Simplesmente não sabemos como os medicamentos interagem com esses processos
Em um intervalo de apenas seis anos, o número de mães dinamarquesas recebendo prescrições de medicamentos GLP-1 após o parto cresceu 34 vezes — um reflexo de como terapias inovadoras para perda de peso chegam ao cotidinho antes que a ciência compreenda plenamente suas consequências. O estudo publicado no JAMA Network Open não acusa, mas ilumina uma lacuna: quase 2% das novas mães na Dinamarca usam semaglutida ou tirzepatida num momento em que o corpo feminino já atravessa uma das maiores reorganizações biológicas da vida. A medicina avança; a evidência, por ora, ainda tenta alcançá-la.
- As prescrições de GLP-1 para mães no pós-parto saltaram de menos de 5 para 173 por cada dez mil mulheres na Dinamarca entre 2018 e 2024 — um crescimento que surpreendeu até os próprios pesquisadores.
- A urgência está no vazio: quase nada se sabe sobre como esses supressores de apetite interagem com as profundas alterações hormonais do pós-parto e com a produção de leite materno.
- Especialistas temem que mães que não sentem fome possam comprometer tanto sua própria recuperação fisiológica quanto a qualidade e o volume do leite oferecido ao bebê.
- Centros de referência como o First Exposure, da Universidade de Toronto, já recomendam evitar esses medicamentos durante a amamentação — não por evidência de dano, mas pela escassez alarmante de dados.
- O campo permanece num impasse: sem diretrizes do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas e sem estudos de longo prazo, mães e médicos tomam decisões com informações incompletas.
Em 2018, menos de cinco em cada dez mil mães dinamarquesas usavam medicamentos GLP-1 para emagrecer após o parto. Em meados de 2024, esse número havia chegado a 173 — um aumento de 34 vezes em apenas seis anos. Um estudo publicado no JAMA Network Open rastreou esse fenômeno a partir de dados de mais de 382 mil gestações na Dinamarca, cruzando registros de nascimentos com prescrições nacionais. O resultado: quase 2% das novas mães do país estavam usando semaglutida ou tirzepatida para perder peso no período pós-parto.
A maioria dessas mulheres tinha mais de trinta anos, já era mãe e estava acima do peso, mas sem diagnóstico de diabetes. Para Mette Bliddal, farmacologista da Universidade do Sul da Dinamarca e autora principal do estudo, o padrão foi inesperado: o corpo pós-parto já passa por transformações radicais, e adicionar um supressor de apetite a esse processo levanta perguntas que a ciência ainda não consegue responder.
O problema central é a escassez de dados. A semaglutida não foi detectada em quantidades mensuráveis no leite materno nos poucos estudos realizados, e nenhum efeito adverso foi observado em bebês. Mas os efeitos a longo prazo no metabolismo infantil, no desenvolvimento do pâncreas e no crescimento geral permanecem desconhecidos. O First Exposure, centro de informações da Universidade de Toronto, recomenda evitar esses fármacos durante a amamentação — não por evidência de risco, mas pela insuficiência dos dados disponíveis.
Há ainda uma preocupação indireta: esses medicamentos funcionam suprimindo o apetite. Uma mãe que não sente fome pode não se alimentar o suficiente para manter a produção de leite ou sua própria recuperação. Bliddal lembra que o corpo pós-parto "está trabalhando arduamente para recuperar o equilíbrio" — e ninguém sabe como um supressor de apetite interfere nesse processo. Até que estudos mais robustos sejam concluídos, mães e médicos continuarão tomando decisões num território de incerteza.
Em 2018, quase nenhuma mãe dinamarquesa recebia prescrição de medicamentos GLP-1 nos primeiros meses após o parto. Menos de cinco a cada dez mil novas mães usavam essas drogas para perda de peso. Seis anos depois, em meados de 2024, esse número havia explodido para 173 prescrições por dez mil mães — um aumento de 34 vezes em um período marcado por transformações biológicas profundas e, para muitas, pela amamentação.
Um novo estudo publicado na revista JAMA Network Open na segunda-feira passada rastreou esse fenômeno através de dados de mais de 382 mil gestações na Dinamarca. Os pesquisadores cruzaram registros de nascimentos com registros de prescrições nacionais, capturando um quadro completo de quem estava recebendo esses medicamentos e quando. O que encontraram foi surpreendente: quase 2% das novas mães dinamarquesas estavam usando semaglutida — o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — ou tirzepatida, encontrada no Mounjaro, para emagrecer após dar à luz.
A maioria dessas mulheres tinha mais de trinta anos, já tinha filhos e estava acima do peso, mas sem diagnóstico de diabetes. Poucas tinham histórico anterior com esses medicamentos. Para Mette Bliddal, farmacologista da Universidade do Sul da Dinamarca e autora principal do estudo, o padrão foi inesperado. "Em um período caracterizado por perda de peso natural e alterações hormonais significativas, isso foi inesperado", disse ela. O corpo pós-parto já está passando por mudanças radicais; adicionar um medicamento supressor de apetite durante esse processo levanta questões que a ciência ainda não respondeu.
O problema é que muito pouco se sabe sobre como esses medicamentos funcionam quando uma mulher está amamentando. A semaglutida não foi detectada em quantidades mensuráveis no leite materno em estudos limitados, e nenhum efeito adverso foi observado em bebês cujas mães a usaram. Mas "limitado" é a palavra-chave aqui. Poucos estudos foram realizados. Os efeitos a longo prazo no metabolismo da criança, no desenvolvimento do pâncreas e no crescimento geral permanecem desconhecidos.
O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas ainda não emitiu diretrizes sobre o uso desses medicamentos no pós-parto, simplesmente porque são muito novos e os dados são insuficientes. Mas o First Exposure, um centro de informações da Universidade de Toronto que avalia a segurança de medicamentos durante a gravidez e amamentação, recomenda que as mulheres evitem esses fármacos enquanto amamentam. Jonathan Zipursky, farmacologista clínico e consultor médico do First Exposure, explicou o raciocínio: as moléculas GLP-1 são grandes demais para serem transferidas eficientemente para o leite materno e se degradariam no estômago do bebê. "Acho que, por excesso de cautela, esses medicamentos não devem ser usados durante a amamentação. Não porque tenhamos conhecimento de algum risco ou evidência de danos, mas simplesmente porque os dados disponíveis são tão escassos que sugerimos evitá-los."
Mas há outras preocupações além da transferência direta do medicamento. Esses fármacos suprimem o apetite — é assim que funcionam. Uma mãe que não sente fome pode não comer o suficiente para manter a produção de leite ou sua própria hidratação. Bliddal apontou que o corpo pós-parto "está trabalhando arduamente para recuperar o equilíbrio". Ninguém sabe como um medicamento que reduz drasticamente o apetite interage com esses processos de recuperação fisiológica. Também não há dados sobre se esses medicamentos alteram a composição nutricional do leite materno em si.
O cenário atual é um daqueles momentos em que a medicina se move mais rápido que a ciência. Mulheres estão usando esses medicamentos em números crescentes durante um período vulnerável, enquanto os pesquisadores ainda estão tentando entender as implicações. Até que mais estudos sejam realizados — estudos que levem meses ou anos para serem concluídos — as mães e seus médicos estão operando com informações incompletas.
Notable Quotes
Em um período caracterizado por perda de peso natural e alterações hormonais significativas, isso foi inesperado— Mette Bliddal, farmacologista da Universidade do Sul da Dinamarca
Por excesso de cautela, esses medicamentos não devem ser usados durante a amamentação. Não porque tenhamos conhecimento de algum risco, mas simplesmente porque os dados disponíveis são tão escassos— Jonathan Zipursky, farmacologista clínico da Universidade de Toronto
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que esse aumento foi tão rápido? Essas mulheres estavam sendo prescritas esses medicamentos por seus obstetras, ou estavam procurando por conta própria?
O estudo não detalha quem estava prescrevendo, mas o contexto importa. Esses medicamentos explodiram em popularidade entre 2022 e 2024 — a mesma época em que celebridades começaram a falar sobre eles e a demanda geral disparou. Muitas mulheres provavelmente procuraram seus médicos pedindo especificamente por eles.
E os médicos estavam prescrevendo mesmo sem diretrizes claras?
Exatamente. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas não tem diretrizes porque os medicamentos são muito novos. Então os médicos estão usando seu julgamento clínico — e aparentemente muitos decidiram que uma mãe acima do peso merecia a chance de emagrecer.
Mas o estudo dinamarquês não encontrou danos aos bebês, certo?
Não encontrou — mas isso não significa que não haja. Significa que ninguém estava procurando ativamente por danos, e os números de mulheres usando esses medicamentos durante a amamentação ainda são pequenos. Se um efeito colateral raro ocorrer, pode levar anos para ser detectado.
Qual é a preocupação mais concreta que os especialistas têm?
A desidratação e a desnutrição da mãe. Se você não sente fome, pode não comer o suficiente para manter seu próprio corpo funcionando e produzindo leite. É simples, mas potencialmente sério.
Então por que as mulheres estão usando esses medicamentos logo após o parto? Não é quando o corpo naturalmente perde peso?
Sim, mas nem sempre na velocidade ou quantidade que as mulheres querem. E há pressão — cultural, pessoal — para voltar ao corpo pré-gravidez rapidamente. Esses medicamentos prometem acelerar o processo. O problema é que o corpo pós-parto já está em um estado frágil, fazendo coisas que ainda não compreendemos completamente.