Presidentes de direita na América do Sul não formam bloco homogêneo, diz colunista

Cada um é cada um, e cada coisa é uma coisa
A conclusão do colunista sobre a diversidade de líderes conservadores na América do Sul, rejeitando a visão de um bloco homogêneo.

Apenas Trump, Bolsonaro e Bukele recorrem à violência organizada para minar democracia; outros líderes conservadores não atingem esse patamar extremo. Milei e Kast praticam erosão democrática por dentro (direita radical) mas sem violência política coordenada como método principal de ação.

  • Apenas Trump, Bolsonaro e Bukele recorrem à violência organizada para minar democracia
  • Milei tentou nomear juízes por decreto mas foi barrado pelo Senado
  • Bolsonaro orquestrou o plano 'Punhal Verde e Amarelo' em 8 de janeiro de 2023
  • Espriella tem ligações com paramilitares das AUC na Colômbia

Análise sobre a diversidade de líderes de direita na América do Sul, diferenciando entre direita convencional, ultradireita e extrema direita, rejeitando a visão de um bloco homogêneo.

A América do Sul está virando à direita, isso é inegável. Mas a tentação de enxergar nessa virada um bloco único, coeso e igualmente perigoso para a democracia é uma simplificação que não resiste ao exame. Os presidentes conservadores que hoje governam o continente — e em breve governarão mais países — não são todos da mesma espécie política.

Para entender essa diversidade, é útil recorrer ao trabalho do cientista político holandês Cas Mudde, que propõe uma classificação em camadas. Na base está a "direita convencional": políticos e partidos que defendem ideias economicamente liberais, mas respeitam as regras do jogo democrático. Acima dela fica a "ultradireita", que se subdivide em dois grupos. O primeiro, a "direita radical", é formado por líderes que se elegem democraticamente mas, uma vez no poder, começam a corroer as instituições — mudando a composição do Supremo por meios inconstitucionais, restringindo partidos de oposição, perseguindo a imprensa, questionando o sistema eleitoral. O segundo grupo, a "extrema direita", vai além: seus membros desprezam abertamente a democracia e usam a violência organizada como ferramenta política, aproximando-se do nazifascismo dos anos 1930.

Essa classificação é útil para a ciência, mas a realidade é mais bagunçada. Alguns políticos não cabem perfeitamente em uma categoria — têm um pé em cada uma. Quando o colunista acompanhava os resultados da eleição colombiana, conversava com dois cientistas políticos do Observatório da Extrema Direita, David Magalhães e Vinícius Bivar, justamente para tentar encaixar os novos líderes nesses esquemas. "A discussão é controversa, mesmo dentro da academia", alertou Bivar logo no início.

Na avaliação do colunista, apenas três líderes nas Américas realmente recorrem à violência organizada para minar a democracia: Donald Trump nos Estados Unidos, a família Bolsonaro no Brasil e Nayib Bukele em El Salvador. Trump incitou o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Os Bolsonaro orquestraram o plano "Punhal Verde e Amarelo" em 8 de janeiro de 2023. Bukele colocou tropas dentro do Congresso em 2020. Esses três têm pelo menos um pé dentro da "extrema direita". Todos os demais estão em um patamar diferente, menos degradado.

José Antonio Kast no Chile e Javier Milei na Argentina fazem declarações elogiosas às ditaduras militares que governaram seus países, mas nenhum dos dois mobilizou civis ou militares para atacar as instituições como fizeram Bolsonaro e Bukele. Milei, segundo Magalhães, tentou nomear dois juízes por decreto mas foi barrado pelo Senado. Tentou um "decretazo", empurrando mudanças em mais de 300 normas legais, usurpando funções do Congresso. Fechou a Sala de Imprensa da Casa Rosada, atacou sistematicamente jornalistas e restringiu o acesso à informação. A Argentina caiu nos índices de liberdade de imprensa e qualidade democrática. Tudo isso o coloca na categoria de "direita radical", não de "extrema direita". Bivar concorda: Milei flerta com legislação repressiva e fala com admiração sobre a ditadura, mas "não é extremista" como Bolsonaro e Trump.

No caso de Abelardo de la Espriella na Colômbia, Bivar aponta uma conexão preocupante com paramilitares de direita ligados às AUC, as Autodefesas Unidas da Colômbia, um grupo miliciano formado nos anos 1990 para defender latifundiários contra guerrilheiros de esquerda. Essa ligação sugere um componente de legitimação do uso da violência política para manutenção do poder. Já no Equador, o presidente Daniel Noboa usa as Forças Armadas internamente, mas apoiado em decreto legal contra facções criminosas específicas, não para perseguir adversários políticos. Na Bolívia, Rodrigo Paz empregou militares para desbloquear rodovias, mas dentro de suas atribuições constitucionais e com respaldo até do presidente do Brasil.

A onda conservadora que varre o continente tem pontos em comum: rejeição às esquerdas, receituário neoliberal, políticas repressivas, supressão de direitos de minorias, populismo como forma de comunicação, e em muitos casos uma relativização ou ode às ditaduras do passado. Talvez todos respondam de forma coordenada a estímulos de Trump, como na iniciativa regional chamada "Escudo das Américas". Mas a verdade é que cada um é cada um, e cada coisa é uma coisa. Não há bloco homogêneo aqui — há líderes em diferentes graus de distância da democracia, com riscos diferenciados às instituições.

A discussão é controversa, mesmo dentro da academia
— Vinícius Bivar, cientista político do Observatório da Extrema Direita
A erosão da democracia é o aspecto mais relevante e aparente de um líder de direita radical, como Milei — que não chega a ser de extrema direita
— David Magalhães, cientista político
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que é importante diferenciar entre esses tipos de direita? Não é tudo a mesma coisa?

Model

Porque o risco para a democracia é completamente diferente. Trump e Bolsonaro usaram violência organizada para tentar derrubar instituições. Milei está corroendo a democracia por dentro, mas sem mobilizar multidões para atacar o Congresso. São patologias distintas.

Inventor

Mas Milei também elogia ditaduras, assim como Kast. Como isso não é um sinal de perigo?

Model

Elogiar ditaduras é preocupante, claro. Mas há uma diferença entre falar bem do passado e tentar repetir o passado pela força. Milei faz o primeiro; Bolsonaro tentou fazer o segundo.

Inventor

E Espriella na Colômbia? Parece mais perigoso que Milei.

Model

Sim, porque a ligação dele com paramilitares sugere que ele pode estar legitimando o uso da violência para se manter no poder. É um sinal de alerta diferente — não é violência já em ação, mas uma estrutura que a permite.

Inventor

Então você está dizendo que nem toda onda conservadora é igual?

Model

Exatamente. Compartilham rejeição às esquerdas, populismo, políticas repressivas. Mas o grau de ameaça à democracia varia muito. Alguns estão apenas erodindo instituições; outros já tentaram derrubá-las pela força.

Inventor

E o que isso significa para o futuro da América do Sul?

Model

Significa que não podemos tratar todos esses líderes como um bloco único. Cada um apresenta riscos específicos que exigem análise e resposta diferenciadas.

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