Etanol a R$ 2,86 faz filas nas bombas de Belo Horizonte
Etanol está 41% mais barato que gasolina em alguns postos de BH, incentivando motoristas a escolher o combustível derivado da cana-de-açúcar. Colheita de cana-de-açúcar manteve-se alta mesmo em período de baixa, gerando estoques recordes que pressionam preços para baixo desde dezembro.
- Etanol encontrado a R$ 2,86 em posto de BH, paridade de 58,9% com gasolina
- Produção de etanol atingiu 1,2 milhão de metros cúbicos na 2ª quinzena de novembro, alta de 39,9%
- Estoques de etanol marcaram recorde histórico até fim de novembro de 2023
- Etanol é vantajoso quando custa até 70% do preço da gasolina
Etanol é encontrado a R$ 2,86 em Belo Horizonte, com paridade de 58,9% em relação à gasolina. Estoques recordes de cana-de-açúcar pressionam preços para baixo desde fim de 2023.
Na terça-feira 16 de janeiro, quem abastecia na avenida Tereza Cristina, região do Padre Eustáquio em Belo Horizonte, encontrava o litro do etanol a R$ 2,86 — um preço que fez filas se formarem nos postos durante a tarde. Na mesma via, outros estabelecimentos praticavam valores semelhantes: etanol a R$ 3,19 e gasolina a R$ 5,09. Esses números contam uma história que vai além do simples alívio na bomba. Eles revelam uma inversão nos cálculos do motorista que tem opção de escolha.
Para quem pode escolher entre os dois combustíveis, o etanol nunca esteve tão vantajoso. Com o preço de R$ 2,86 no posto da avenida Tereza Cristina e gasolina a R$ 4,85, a relação de paridade ficou em 58,9% — ou seja, o etanol custava menos de 59% do preço da gasolina. Essa vantagem não é nova em Belo Horizonte. O ano de 2023 terminou com o etanol em média a R$ 3,36 e a gasolina comum a R$ 5,35, uma relação de 62,8%. Mas agora, no início de 2024, a margem se ampliou ainda mais.
Segundo especialistas, o etanol se torna economicamente superior quando seu preço fica abaixo de 70% do valor da gasolina — um patamar que considera tanto o custo quanto o desempenho do veículo. Gelton Pinto Coelho, economista e conselheiro efetivo do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais, explica que essa proporção é uma convenção estabelecida, embora varie conforme o carro e o estilo de direção de cada motorista. "Mas não foge muito de uma porcentagem entre 65% e 73%", afirma. Com o etanol em 58,9%, Belo Horizonte está bem dentro dessa faixa de vantagem.
O aumento na procura por etanol tem efeitos em cascata. Mais motoristas escolhendo o combustível de cana-de-açúcar pressiona a gasolina para baixo — um movimento que Gelton identifica como parte da dinâmica de mercado. Há ainda um segundo fator: a gasolina que chega às bombas contém 30% de etanol em sua composição, o que também contribui para a queda de preço. Para o economista, essa combinação de fatores cria oportunidades reais. "Isso é muito vantajoso para o consumidor, essa queda já permite, por exemplo, pensar numa viagem no fim de semana, algo que incrementa o turismo", diz. Motoristas de aplicativo, em particular, podem ver melhorias na lucratividade quando o custo do combustível cai.
Mas por que o etanol está tão barato? Um relatório do Itaú BBA divulgado em dezembro de 2023 aponta para estoques recordes de etanol pressionando os preços para baixo desde o fim do ano anterior. A colheita de cana-de-açúcar manteve ritmo acelerado mesmo durante um período que normalmente registra queda na produção. Com o clima mais seco, as usinas continuaram processando cana em volume alto. Os estoques até o fim de novembro marcaram recorde histórico para aquela época do ano. Na segunda quinzena de novembro, a produção total de etanol atingiu 1,2 milhão de metros cúbicos — uma alta de 39,9% comparada ao mesmo período do ano anterior. As saídas de etanol hidratado das usinas aumentaram 27,2% em novembro em relação a novembro de 2022.
O período de entressafra, que vai de novembro/dezembro a março/abril, normalmente traz redução mais forte da oferta. Mas neste momento, com estoques ainda abundantes, essa redução não está acontecendo com a intensidade esperada. A maior oferta mantém o etanol em preços atrativos, o que por sua vez aumenta a demanda — um ciclo que se reforça. Dados mostram que a paridade abaixo dos 70% já é realidade em nove estados, e a expectativa é que a demanda continue fortalecida durante o período de entressafra nos principais estados consumidores.
Gelton prevê que essa queda nos preços dos combustíveis terá impactos positivos mais amplos na economia. A redução pode afetar a inflação e, consequentemente, abrir caminho para queda futura dos juros. Há ainda uma dimensão ambiental: quando o consumo de etanol aumenta, a poluição do ar diminui. O etanol gera menos dióxido de carbono que a gasolina. Para o motorista que abastecia na avenida Tereza Cristina naquela terça-feira, porém, o cálculo era mais imediato: quanto menos gastar na bomba, mais sobra no bolso.
Citações Notáveis
Essa queda já permite, por exemplo, pensar numa viagem no fim de semana, algo que incrementa o turismo— Gelton Pinto Coelho, economista e conselheiro do Corecon
Quando a gente aumenta o consumo de etanol, a gente diminui a poluição do ar— Gelton Pinto Coelho
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o etanol ficou tão mais barato que a gasolina agora?
Estoques recordes. A colheita de cana continuou forte mesmo quando deveria ter caído, e agora as usinas têm muito etanol acumulado. Isso pressiona o preço para baixo.
E isso vai durar?
Provavelmente não. Estamos entrando na entressafra, quando a oferta normalmente cai. Mas por enquanto, com estoques altos, o preço continua atrativo.
Quem se beneficia mais com isso?
Quem dirige muito — motoristas de aplicativo, por exemplo. Mas também o turismo, porque combustível mais barato incentiva as pessoas a sair de casa. E há o lado ambiental: mais etanol significa menos emissão de carbono.
Isso afeta a economia além do combustível?
Sim. Preços mais baixos podem impactar a inflação e, eventualmente, os juros. É um efeito que se espalha.
Então é bom para todo mundo?
Para o consumidor, claramente. Para as usinas de etanol, menos — elas estão com estoques altos e preços caindo. É um equilíbrio tenso.