Incluir sem manter é criar novas formas de sofrimento
A psicanálise, nascida nos consultórios vienenses do século XIX, encontra no Brasil uma geração de pensadores que se recusa a aplicar seus conceitos sem interrogar o solo histórico em que vivem. Não se trata de abandonar Freud, mas de reconhecer que a colonização, a escravidão e o banzo — o adoecimento psíquico dos escravizados — moldaram uma subjetividade que os modelos europeus não alcançam. Foram os cotistas, ao cruzarem as portas das universidades, que forçaram as instituições a olhar para o que havia sido sistematicamente silenciado. A questão que permanece aberta é se a inclusão, sem permanência, não produz ela própria novas formas de sofrimento.
- O modelo psicanalítico europeu, aplicado mecanicamente ao Brasil, ignora séculos de colonização e escravidão que moldaram de forma singular a mente e o sofrimento das pessoas aqui.
- Pesquisadores resgatam o banzo — o adoecimento psíquico dos escravizados — como chave para compreender a subjetividade brasileira, desafiando o que as instituições consagradas sempre trataram como universal.
- Foram os cotistas que entraram nas universidades e trouxeram o que a academia havia foracluído: autores negros, perspectivas interseccionais e a denúncia do epistemicídio acadêmico.
- Pressionadas, algumas instituições psicanalíticas começaram a abrir espaço para essas vozes — mas a abertura das portas não garante que ninguém fique para trás.
- Suicídios de jovens universitários revelam o custo humano de políticas de inclusão que não se sustentam em suporte real de permanência, transformando a promessa de pertencimento em nova forma de exclusão.
A psicanálise que chegou ao Brasil veio de Viena, forjada entre pacientes europeus do século XIX. Por décadas, seus conceitos foram aplicados aqui como se a mente humana funcionasse da mesma forma em qualquer contexto histórico. Mas uma geração de psicanalistas brasileiros começou a fazer uma pergunta incômoda: e se esse modelo não consegue explicar o que realmente acontece neste país?
Não é uma rejeição a Freud. É uma recusa em ignorar que colonização, escravidão e miscigenação forçada produziram experiências radicalmente distintas das que deram origem à teoria psicanalítica. Um grupo de pesquisadores passou a estudar o banzo — o adoecimento psíquico que acometia os escravizados — não como curiosidade histórica, mas como fundamento para entender como a subjetividade brasileira se formou. O inconsciente pode funcionar de forma semelhante em todo lugar; os fenômenos concretos que o moldam, não.
Essa transformação não veio das cúpulas institucionais. Foram os cotistas que, ao entrarem nas universidades e escolherem a psicanálise como campo, trouxeram consigo os temas que a academia havia sistematicamente silenciado. Questionaram o epistemicídio — a exclusão de autores negros e perspectivas interseccionais —, denunciaram a falta de análises acessíveis e as barreiras que dificultam a formação fora dos grandes centros.
As instituições sentiram a pressão e algumas começaram a ceder. Mas incluir sem garantir permanência é criar novas formas de sofrimento. Os suicídios de estudantes universitários não são números abstratos: são vidas que não suportaram a contradição de estar dentro e, ao mesmo tempo, fora. A inclusão é apenas o primeiro passo. O que vem depois — o acompanhamento real, o suporte, a transformação profunda das instituições — é onde a maioria ainda falha.
A psicanálise que aprendemos nos livros nasceu em Viena, no consultório de Freud, entre pacientes europeus do século XIX. Mas há alguns anos, psicanalistas brasileiros começaram a fazer uma pergunta incômoda: e se esse modelo, tão precioso quanto é, não consegue explicar o que realmente acontece aqui?
Não é uma rejeição a Freud. É uma recusa em aplicar mecanicamente conceitos forjados em outro tempo e lugar, como se a mente humana funcionasse da mesma forma em qualquer contexto. Os jovens psicanalistas brasileiros estão reinventando a disciplina a partir da realidade material que nos constitui — a colonização, a escravidão, a miscigenação forçada. Quando se fala em complexo de Édipo, em identificação, em trauma, em como as pessoas se tornam pais e mães, não dá para ignorar que essas experiências são radicalmente diferentes para quem vive sob o peso dessa história.
Um grupo de pesquisadores dentro de uma instituição estabelecida começou a estudar o banzo — o adoecimento psíquico que acometia os escravizados. Não é uma curiosidade histórica. É a base para entender como a subjetividade brasileira se formou. As feridas psíquicas que vêm dessa experiência dizem muito mais sobre quem somos do que as histéricas que Freud usou para construir sua teoria do inconsciente. O ponto não é descartar Freud, mas usá-lo como ferramenta para pensar as condições que realmente nos cercam, não as que cercavam a Europa. O inconsciente funciona de forma parecida em todo lugar, é verdade. Mas os fenômenos aos quais estamos expostos são específicos. Um analista precisa ouvir os dois — o funcionamento inconsciente e os fenômenos concretos que o moldam.
Essa transformação não veio de cima para baixo. Não foi porque psicanalistas brancos e renomados acordaram um dia e decidiram olhar para essas questões. Foram os cotistas que entraram nas universidades, se formaram, escolheram trabalhar no campo da psicologia e da psicanálise, e trouxeram consigo os temas que a academia e as instituições psicanalíticas tinham ignorado ou, para usar um termo da psicanálise lacaniana, foracluído. Esses jovens começaram a questionar o epistemicídio — a exclusão sistemática de autores negros e de perspectivas interseccionais. Apontaram a falta de análises acessíveis, fundamentais para formar novos analistas. Denunciaram as barreiras linguísticas que dificultam a formação em diferentes regiões do Brasil.
As instituições consagradas sentiram a pressão e começaram a abrir as portas. Algumas com mais sucesso, outras nem tanto. Mas aqui está o problema: incluir sem manter é criar novas formas de sofrimento. Políticas de acesso que não vêm acompanhadas de políticas de permanência deixam esses jovens em um vazio. Os suicídios de estudantes universitários falam por si. Não são números abstratos. São vidas que não conseguiram suportar a contradição de estar dentro e, ao mesmo tempo, estar fora. A inclusão é apenas o primeiro passo. O que vem depois — o acompanhamento, o suporte, a transformação real das instituições — é onde a maioria falha.
Citações Notáveis
O precioso modelo de Freud, produzido em seu território e época, só nos vale se puder ser usado para pensarmos as condições materiais que vigoram aqui, e não na Europa— Perspectiva dos psicanalistas brasileiros citados no texto
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a psicanálise europeia não funciona aqui? O inconsciente não é universal?
O inconsciente funciona de forma parecida em qualquer lugar, mas a gente não vive só de inconsciente. Vivemos em contextos materiais específicos. Freud pensou a mente a partir de uma realidade que não é a nossa.
E o que muda quando você leva em conta a escravidão e a colonização?
Tudo. O banzo não é só um sintoma psiquiátrico. É a base de como a subjetividade brasileira se formou. Se você não entende isso, você não entende o paciente que está na sua frente.
Então os jovens psicanalistas estão criando uma psicanálise brasileira do zero?
Não do zero. Estão pegando as ferramentas que Freud deixou e usando para pensar problemas que Freud nunca enfrentou. É uma reinvenção, não uma rejeição.
Mas as instituições antigas estão aceitando isso?
Estão sendo forçadas a aceitar. Os cotistas que entraram nas universidades trouxeram essas questões e não deixaram ninguém ignorar. Mas aceitar não é a mesma coisa que transformar de verdade.
O que você quer dizer?
Que você pode abrir a porta para alguém entrar, mas se não der suporte para essa pessoa ficar, você está criando um novo tipo de sofrimento. Os suicídios de jovens universitários mostram que a inclusão sem permanência é uma ilusão perigosa.