A política certa não é bloquear os imigrantes, mas redistribuir os ganhos
No Porto, o economista Nouriel Roubini — conhecido por ter antecipado a crise financeira de 2008 — defendeu que Portugal não deve fechar as portas aos nómadas digitais, mas sim usar a tributação como instrumento de justiça distributiva. A sua tese reconhece que a chegada de talento estrangeiro gera riqueza e conhecimento, mas que essa mesma riqueza pressiona os mais vulneráveis, nomeadamente os jovens sem acesso à habitação. Entre o isolacionismo e o capitalismo desregulado, Roubini propõe um caminho do meio: atrair, tributar os ganhos e redistribuir — uma equação simples que exige, acima de tudo, vontade política.
- Portugal tornou-se um ímã para nómadas digitais durante a pandemia, e os benefícios económicos são reais — mas os custos sociais acumulam-se silenciosamente nos bairros e nas rendas.
- Os jovens portugueses veem-se cada vez mais afastados do mercado habitacional, espremidos entre salários estagnados e preços que sobem ao ritmo do poder de compra estrangeiro.
- Roubini rejeita a tentação do fecho de fronteiras, argumentando que sacrificar capital humano para evitar desconforto imediato é um erro estratégico de consequências duradouras.
- A proposta do economista é cirúrgica: aplicar impostos sobre os ganhos de capital gerados pela valorização imobiliária e canalizar esses recursos para as populações locais pressionadas.
- A questão que paira sobre o debate é se Portugal tem a coragem política de desenhar um sistema fiscal que redistribua sem afugentar precisamente o talento que pretende atrair.
Nouriel Roubini, o economista que previu o colapso de 2008, subiu ao palco do QSP Summit no Porto com uma mensagem que recusa os extremos: Portugal não deve fechar as portas aos nómadas digitais, mas também não pode ignorar o preço que os mais vulneráveis pagam pela sua chegada.
A lógica que apresenta é clara. Durante a pandemia, Portugal tornou-se um destino de eleição para trabalhadores remotos de todo o mundo, atraídos pela qualidade de vida, pelo custo relativamente baixo e por um ambiente regulatório favorável. Esses nómadas trouxeram consigo capital humano, conhecimento técnico e capacidade de gerar rendimento — um ganho líquido para uma economia como a portuguesa, segundo Roubini.
Mas o economista não desvia o olhar do lado incómodo da equação. Quando milhares de pessoas com elevado poder de compra chegam a um mercado imobiliário já sob pressão, as rendas disparam e os jovens locais — que já lutavam para entrar no mercado habitacional — veem-se ainda mais afastados. Estes são efeitos reais, e Roubini reconhece-os sem hesitação.
O que rejeita, porém, é a resposta fácil: impor restrições e dizer não aos nómadas digitais. Na sua visão, isso sacrificaria ganhos de longo prazo para evitar desconforto imediato. Em alternativa, propõe um mecanismo de compensação: atrair o talento, aplicar impostos sobre os ganhos de capital gerados pela valorização imobiliária e redistribuir esses recursos pelas populações locais pressionadas — jovens sem casa, famílias com rendas a disparar, comunidades a sentir a pressão sobre recursos escassos.
É uma proposta que navega entre o isolacionismo económico e o capitalismo desregulado. Roubini acredita que Portugal pode ter o dinamismo dos nómadas digitais e a proteção das suas próprias populações — mas apenas se tiver a coragem política de usar a tributação como ferramenta de redistribuição. A questão que fica em aberto é se o país consegue desenhar esse equilíbrio sem afugentar precisamente quem quer atrair.
Nouriel Roubini, o economista que antecipou o colapso financeiro de 2008, tem uma mensagem clara para Portugal: não feche as portas aos nómadas digitais, mas prepare-se para gerir as consequências que eles trazem. Falando na abertura da 19.ª edição do QSP Summit no Porto, Roubini defendeu uma abordagem que equilibra atração com redistribuição — acolher o talento estrangeiro enquanto usa a tributação para proteger quem fica para trás.
A lógica é simples, segundo o economista. Durante a pandemia, Portugal tornou-se um destino magnético para trabalhadores remotos de todo o mundo. O país oferecia o que procuravam: qualidade de vida razoável, custo de vida baixo, e um ambiente regulatório que não criava obstáculos. Esses nómadas não vieram apenas para ficar — trouxeram consigo capital humano concentrado, conhecimento técnico, e a capacidade de gerar rendimento e oportunidades económicas. Roubini sublinha que esses talentos criam empregos, geram receita, transferem tecnologia. Para uma economia como a portuguesa, a atração deste tipo de população é, em princípio, um ganho líquido.
Mas Roubini não ignora o lado mais incómodo da história. Quando dezenas de milhares de pessoas com poder de compra chegam a um mercado imobiliário já tenso, os preços sobem. As rendas disparam. Os imóveis tornam-se mais caros. Os jovens locais, que já lutavam para entrar no mercado habitacional, veem-se ainda mais afastados. A pressão sobre serviços públicos aumenta. Estes são efeitos reais, e Roubini reconhece-os sem hesitação.
O que o economista rejeita, porém, é a resposta fácil: fechar as fronteiras, impor restrições à imigração, dizer não aos nómadas digitais. Essa abordagem, na sua visão, sacrifica ganhos económicos de longo prazo para evitar desconforto de curto prazo. Os proprietários de casas, afinal, estão a beneficiar de ganhos de capital significativos. A economia está a crescer. O conhecimento está a fluir. Bloquear isso seria um erro estratégico.
Em vez disso, Roubini propõe um mecanismo de compensação. Atraia os nómadas digitais — sim. Mas quando eles chegarem e os preços subirem, aplique impostos sobre esses ganhos. Depois, redistribua esse dinheiro para as populações locais que estão a ser deixadas para trás. Jovens que não conseguem comprar casa. Famílias que veem as rendas a disparar. Comunidades que sentem a pressão sobre recursos limitados. A solução não é rejeitar o progresso; é garantir que o progresso não deixa ninguém completamente para trás.
É uma proposta que tenta navegar entre dois extremos: nem isolacionismo económico, nem capitalismo desregulado que ignora os perdedores. Roubini está a dizer que Portugal pode ter ambas as coisas — o dinamismo e o capital humano dos nómadas digitais, e a proteção das suas próprias populações — mas apenas se tiver a coragem política de usar a tributação como ferramenta de redistribuição. A questão que fica é se o país tem essa coragem, e se consegue desenhar impostos que não afastem precisamente o tipo de talento que Roubini quer que chegue.
Citações Notáveis
É preciso atraí-los e, se há consequências, aplicam-se impostos e redistribui-se o dinheiro para aqueles que estão a ser deixados para trás— Nouriel Roubini
Esses talentos vão criar empregos, vão criar rendimento, vão criar oportunidades económicas, vão transferir tecnologias— Nouriel Roubini
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Roubini está a dizer que os nómadas digitais são bons para a economia, mas reconhece que prejudicam os jovens locais. Como é que isso não é uma contradição?
Não é contradição se acredita que o problema não é a chegada dos nómadas, mas a falta de resposta política. Os ganhos económicos são reais — empregos, tecnologia, receita. O problema é que esses ganhos não estão a ser redistribuídos. Se fossem, deixava de haver contradição.
Mas os impostos podem afastar exatamente os nómadas que Portugal quer atrair. Se cobrar impostos altos, eles vão para Espanha ou para a Grécia.
Esse é o risco real. Roubini não está a dizer que a solução é simples. Está a dizer que é necessária. O desafio é desenhar impostos que sejam justos sem serem punitivos — talvez impostos sobre ganhos imobiliários, não sobre rendimento de trabalho.
E quem fica com o dinheiro desses impostos? Como é que se garante que vai para os jovens que não conseguem comprar casa?
Essa é a pergunta política, não económica. Roubini está a dizer que o mecanismo existe — impostos e redistribuição. Como é que se implementa, para onde vai o dinheiro, isso depende de decisões políticas que Portugal ainda não tomou.
Então, na prática, Roubini está a dizer que Portugal pode ter tudo — nómadas digitais e proteção social — mas só se for muito inteligente na forma como o faz.
Exatamente. E está a dizer que rejeitar os nómadas não é inteligência, é capitulação. A inteligência é acolhê-los e depois gerir os efeitos colaterais com política fiscal.