campanha continua — imperfeita, mas em movimento.
Quase três em cada quatro pessoas com mais de 80 anos já receberam a vacina da gripe este ano. É o resultado que emerge da segunda ronda do Vacinómetro, um sistema de monitorização em tempo real criado em 2009 pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia e pela Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Os números são precisos: 74,9% dos maiores de 80 anos vacinados, 70,7% dos portadores de doença crónica, e uma cobertura ainda mais robusta entre os mais idosos — 80,3% das pessoas com 85 ou mais anos receberam a dose elevada de vacina, que é administrada gratuitamente a este grupo.
O que mais chama atenção nos dados é a mudança entre os profissionais de saúde. A taxa de vacinação neste grupo saltou de 32,8% na vaga anterior para 41,5% agora — um aumento significativo que Nuno Jacinto, presidente da APMGF, descreve como um bom resultado. Segundo ele, os profissionais começaram a interiorizar a mensagem de que também são um grupo de risco, que transmitem o vírus, e que o seu exemplo importa. Não é apenas uma questão de proteção pessoal; é também uma questão de responsabilidade coletiva.
Vários fatores parecem estar a contribuir para este movimento. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças emitiu um alerta na semana anterior aos dados, pedindo aos países da União Europeia que acelerassem a vacinação. A razão era clara: os casos de gripe estavam a aumentar de forma invulgar e precoce, e uma nova estirpe circulava. Mas há outro elemento em jogo, menos óbvio. Jacinto sugere que o afastamento progressivo da pandemia de covid-19 está a reduzir o que chama de fadiga vacinal — aquele cansaço que as pessoas sentem perante campanhas de vacinação contínuas. Com a pandemia a recuar, as pessoas voltam a olhar para a vacina da gripe com a importância que ela merece.
Os dados revelam padrões interessantes em diferentes grupos. Entre as pessoas com 65 ou mais anos, 64,9% já se vacinaram. Nas grávidas, a cobertura é de 49,8%, e 90,2% delas receberam a vacina por recomendação médica — um número que sublinha o peso que a orientação clínica tem nas decisões de vacinação. Entre os 60 e 64 anos, 42,4% já se vacinaram, e mais de metade destes fizeram-no por iniciativa própria. Dentro do grupo de doentes crónicos, a vacinação é particularmente elevada entre os que têm doença respiratória (74,3%), doença cardiovascular (70,9%) e diabetes (70,9%).
Um detalhe que Jacinto realça é o papel do médico de família. Mais de 37% das pessoas que se vacinaram fizeram-no por recomendação médica, e muitos doentes têm o seu acompanhamento exclusivamente através do médico de família, não através de especialistas hospitalares. É um lembrete de que a vacinação não é apenas um ato individual; é também um resultado da relação entre paciente e clínico.
Houve problemas na distribuição. Falhas na disponibilidade de vacinas de dose reforçada foram detetadas, e Jacinto não consegue garantir que todas estejam já ultrapassadas. Mas há tempo ainda — a época gripal não terminou, e há margem para recuperar possíveis atrasos causados por rupturas de stock ou erros de distribuição.
Quanto aos locais onde as pessoas se vacinaram, o padrão é claro: todos os profissionais de saúde receberam a vacina no local de trabalho. Na população geral, 57,5% recebeu a vacina gratuitamente no centro de saúde, enquanto 34,1% foi à farmácia. Para as crianças entre os 6 e os 24 meses, a quem foi alargada a vacinação gratuita este ano, 34,2% já recebeu a vacina. Mais de metade dos vacinados (57,1%) optaram por receber simultaneamente a vacina da covid-19.
O que estes números sugerem é um sistema em movimento — não perfeito, com falhas ainda por resolver, mas a responder aos alertas europeus e a beneficiar de uma fadiga vacinal em declínio. A campanha continua, e há ainda tempo para melhorar as coberturas antes do pico da época gripal.
Citas Notables
O afastamento que vamos tendo cada vez maior da pandemia também nos vai fazendo reduzir essa fadiga vacinal, sobretudo entre os profissionais— Nuno Jacinto, presidente da APMGF
O facto de haver um aumento na vacinação dos profissionais de saúde é um bom resultado. É significativo.— Nuno Jacinto, presidente da APMGF
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Porque é que o aumento na vacinação dos profissionais de saúde é tão importante?
Porque eles são simultaneamente um grupo de risco e um vetor de transmissão. Se um profissional de saúde se infeta, pode transmitir a gripe a doentes vulneráveis. Mas também porque o seu comportamento influencia os outros — quando um médico se vacina, está a enviar uma mensagem.
E a fadiga vacinal — como é que isso desaparece?
A pandemia deixou as pessoas cansadas de ouvir falar em vacinas. Mas agora, com a covid a recuar, as pessoas conseguem respirar. A gripe volta a ser apenas a gripe, e a vacina volta a ter o peso que sempre teve.
Porque é que há tanta diferença entre os grupos — 74,9% nos maiores de 80 anos, mas apenas 34,2% nas crianças pequenas?
Porque os idosos têm acesso direto aos cuidados de saúde, recebem recomendações do médico de família, e sabem que estão em risco. As crianças pequenas dependem dos pais, que têm menos contacto com o sistema de saúde. E a vacinação infantil é mais recente — foi alargada este ano.
O alerta europeu fez diferença?
Provavelmente sim. Quando o Centro Europeu avisa que há uma nova estirpe e que os casos estão a aumentar de forma invulgar, as pessoas e os profissionais levam a sério. É um sinal de que não é apenas rotina — é urgência.
E as falhas na distribuição — isso vai prejudicar a campanha?
Pode prejudicar, mas ainda há tempo. A época gripal não terminou. O que importa agora é recuperar depressa e garantir que as pessoas com 85 anos conseguem aceder à dose elevada que lhes é devida.