Pulso reúne especialistas para debater desinformação, saúde mental e dignidade menstrual

Milhões de brasileiros afetados por desinformação em saúde, com impactos em diagnósticos inadequados, negligência de doenças crônicas e disparidades no acesso a tratamentos de saúde mental.
Dor que afeta as nossas atividades não é normal
Sofia Reinach desafia a normalização da dor menstrual que afasta meninas da escola.

Em São Paulo, médicos, pesquisadores e comunicadores se reuniram no primeiro evento de saúde do Portal Drauzio para enfrentar uma crise silenciosa: a desinformação que corrói a confiança pública e distorce o cuidado com a saúde de milhões de brasileiros. Num país onde 45% da população perde fé no sistema de saúde e 80% das pessoas com transtornos mentais seguem sem diagnóstico, o encontro revelou que o maior desafio não é a falta de conhecimento, mas a dificuldade de fazê-lo chegar a quem mais precisa. O evento foi, ao mesmo tempo, diagnóstico e chamado à responsabilidade — especialmente para quem já tem o privilégio da informação.

  • A desinformação em saúde não é apenas ruído digital: especialistas alertam que ela custa diagnósticos, tratamentos e vidas — e pedem que a disseminação intencional de notícias falsas seja criminalizada.
  • Os números do Edelman Trust Barometer 2026 revelam uma confiança em colapso: quase metade dos brasileiros desacredita no sistema de saúde e a confiança na mídia caiu 13 pontos em sete anos.
  • Do ciclo menstrual à saúde mental, o evento expôs desigualdades profundas — meninas que perdem aulas por dor normalizada, e um país que medica em excesso quem tem acesso enquanto ignora quem não tem.
  • Influenciadores de ciência relatam o desgaste de combater crenças enraizadas nas redes sociais, onde 70% dos jovens testam produtos sem orientação médica e apenas 4% do conteúdo de skincare vem de dermatologistas.
  • A pandemia deixou as instituições mais frágeis do que as pessoas: a infraestrutura de resposta sanitária foi desmontada, e o Brasil enfrentaria uma nova emergência em posição mais vulnerável do que em 2020.

Na última quarta-feira de junho, São Paulo sediou o Pulso, primeiro evento de saúde do Portal Drauzio em parceria com o UOL. Médicos, pesquisadores e comunicadores se reuniram para debater o que a pandemia de covid-19 escancarou: o Brasil tem um problema sério com a qualidade e a confiança na informação em saúde.

A infectologista Luana Araujo defendeu a criminalização de notícias falsas propagadas com fins financeiros ou políticos, comparando o esforço atual a apagar incêndio com balde d'água. O biólogo Atila Iamarino foi pessimista: se as pessoas aprenderam algo com a pandemia, as instituições saíram mais enfraquecidas. Dados do Edelman Trust Barometer 2026, apresentados em primeira mão, confirmaram o cenário — 45% dos brasileiros perdem confiança no sistema de saúde e apenas 48% acredita que a mídia reporta informações corretas, queda de 13 pontos desde 2019.

O evento também trouxe à tona a realidade das meninas brasileiras: mais de 50% menstruam antes dos 11 anos, quatro em cada 10 faltam à escola mensalmente por causa dos sintomas, e a endometriose segue sendo diagnosticada por métodos invasivos e inacessíveis. Sofia Reinach, do Instituto Alana, foi direta ao desafiar a normalização da dor menstrual: dor que impede atividades não é normal.

Nas farmácias, produtos viralizados nas redes sociais disputam atenção com doenças crônicas negligenciadas como hipertensão e diabetes. Drauzio Varella alertou para uma medicalização da vida que precisa de freio. Já no campo da saúde mental, o psiquiatra Daniel Martins resumiu o paradoxo brasileiro: excesso de medicalização para quem tem acesso, ausência de diagnóstico para 80% das pessoas com transtornos mentais.

Influenciadores de ciência como Laura Marise e Ana Bonassa relataram o desgaste de combater crenças enraizadas — e a necessidade de cuidar da própria saúde mental para continuar tentando, mesmo sabendo que não vão alcançar a todos. O evento encerrou com uma reflexão de Drauzio Varella sobre privilégio: quem tem conhecimento em saúde tem a obrigação de compartilhá-lo.

Na última quarta-feira de junho, São Paulo recebeu um encontro que reuniu médicos, pesquisadores, comunicadores e especialistas em saúde pública para uma conversa que o país precisava ter. O Pulso, primeiro evento de saúde do Portal Drauzio em parceria com o UOL, colocou na mesa temas que tocam a vida cotidiana de milhões de brasileiros: como a desinformação corrói a confiança nas instituições, por que meninas deixam de ir à escola por causa da menstruação, e por que o Brasil se tornou uma nação tão ansiosa.

O ponto de partida foi a pandemia de covid-19 e tudo que ela revelou sobre como as pessoas recebem informação de saúde. Luana Araujo, infectologista e epidemiologista, foi direta: notícias falsas propagadas com fins financeiros ou políticos precisam ser criminalizadas. "Isso precisa ser considerado legalmente um problema. Porque se não for, não tem esforço que a gente faça que seja suficiente. É apagar incêndio com um balde d'água", disse. Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, apontou o paradoxo que ainda assombra o país: políticas públicas de saúde desacreditadas por representantes do próprio estado. Atila Iamarino, biólogo e pesquisador, foi ainda mais pessimista sobre o futuro. Enquanto as pessoas individualmente aprenderam algo com a pandemia, as instituições ficaram mais fracas. A infraestrutura de testes, vacinas e monitoramento foi desmontada. Se uma nova emergência sanitária chegasse hoje, o Brasil a enfrentaria em situação mais vulnerável.

Os números do Edelman Trust Barometer 2026, apresentados em primeira mão no evento, confirmam essa fragilidade. Quase 4 em cada 10 brasileiros acreditam que o país está profundamente dividido em questões fundamentais de saúde. Quarenta e cinco por cento estão perdendo confiança no sistema de saúde. Apenas 48% dos brasileiros confiam que a mídia reportará informações corretas sobre saúde — uma queda de 13 pontos desde 2019. Nina Santos, pesquisadora em democracia digital, resumiu o dilema: é preciso disputar a partida usando as mesmas ferramentas que os desinformadores usam, enquanto simultaneamente se tenta mudar as regras do jogo. "Mas a gente precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo."

O evento também trouxe à tona um problema que afeta meninas desde muito cedo. Mais de 50% delas menstruam antes dos 11 anos. Seis em cada 10 sofrem com cólicas que as incapacitam e exigem medicação. Quatro em cada 10 faltam à escola pelo menos uma vez por mês por causa dos sintomas menstruais. Sofia Reinach, do Instituto Alana, desafiou uma narrativa que permeia consultórios e conversas familiares há gerações: a ideia de que dor menstrual é normal. "Dor que afeta as nossas atividades não é normal", afirmou. A endometriose, doença que causa essa dor incapacitante, ainda é diagnosticada através de métodos invasivos e inacessíveis, apesar de haver mais informação sobre ela do que havia alguns anos atrás.

Nas farmácias, o cenário é de consumidores mais empoderados, mas nem sempre bem informados. Medicamentos para perda de peso, suplementos vitamínicos e produtos para a pele viralizaram nas redes sociais, enquanto doenças crônicas como hipertensão e diabetes continuam negligenciadas. Drauzio Varella alertou para uma medicalização da vida que precisa de controle — e esse controle começa no balcão da farmácia. Bruno Pipponzi, vice-presidente de Negócios da RD Saúde, vê nas farmácias um equipamento de relevância extrema para acompanhamento de doenças crônicas em um país que envelhece rapidamente.

Os influenciadores de ciência e saúde assumem papel central nessa batalha contra a desinformação. Laura Marise, do canal Nunca Vi 1 Cientista, explicou o desafio: traduzir conhecimento técnico partindo do ponto de que as pessoas não sabem o que você sabe. Não há receita. Ana Bonassa, sua colega de canal, foi honesta sobre a resistência que enfrentam. Quando expõem que alguém foi enganado, o reflexo é recusar a informação. Existem crenças prévias, divergências ideológicas, visões de mundo diferentes. "Mantenha a terapia em dia para saber que vocês não vão salvar todo mundo, mas continuem tentando mesmo assim."

No cuidado com a pele, a desinformação é particularmente perigosa. Setenta por cento dos jovens testam produtos que viram nas redes sociais sem orientação médica, e apenas 4% desse conteúdo é produzido por dermatologistas. Nathalia Harnam, diretora científica da Divisão de Beleza Dermatológica do Grupo L'Oréal, destacou uma particularidade brasileira: o país é o mais miscigenado do mundo, com 55 dos 66 tons de pele mapeados globalmente e as oito curvaturas de cabelo existentes. Essa diversidade dermatológica única exige profissionais presentes na disseminação de informações adequadas.

Por fim, o evento tocou na saúde mental — o ponto onde as contradições brasileiras se tornam mais evidentes. O Brasil tem uma das maiores prevalências de transtornos de ansiedade e depressão do mundo. Ao mesmo tempo, 80% das pessoas com transtorno mental não recebem diagnóstico e tratamento adequados. Daniel Martins, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP, resumiu o paradoxo: "Nós vivemos entre o excesso e a falta." Há medicalização excessiva em setores privilegiados enquanto falta diagnóstico e tratamento para a maioria. Drauzio Varella encerrou o evento com uma reflexão sobre privilégio: quem possui conhecimento em saúde tem a obrigação de compartilhá-lo.

Isso precisa ser considerado legalmente um problema. Porque se não for, não tem esforço que a gente faça que seja suficiente. É apagar incêndio com um balde d'água.
— Luana Araujo, infectologista e epidemiologista
Quando você tem um conhecimento, especialmente em uma área como a saúde, você tem a obrigação de compartilhá-lo com os outros.
— Drauzio Varella, ao encerrar o evento
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a desinformação sobre saúde é tão difícil de combater, especialmente depois da pandemia?

Model

Porque ela se enraizou em estruturas de desconfiança que já existiam. A pandemia não criou o problema — apenas o amplificou. Quando o próprio estado desacredita suas próprias políticas públicas, quando a infraestrutura de vigilância é desmontada, fica claro que não é só sobre corrigir uma notícia falsa aqui ou ali.

Inventor

E os influenciadores de ciência? Eles conseguem fazer diferença real?

Model

Conseguem, mas com limitações honestas. O trabalho deles é traduzir conhecimento técnico para linguagem acessível enquanto lidam com pessoas que já foram enganadas antes e têm medo de ser enganadas de novo. Não é possível convencer todo mundo. Mas quem consegue alcançar — e isso importa.

Inventor

Meninas faltando à escola por causa de menstruação em 2026. Como isso ainda é possível?

Model

Porque a dor menstrual foi normalizada como algo que as mulheres simplesmente têm que suportar. Ninguém ensina que dor que incapacita não é normal. Os profissionais de saúde ficam desacostumados a falar sobre isso. É negligência disfarçada de naturalidade.

Inventor

O Brasil tem mais pessoas ansiosas que a maioria dos países. Por quê?

Model

É uma combinação de fatores estruturais: colonização, violência, desigualdade social. E agora as redes sociais se tornaram o único espaço de lazer para muita gente — um espaço repleto de conteúdo viciante e estigmatizante. Mas o paradoxo é que 80% das pessoas com transtorno mental não recebem tratamento adequado.

Inventor

Então há excesso de medicalização e falta de tratamento ao mesmo tempo?

Model

Exatamente. Em setores privilegiados, há medicalização excessiva. Na maioria da população, há carência. O Brasil vive entre o excesso e a falta — e isso reflete todas as desigualdades do país.

Inventor

O que muda se a gente começar a levar isso a sério?

Model

Tudo. Se criminalizarmos desinformação com fins financeiros ou políticos, se dermos importância à dor menstrual, se reconhecermos que conhecimento em saúde é privilégio e obrigação de compartilhar — aí sim começamos a construir confiança de novo.

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