Do controle total ao veto silencioso: o estado perdeu a empresa
Na terça-feira, a Copasa — empresa que abastece 636 municípios mineiros com água e saneamento — deixou definitivamente o controle do Estado de Minas Gerais, encerrando décadas de gestão pública com a venda de 171 milhões de ações por R$ 8,38 bilhões na B3. A Equatorial Energia emergiu como maior acionista, com 30% do capital, enquanto o estado encolheu de dono de metade da companhia a detentor de pouco mais de 5%. O episódio coloca em tensão duas visões de mundo: a que enxerga na iniciativa privada o caminho para a modernização, e a que teme que o lucro se sobreponha ao acesso universal a um serviço essencial.
- A operação foi concluída em ritmo acelerado — menos de seis meses após a sanção da lei pelo governador Zema, a Copasa já tem um novo dono de referência.
- A Equatorial desembolsou R$ 5,59 bilhões para garantir dois terços da oferta pública, sinalizando apetite estratégico por um dos maiores operadores de saneamento do país.
- Deputados da oposição elevam o tom de alerta: tarifas mais altas, demissões e queda na qualidade do serviço são os riscos apontados para os milhões de mineiros atendidos pela empresa.
- O estado retém uma golden share — instrumento que preserva poder de veto sobre decisões estratégicas — como salvaguarda simbólica diante da perda de controle acionário.
- Os R$ 8,38 bilhões arrecadados têm destino quase certo: abater a dívida de Minas Gerais com a União, com possibilidade de parte ir para um fundo estadual de saneamento básico.
A privatização da Copasa foi concluída na terça-feira com a venda de mais de 171 milhões de ações a R$ 49,03 cada, totalizando R$ 8,38 bilhões. A operação, realizada na B3, encerra um processo iniciado em dezembro de 2025, quando o governador Romeu Zema sancionou a lei aprovada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
A Equatorial Energia consolidou-se como investidor de referência ao adquirir 114 milhões de ações — dois terços da oferta — por R$ 5,59 bilhões, passando a deter 30% do capital da companhia. A Perfin, que já era acionista, aproveitou a operação para ampliar sua participação de 15,25% para 20,11%. Fundos institucionais e investidores do varejo dividiram o restante da oferta.
O Estado de Minas Gerais, que controlava 50% da empresa, reduziu sua fatia a apenas 5,03%. Como proteção, o governo mantém uma golden share — ação especial que garante poder de veto sobre mudanças estratégicas, como alteração do nome ou da sede da companhia. Os recursos obtidos serão destinados à amortização da dívida estadual com a União, com possibilidade de parte ser alocada em um fundo de saneamento básico.
A transação, porém, não é isenta de controvérsia. Deputados que votaram contra a privatização alertam para o risco de aumento de tarifas, precarização dos serviços e demissões em massa — consequências que poderiam afetar diretamente os moradores dos 636 municípios mineiros atendidos pela Copasa. Com a Equatorial no comando, a empresa migra do modelo de utilidade pública para uma lógica orientada por retorno financeiro, e o tempo dirá se as duas missões conseguirão coexistir.
A privatização da Copasa foi selada na terça-feira com a venda de mais de 171 milhões de ações pelo preço de R$ 49,03 cada, gerando R$ 8,38 bilhões que entrarão nos cofres do estado de Minas Gerais. A operação, concluída na B3, marca o fim de uma transição que começou quando o então governador Romeu Zema (Novo) sancionou a lei em dezembro de 2025, após aprovação definitiva da Assembleia Legislativa.
A Equatorial Energia, escolhida como investidor de referência, saiu da operação como a maior acionista da companhia. O grupo adquiriu 114 milhões de ações, o equivalente a dois terços da oferta pública, desembolsando R$ 5,59 bilhões. Com essa participação, a Equatorial passa a controlar 30% do capital total da empresa. Havia planos para disponibilizar um lote adicional de até 19 milhões de papéis, mas a oferta não foi expandida.
O estado, que era dono de metade da companhia antes da venda, agora detém apenas 5,03% do capital social. Essa redução drástica na participação estatal vem acompanhada de um instrumento de proteção: uma golden share, ação preferencial de classe especial que permite ao Executivo mineiro exercer poder de veto sobre decisões estratégicas, como mudanças na denominação ou na sede da empresa. A Perfin, que já era acionista, ampliou sua fatia de 15,25% para 20,11% ao comprar pouco mais de 1 milhão de ações ordinárias.
O restante do capital foi distribuído entre investidores institucionais e pessoas físicas. Os fundos e investidores institucionais ficaram com 10,5% da companhia, movimentando R$ 1,96 bilhão. Investidores do varejo, por sua vez, adquiriram 4,5% do capital social com R$ 838,9 milhões.
Romeu Zema argumentava que a desestatização era essencial para modernizar a empresa e atrair novos investimentos. Porém, deputados que votaram contra a proposta na Assembleia Legislativa alertam para riscos distintos: aumento nas tarifas cobradas dos consumidores, possível precarização dos serviços de saneamento e demissões em massa. A Copasa atende 636 municípios em Minas Gerais, o que significa que qualquer mudança na qualidade ou no preço do serviço afetará milhões de pessoas.
A lei que autorizou a venda determina que os R$ 8,38 bilhões sejam usados para amortizar a dívida de Minas Gerais com a União ou para cumprir obrigações do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados. O texto também abre a possibilidade de que parte dos recursos seja depositada em um fundo estadual dedicado ao saneamento básico. Agora, com a Equatorial no comando e o estado reduzido a acionista minoritário, o foco da companhia muda: de uma empresa pública voltada para o interesse coletivo para uma operação privada orientada por retorno financeiro.
Notable Quotes
Deputados que votaram contra alertaram que a desestatização geraria aumento de tarifa, precarização do serviço e demissões— Deputados da Assembleia Legislativa de Minas Gerais
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o estado vendeu uma empresa que atendia mais de 600 municípios?
Minas Gerais tinha uma dívida pesada com a União. A venda de R$ 8,38 bilhões era uma forma de levantar caixa rapidamente para pagar essas obrigações. O governo argumentava também que a Copasa precisava de modernização que o setor público não conseguia financiar.
E quem ganhou com isso?
A Equatorial ganhou muito. Ela se tornou dona de 30% da companhia por R$ 5,59 bilhões, o que a coloca em posição de controle. Investidores institucionais e pessoas físicas também entraram, mas com fatias menores. O estado recebeu o dinheiro, mas perdeu o controle.
O estado não ficou completamente fora?
Não. Mantém 5% das ações e, mais importante, uma golden share que funciona como um veto. Pode impedir mudanças na sede ou no nome da empresa. É uma proteção, mas fraca comparada ao que tinha antes.
E os usuários? Os 636 municípios que dependem da Copasa?
Aí está o risco que a oposição levanta. Uma empresa privada tem pressão para gerar lucro. Isso pode significar aumento de tarifa, corte de custos que prejudiquem a qualidade do serviço, ou demissões. Ninguém sabe ainda como a Equatorial vai operar.
Então a privatização foi controversa?
Muito. Passou na Assembleia, mas com voto contrário de deputados que veem risco real para o serviço público. O governador que sancionou a lei saiu do cargo, então a responsabilidade agora é da Equatorial e do novo governo estadual.