Etanol a R$ 2,86 enquanto gasolina sobe para R$ 4,85
Em Belo Horizonte, o etanol chegou a R$ 2,86 o litro no início de 2024, atingindo uma paridade de 58,9% em relação à gasolina — bem abaixo do limiar de 70% que torna o combustível de cana vantajoso para o motorista flex. Por trás dessa queda está uma abundância histórica: estoques recordes nas usinas, impulsionados por uma colheita que não arrefeceu nem na entressafra. O que começa nas bombas de combustível reverbera na inflação, nos juros e no ar que se respira — lembrando que as escolhas cotidianas de consumo raramente ficam contidas apenas no momento em que o tanque é cheio.
- Filas se formaram em postos da avenida Tereza Cristina quando motoristas perceberam que o etanol estava quase dois reais mais barato que a gasolina.
- A paridade de 58,9% quebra o teto psicológico de 70% com folga, tornando a troca de combustível uma decisão econômica óbvia para quem tem carro flex.
- Estoques recordes nas usinas — produção 39,9% acima do mesmo período de 2023 — sustentam a oferta mesmo em plena entressafra, impedindo a alta sazonal esperada.
- A queda nos combustíveis pressiona a inflação para baixo, pode abrir espaço para redução de juros e melhora a lucratividade de motoristas de aplicativo.
- A tendência já se espalha por nove estados brasileiros e deve persistir ao longo do primeiro semestre de 2024, enquanto a paridade se mantiver favorável.
Quem abasteceu em Belo Horizonte nesta semana encontrou uma raridade: etanol a R$ 2,86 o litro em um posto da avenida Tereza Cristina, enquanto a gasolina chegava a R$ 4,85. Postos vizinhos praticavam preços semelhantes, e as filas não tardaram. Uma semana antes, a média na cidade era de R$ 3,35 para o etanol e R$ 5,34 para a gasolina — a queda foi rápida e perceptível.
O número que orienta essa decisão é conhecido pelos economistas: o etanol compensa quando custa até 70% do preço da gasolina. Com a paridade em 58,9%, a vantagem é inequívoca para motoristas de carros flex. Gelton Pinto Coelho, economista do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais, explica que, quando o etanol entra nessa faixa, mais motoristas migram para ele — o que, por sua vez, pressiona a gasolina para baixo, já que as refinarias precisam escoar o excedente. Some-se a isso o fato de que a gasolina vendida nos postos já contém 30% de etanol em sua composição.
As consequências vão além do bolso imediato. Combustíveis mais baratos estimulam viagens, beneficiam o turismo e melhoram a margem de motoristas de aplicativo. No plano macroeconômico, a queda tende a reduzir a inflação e pode abrir caminho para juros menores. Há ainda um ganho ambiental: maior demanda por etanol significa menos dióxido de carbono emitido.
A explicação para tanta oferta está nos campos de cana. Um relatório do Itaú BBA apontou estoques recordes desde o fim de 2023 — o clima seco, que normalmente freia a colheita, não impediu a produção de avançar. Na segunda quinzena de novembro, as usinas produziram 1,2 milhão de metros cúbicos de etanol, alta de 39,9% sobre o mesmo período do ano anterior. A entressafra chegou, mas a redução esperada na oferta não se materializou com a força prevista.
A tendência deve se manter nos próximos meses. A paridade favorável já é realidade em nove estados brasileiros, e enquanto os estoques sustentarem a oferta, o consumidor pode esperar mais semanas de abastecimento econômico — e a economia mais ampla, um alívio que pode se estender por todo o primeiro semestre de 2024.
Quem abasteceu em Belo Horizonte nesta semana encontrou uma oportunidade rara: o etanol saiu mais barato que a gasolina, e pela primeira vez em meses, significativamente mais barato. Em um posto na avenida Tereza Cristina, no bairro Padre Eustáquio, o álcool estava sendo vendido a R$ 2,86 o litro, enquanto a gasolina alcançava R$ 4,85. A diferença foi suficiente para criar filas na hora de abastecer. Postos vizinhos na mesma avenida ofereciam preços semelhantes: etanol a R$ 3,19 e gasolina a R$ 5,09. Uma semana antes, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, a média em Belo Horizonte era bem mais alta — R$ 3,35 para o etanol e R$ 5,34 para a gasolina.
O que torna essa queda relevante é um número que economistas usam para orientar decisões de consumo: o etanol fica vantajoso quando seu preço não ultrapassa 70% do valor da gasolina. Naquele posto da Tereza Cristina, a paridade chegou a 58,9%, bem abaixo do limite. Isso significa que motoristas com carros flex — aqueles que rodam com os dois combustíveis — estão economizando de verdade. A vantagem não é nova para Belo Horizonte. O etanol encerrou 2023 com preço médio de R$ 3,36, enquanto a gasolina comum fechou em R$ 5,35, uma relação de 62,8%. Mas agora, no começo de 2024, a diferença ficou ainda mais pronunciada.
Gelton Pinto Coelho, economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais, explica que a faixa de 70% é uma convenção estabelecida no mercado, embora possa variar conforme o desempenho do veículo e o estilo de direção de cada motorista. "Mas não foge muito de uma porcentagem entre 65% e 73%", afirma. Quando o etanol fica nessa faixa, mais motoristas migram para ele, aumentando a demanda. Esse movimento, por sua vez, pressiona a gasolina para baixo — afinal, as refinarias precisam vender o combustível que sobra. Há ainda um segundo fator: a gasolina que chega às bombas contém 30% de etanol em sua composição, o que também contribui para a queda de preço.
As consequências dessa redução vão além do bolso do motorista. Coelho aponta que combustíveis mais baratos incentivam as pessoas a "tirar o carro da garagem", o que beneficia o turismo e as viagens de fim de semana. Para motoristas de aplicativo — aqueles que usam o veículo como ferramenta de trabalho — a economia pode significar melhora real na lucratividade. Em termos macroeconômicos, a queda nos preços dos combustíveis tende a reduzir a inflação geral, o que eventualmente pode levar a uma redução nos juros. Há ainda uma dimensão ambiental: o etanol produz menos dióxido de carbono que a gasolina, então uma maior demanda pelo combustível de cana-de-açúcar significa menos poluição do ar.
Mas por que o etanol está tão barato agora? A resposta está nos campos de cana-de-açúcar e nos tanques de armazenamento das usinas. Um relatório do Itaú BBA divulgado em dezembro de 2023 apontou que estoques recordes de etanol estão pressionando os preços para baixo desde o final do ano anterior. Normalmente, quando chega a estação seca e o clima fica menos favorável, a colheita de cana diminui. Mas desta vez não foi assim. O clima mais seco não impediu a colheita de continuar em ritmo alto, e os estoques atingiram patamares históricos para o período até o fim de novembro.
Os números da produção refletem essa abundância. Na segunda quinzena de novembro, as usinas produziram 1,2 milhão de metros cúbicos de etanol — um aumento de 39,9% comparado com o mesmo período do ano anterior. As saídas de etanol hidratado das usinas cresceram 27,2% em novembro em relação a novembro de 2022. Estamos agora em período de entressafra, que vai de novembro ou dezembro até março ou abril, quando normalmente a oferta cai. Mas a redução esperada não está acontecendo com a força que se previa. Com maior oferta disponível, o preço cai, a demanda sobe, e o ciclo se reforça.
A tendência deve continuar nos próximos meses. A estimativa é que a demanda pelo etanol permaneça forte enquanto a paridade com a gasolina se mantiver abaixo dos 70% — algo que já está acontecendo em nove estados brasileiros. Para o consumidor, significa que as próximas semanas podem trazer mais oportunidades de abastecimento econômico. Para a economia mais ampla, significa pressão sobre a inflação, possível redução de juros, e um estímulo ao consumo que pode se estender por todo o primeiro semestre.
Citações Notáveis
Essa vantagem leva um volume maior de motoristas a buscar etanol em vez de gasolina, o que também explica a queda de preço da gasolina, que acaba pressionada— Gelton Pinto Coelho, economista e conselheiro do Corecon-MG
Quando a gente aumenta o consumo de etanol, a gente diminui a poluição do ar— Gelton Pinto Coelho
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o etanol ficou tão mais barato agora, de repente?
Não foi de repente, na verdade. Os estoques vinham acumulando desde o fim de 2023 porque a colheita de cana continuou forte mesmo quando deveria ter desacelerado. O clima seco não freou a produção como esperado, e agora temos uma quantidade recorde de etanol nos tanques das usinas.
E isso pressiona o preço para baixo?
Exatamente. Quando você tem muito produto e precisa vender, o preço cai. É oferta e demanda. Mas aqui há um detalhe importante: quanto mais barato fica o etanol, mais gente com carro flex muda para ele, o que aumenta a demanda e, paradoxalmente, ajuda a estabilizar o preço.
Qual é o número mágico que faz um motorista escolher etanol em vez de gasolina?
Quando o etanol custa até 70% do preço da gasolina. Agora em alguns postos de Belo Horizonte está em 58,9%, bem abaixo disso. É uma convenção que os economistas usam, mas funciona porque leva em conta tanto o preço quanto o desempenho do carro.
Isso afeta só quem abastece, ou tem impacto maior?
Tem impacto maior. Combustível mais barato reduz a inflação, pode levar a juros menores, incentiva turismo e viagens. Para quem trabalha com carro — motorista de aplicativo, por exemplo — melhora a lucratividade. E há ainda o lado ambiental: etanol produz menos carbono.
Quanto tempo isso vai durar?
Enquanto a paridade ficar abaixo de 70%, a demanda deve permanecer forte. Estamos em período de entressafra, que vai até março ou abril, e a expectativa é que essa vantagem se mantenha nos principais estados consumidores. Mas tudo depende de como a produção evolui nos próximos meses.