Prefeitura e Governo de SP concentravam 85% dos consignados do Banco Digimais

Potencial impacto em milhares de servidores públicos paulistas cujas folhas de pagamento estavam vinculadas a instituição financeira sob investigação por fraude.
Um banco sob investigação por fraude expandia sobre folhas públicas
Enquanto o Digimais acumulava sinais de deterioração financeira, concentrava sua estratégia de crescimento nas folhas de pagamento de São Paulo.

Prefeitura de SP respondia sozinha por 60% dos consignados do Digimais, enquanto Governo do Estado concentrava 25% da operação. Expansão do banco ocorreu em período de rebaixamentos de risco pela Moody's, questionamentos do Banco Central e investigação da Polícia Federal.

  • Prefeitura de SP: 60% dos consignados do Digimais; Governo do Estado: 25%
  • Investimentos em fundos alternativos: R$ 4,2 bilhões (42,6% dos ativos totais)
  • Ativos problemáticos: 16,6% da carteira em dezembro de 2025
  • Polícia Federal pediu bloqueio de aproximadamente R$ 670 milhões
  • Expansão ocorreu em 8 municípios paulistas, majoritariamente com prefeitos alinhados a Tarcísio

Prefeitura de São Paulo e Governo do Estado concentravam 85% da carteira de convênios do Banco Digimais, instituição ligada ao bispo Edir Macedo, justamente quando o banco acumulava sinais de deterioração financeira e investigações.

No início de 2026, enquanto o Banco Digimais acumulava sinais visíveis de deterioração financeira, a instituição ligada ao bispo Edir Macedo concentrava sua estratégia de expansão precisamente onde tinha mais força: nas folhas de pagamento de São Paulo. Documentos internos do próprio banco revelam que a Prefeitura da capital e o Governo do Estado respondiam juntos por 85% de toda a carteira de convênios de crédito consignado da instituição. A Prefeitura de São Paulo sozinha era responsável por 60% das operações, enquanto o Estado concentrava outros 25%. O restante da carteira — apenas 5% — estava distribuído entre outros credenciamentos.

Essa concentração não era acidental. Os documentos mostram que o Digimais havia revisado seu planejamento estratégico em 2025, decidindo priorizar o crédito consignado como linha de negócio central e buscando reduzir sua dependência do financiamento de veículos. O banco mantinha 69 convênios públicos e pretendia ultrapassar a marca de 100 ainda naquele ano. Na prática, porém, a aposta principal estava concentrada nos servidores paulistas — uma estratégia que colocava a instituição em posição de vulnerabilidade crescente.

Ao mesmo tempo que expandia suas operações sobre as folhas de pagamento públicas, o Digimais enfrentava uma cascata de sinais de alerta. Em abril de 2026, a agência de classificação de risco Moody's Local Brasil rebaixou os ratings da instituição e atribuiu perspectiva negativa. O relatório identificava que os investimentos em fundos alternativos haviam alcançado R$ 4,2 bilhões no fim de 2025 — equivalentes a 42,6% dos ativos totais e 5,4 vezes o patrimônio líquido do banco. O índice de Capital Nível I havia encerrado 2025 em 8%, abaixo do mínimo regulatório de 8,5%. Os chamados ativos problemáticos chegavam a 16,6% da carteira. A agência também registrou ressalvas da auditoria externa sobre R$ 3,1 bilhões em fundos de investimento mantidos pelo banco.

As preocupações do mercado foram acompanhadas pelos órgãos de supervisão. Uma representação da Polícia Federal à Justiça Federal sustenta que o Banco Central identificou indícios de inserção de elementos falsos em demonstrativos contábeis e operações vedadas entre o banco e seus controladores. A investigação menciona suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária. Um caso específico chama atenção: ativos ligados ao Hermon FIDC-NP foram registrados em aproximadamente R$ 741 milhões, embora o custo de aquisição dos papéis fosse estimado em cerca de R$ 71 milhões. O Banco Central determinou a correção dos registros, mas a investigação sustenta que operações posteriores com a controladora permitiram a manutenção dos valores nos demonstrativos. A Polícia Federal pediu o bloqueio de aproximadamente R$ 670 milhões.

A expansão do Digimais ocorreu majoritariamente em administrações comandadas por prefeitos alinhados ao governador Tarcísio de Freitas. Em São Sebastião, o instituto de previdência municipal assinou contrato com o banco em novembro de 2025, sob administração de Reinaldinho Moreira, que recebeu apoio de Tarcísio na campanha. Em Ubatuba, a prefeitura autorizou a atuação do banco sob gestão de Flávia Pascoal, aliada do governador. Pindamonhangaba, Tupã, Tambaú e Guarulhos também credenciaram a instituição. Praia Grande fez isso por meio de chamamento público. A reportagem não identificou documentos que indiquem participação direta do Palácio dos Bandeirantes nos credenciamentos municipais — as autorizações foram concedidas por cada administração local.

Quando questionados, o Governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo ofereceram respostas que minimizavam a exposição. O governo estadual afirmou que a atuação de instituições financeiras ocorre por meio de credenciamento público regulamentado, sem contratação direta ou seleção discricionária. Segundo o governo, o Digimais atendeu a todos os requisitos exigidos à época do credenciamento, incluindo as exigências regulatórias do Banco Central. A gestão estadual informou que a instituição representa apenas 1,57% do total das operações consignadas realizadas mensalmente pelo Estado em maio de 2026. A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, informou que o Digimais integra um rol de 57 instituições financeiras consignatárias cadastradas e que responde por menos de 3% das consignações em folha de pagamento dos servidores públicos da capital.

Mas os números do próprio banco contam história diferente. Enquanto as administrações públicas minimizam a participação do Digimais em suas operações totais, os documentos internos da instituição mostram que ela dependia fundamentalmente do funcionalismo paulista para sua estratégia de crescimento. A questão central que permanece sem resposta é simples e incômoda: quais critérios de análise financeira e de risco foram adotados pela Prefeitura de São Paulo, pelo Governo do Estado e pelas administrações municipais paulistas antes de permitir que uma instituição financeira sob investigação por fraude ampliasse sua atuação sobre as folhas de pagamento de milhares de servidores públicos?

O Banco Central identificou indícios de inserção de elementos falsos em demonstrativos contábeis e operações vedadas entre o banco e seus controladores
— Representação da Polícia Federal à Justiça Federal
O Digimais atendeu a todos os requisitos exigidos à época do credenciamento, incluindo as exigências regulatórias perante o Banco Central
— Governo do Estado de São Paulo
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o Digimais concentrou tanto sua operação em São Paulo, especificamente?

Model

Porque o banco estava mudando sua estratégia de negócios. Ele precisava sair do financiamento de veículos e encontrar uma nova fonte de receita. O consignado público oferecia algo que parecia atrativo: uma carteira de clientes com renda garantida e descontos automáticos em folha. São Paulo era o maior mercado disponível.

Inventor

Mas isso não era arriscado? O banco estava claramente frágil.

Model

Extremamente arriscado. Os documentos mostram que enquanto o Digimais expandia seus convênios, a Moody's já rebaixava sua classificação, o Banco Central questionava suas operações e havia indícios de fraude nos registros contábeis. O timing é o que torna tudo suspeito.

Inventor

As prefeituras e o governo estadual não tinham acesso a essas informações?

Model

Essa é a pergunta que ninguém consegue responder. Os órgãos públicos afirmam que o banco atendeu aos requisitos regulatórios na época do credenciamento. Mas não está claro se fizeram análise de risco independente ou se simplesmente verificaram se o banco tinha licença do Banco Central.

Inventor

E os servidores públicos? Eles estavam em risco?

Model

Potencialmente, sim. Milhares de servidores tinham descontos automáticos em folha vinculados a um banco que estava sendo investigado por fraude. Se o Digimais tivesse quebrado, haveria questões complexas sobre quem arcaria com as perdas.

Inventor

As administrações públicas reconhecem alguma responsabilidade?

Model

Não. Elas minimizam a exposição — o Estado diz que o Digimais representa 1,57% das operações, a Prefeitura diz que é menos de 3%. Mas os documentos internos do banco mostram que ele dependia de São Paulo para sobreviver. São números que não conversam um com o outro.

Inventor

O que isso sugere sobre como o setor público avalia risco financeiro?

Model

Sugere que talvez não avalie. Ou avalia de forma superficial. Um banco com 42,6% dos ativos em fundos alternativos, com índices de capital abaixo do mínimo regulatório e sob investigação federal não deveria estar expandindo operações sobre folhas de pagamento públicas. Mas estava.

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