Nunca é tarde para a maioria das coisas — a idade não é impeditivo
Em novembro de 2020, especialistas reunidos pelo Público debateram uma das questões mais antigas da medicina: como é que os seres humanos podem viver mais anos sem que esses anos sejam marcados pelo sofrimento. A resposta, tecida entre dados científicos e experiências concretas, apontou sempre na mesma direção — a prevenção não é um luxo, mas a forma mais sábia de cuidar da vida antes que ela precise de ser reparada. Num país onde apenas um quarto da população segue a dieta mediterrânica e onde a tecnologia começa a ser aliada da saúde individual, o desafio não é apenas médico, mas profundamente cultural e social.
- Quase 80% dos portugueses não consome frutas e vegetais suficientes, e o excesso de sal, açúcar e carne vermelha encurta silenciosamente anos de vida saudável.
- A ausência de nutricionistas nos cuidados primários e nas escolas deixa a maioria da população sem orientação alimentar acessível, tornando a literacia nutricional um privilégio e não um direito.
- A pandemia de Covid-19 ameaça atrasar vacinações infantis essenciais, abrindo caminho a possíveis surtos de doenças já controladas como sarampo e tosse convulsa.
- Programas como o Multicare Vitality mostram que recompensar comportamentos saudáveis com incentivos concretos resulta em 50% mais atividade física e menos internamentos ao longo de cinco anos.
- A longevidade começa a ser encarada como um ativo — não apenas biológico, mas económico e emocional — e a mensagem é clara: nunca é tarde para mudar.
No início de novembro de 2020, o Público reuniu médicos, nutricionistas, sociólogos e representantes do setor segurador para debater uma questão que atravessa gerações: como envelhecer com saúde de verdade. O ponto de partida foi simples — prevenir é sempre mais eficaz do que tratar. Diagnósticos precoces, como as mamografias bienais para o cancro da mama, aumentam dramaticamente as hipóteses de cura e reduzem a necessidade de tratamentos invasivos.
A nutricionista Joana Sousa trouxe dados que perturbam: apenas um quarto dos portugueses segue a dieta mediterrânica, e quase toda a população consome açúcar acima dos limites recomendados pela OMS. O problema não é só individual — mais de 80% das autarquias não têm apoio nutricional, e as escolas raramente contam com nutricionistas. Sem estes profissionais próximos das pessoas, a mudança de hábitos torna-se uma batalha desigual.
A socióloga Ana Sepúlveda lembrou que a longevidade tem também uma dimensão mental e emocional. A partir dos 40 anos, o investimento na autoestima e na saúde mental é tão importante quanto o exercício físico. Com mais de metade da população portuguesa acima dessa idade, o bem-estar psicológico deixou de ser um tema secundário.
A tecnologia surgiu como aliada concreta: a Multicare apresentou um programa que recompensa hábitos saudáveis com vouchers e descontos no seguro, com resultados comprovados em mais de 25 países. A pandemia acelerou ainda a adoção da telemedicina, cuja procura duplicou, e revelou que mais de metade dos portugueses acredita ter melhorado a alimentação durante o confinamento — um sinal de que a crise também abriu espaço para a reflexão sobre como vivemos.
No início de novembro, o Público reuniu um painel de especialistas para discutir uma questão que interessa a todos: como viver mais anos com saúde de verdade. O webinar, realizado em parceria com a Multicare, trouxe à conversa um médico de família, uma nutricionista, uma socióloga e uma executiva de seguros, cada um trazendo uma perspectiva diferente sobre o que significa envelhecer bem.
Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, começou com um provérbio simples mas poderoso: mais vale prevenir do que remediar. A ideia não é nova, mas a sua aplicação prática muda tudo. Quando se consegue diagnosticar o cancro do intestino numa fase inicial, o tratamento é infinitamente mais fácil do que quando a doença já está avançada. O mesmo vale para deixar de fumar antes de desenvolver cancro do pulmão. A prevenção, explicou, reduz a necessidade de tratamentos agressivos e invasivos, e melhora significativamente o prognóstico. No caso específico do cancro da mama, as mamografias realizadas de dois em dois anos, associadas a ecografias quando necessário, conseguem detectar a doença numa fase mais precoce, quando o sucesso do tratamento é muito maior. A grande maioria das mulheres que recebem este rastreio conseguem curar-se.
Mas a prevenção vai muito além dos exames. Joana Sousa, nutricionista e vogal da Ordem dos Nutricionistas, trouxe dados perturbadores sobre como comemos. Apenas um quarto da população portuguesa segue a dieta mediterrânica, o padrão alimentar que a ciência reconhece como mais saudável. Os erros são consistentes: consumimos demasiado sal de mesa, demasiada carne vermelha, e muito pouco em cereais integrais e leguminosas. Quase 80% dos portugueses não atinge a recomendação mínima de 400 gramas de frutas e vegetais por dia. Quando se trata de açúcar, quase toda a população consome acima do que a Organização Mundial de Saúde recomenda. Estes hábitos alimentares, sublinhou Sousa, estão entre os fatores de risco que mais contribuem para a perda de anos de vida saudável. A boa notícia é que mudar o comportamento alimentar ganha anos de vida saudável. Mas há um obstáculo: a falta de nutricionistas nos cuidados de saúde primários. Mais de 80% das autarquias nacionais não têm apoio nutricional, e a presença destes profissionais nas escolas é igualmente escassa. Sem eles próximos da população, é impossível apostar na literacia alimentar dos portugueses.
A questão da longevidade ganhou uma dimensão económica e social através de Ana Sepúlveda, socióloga e diretora do 40+Lab. A partir dos 40 anos, as pessoas começam a tomar consciência de que entram numa nova fase da vida. Há dois fatores essenciais para promover longevidade: um relacionado com o corpo (alimentação e exercício físico) e outro com a mente (saúde mental, gestão de sentimentos). Com mais de metade da população portuguesa com mais de 40 anos, a necessidade de investir no bem-estar e na autoestima torna-se cada vez mais urgente. A longevidade está a ser entendida como um ativo financeiro, e a mensagem central é que nunca é tarde para a maioria das coisas — a idade não é um impeditivo para novas experiências.
A Multicare, a seguradora que organizou o webinar, apresentou como a tecnologia pode facilitar estas mudanças. Desde 2009 oferece check-ups sem custos adicionais aos clientes. Em 2016, foi a primeira empresa a lançar uma plataforma de telemedicina com médicos disponíveis 24 horas, sete dias por semana. A novidade mais recente é o programa Multicare Vitality, exclusivo em Portugal, que recompensa os clientes com hábitos de vida mais saudáveis com vouchers até 280 euros e descontos até 15% no prémio da seguradora. Através de uma aplicação, os utilizadores registam passos e ritmo cardíaco, recebem metas semanais de exercício físico, e ganham moedas digitais (FidCoins) que podem trocar por vouchers. Este programa, que tem mais de 20 anos de experiência e está presente em mais de 25 países com 20 milhões de utilizadores, demonstrou ser eficaz. Nos países onde há mais histórico — África do Sul e Reino Unido — os participantes fazem 50% mais atividade física em cinco anos, morrem menos, e têm menos de 10% de episódios de internamento.
Rui Nogueira reforçou a importância da vacinação, especialmente em crianças nos primeiros dois anos de vida. A maioria das vacinas cria imunidade de grupo, protegendo não apenas o indivíduo mas toda a comunidade. Portugal tem um dos melhores programas nacionais de vacinação do mundo, com taxas muito elevadas. O médico expressou preocupação com possíveis atrasos em algumas vacinas devido à pandemia de Covid-19, que poderiam resultar em surtos de doenças como tosse convulsa, sarampo ou difteria.
A pandemia trouxe desafios inesperados. A Multicare teve de ser criativa: financiou o tratamento de doentes de Covid-19 em hospitais privados, agilizou processos administrativos, ajustou tempos de pagamento, e viu a procura de telemedicina duplicar e triplicar. Lançou um verificador de sintomas gratuito e serviço de entrega de medicamentos ao domicílio. Segundo um estudo da Direção Geral da Saúde, 45% dos portugueses alteraram os seus hábitos alimentares durante o confinamento, e mais de 50% acredita que foi para melhor. A conversa terminou com um aviso prático: nos próximos meses de frio, é preciso ter cuidado redobrado com a gripe, num contexto em que a pandemia ainda não está controlada.
Citações Notáveis
Mais vale prevenir do que remediar — todas as atitudes preventivas são mais fáceis do que remediar— Rui Nogueira, médico de família e presidente da APMGF
Os hábitos alimentares estão entre os fatores de risco que mais contribuem para a perda de anos de vida saudável— Joana Sousa, nutricionista e vogal da Ordem dos Nutricionistas
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que a prevenção é tão mais eficaz do que o tratamento?
Porque quando conseguimos apanhar uma doença cedo, o corpo ainda não sofreu danos profundos. Um cancro detectado no início é uma coisa completamente diferente de um cancro avançado. A prevenção também evita que precisemos de cirurgias invasivas, quimioterapias agressivas. É mais simples, menos sofrimento, melhor resultado.
Mas as pessoas sabem disto. Porque é que não mudam?
Porque saber não é fazer. Temos informação em excesso — demasiada, na verdade — e muita dela é contraditória ou vem de fontes não confiáveis. Além disso, mudar hábitos é difícil. Comer bem, exercitar-se, deixar de fumar — isto exige disciplina diária. E a maioria das pessoas não tem acesso a um nutricionista ou a um médico que as oriente de verdade.
Então a tecnologia resolve isto?
Ajuda. Um programa que te dá metas semanais, que te recompensa quando as cumpres, que torna tudo um jogo — isto funciona. Os números mostram que as pessoas fazem 50% mais exercício quando estão nestes programas. Mas a tecnologia é apenas uma ferramenta. O verdadeiro trabalho é mudar a mentalidade, entender que aos 40 anos ainda temos décadas pela frente.
E a alimentação? Parece que os portugueses comem muito mal.
Comemos. Apenas um quarto segue a dieta mediterrânica. Comemos demasiada carne vermelha, demasiado sal, demasiado açúcar. E as crianças? Mais de 50% consome refrigerantes diariamente. Isto é normalizado nas famílias. Se cresces num ambiente onde isto é normal, não vês como algo errado.
Como se muda isto?
Começa cedo, nas escolas e nas famílias. E precisa-se de nutricionistas nos centros de saúde, nas autarquias. Sem profissionais qualificados próximos das pessoas, é impossível. A informação sozinha não chega.
E a vacinação? Parece que há receios.
Portugal tem um programa excelente e as taxas são altas. Mas há sempre quem tenha dúvidas. O importante é que a vacinação protege não apenas a pessoa, mas toda a comunidade. Uma criança vacinada protege também os que não podem ser vacinados.