O Estado terminará arcando com custos que deveriam ser responsabilidade do setor privado
Porto privado de R$ 6,5 bilhões seria financiado por iniciativa privada, mas exigiria vultosos aportes públicos em rodovias como Rota do Sol e BR-101. Projeto pode alterar dinâmica costeira, provocar erosão em praias e prejudicar economia do turismo em municípios vizinhos como Capão da Canoa e Tramandaí.
- Porto Meridional orçado em R$ 6,5 bilhões, liderado pela DTA Engenharia
- Primeira audiência em Arroio do Sal reuniu mais de 600 pessoas
- Ampliações necessárias em Rota do Sol, BR-101 e Estrada do Mar
- Risco de erosão costeira em Capão da Canoa e Tramandaí
- Ibama decidirá sobre emissão da Licença Prévia com base nas manifestações coletadas
Pesquisador da UFRGS critica projeto de porto privado de R$ 6,5 bilhões, alertando que exigirá massivos investimentos públicos em infraestrutura rodoviária e apresenta riscos de erosão costeira.
Porto Alegre recebeu na semana passada a segunda rodada de audiências públicas sobre o licenciamento ambiental do Porto Meridional, um terminal portuário privado planejado para Arroio do Sal, no Litoral Norte gaúcho. O encontro, realizado pelo Ibama no Grêmio Náutico União, reuniu especialistas, representantes do governo e cidadãos interessados na questão. A primeira etapa de consultas, realizada em Arroio do Sal, havia atraído mais de 600 pessoas — um sinal claro de que o projeto desperta preocupações profundas na região.
O empreendimento, orçado em R$ 6,5 bilhões e liderado pela DTA Engenharia, apresenta-se como uma iniciativa totalmente financiada pela iniciativa privada. Mas essa narrativa, segundo Jefferson Cardia Simões, professor da UFRGS e membro da Academia Brasileira de Ciências, esconde uma realidade bem diferente. Durante as audiências, Simões caracterizou o projeto como um "engodo do investimento privado" — uma frase que resume sua preocupação central: o Estado terminará arcando com custos enormes que deveriam ser responsabilidade do setor privado.
O cálculo é simples, mas suas implicações são vastas. O volume de cargas que o porto movimentaria exigiria ampliações e adequações significativas em rodovias estratégicas para o escoamento de mercadorias. A Rota do Sol, a BR-101 e a Estrada do Mar teriam de ser expandidas e modernizadas para comportar o tráfego adicional. Simões argumenta que esses custos de infraestrutura — potencialmente bilionários — acabariam sendo transferidos aos cofres públicos, transformando um projeto supostamente privado em um subsídio disfarçado ao setor privado.
Mas o custo financeiro é apenas parte da história. Simões também levantou bandeiras vermelhas sobre os riscos ambientais de uma estrutura dessa magnitude em mar aberto. A construção pode interferir no transporte natural de sedimentos marinhos, alterando a dinâmica costeira de forma permanente. Isso, por sua vez, pode provocar erosão severa em praias situadas ao norte do empreendimento — um risco que não é teórico, mas concreto e documentado em casos similares ao redor do mundo. Os municípios vizinhos, como Capão da Canoa e Tramandaí, dependem economicamente do turismo de verão. Se as praias forem alteradas pela erosão, a economia dessas cidades sofrerá impactos diretos e duradouros.
O pesquisador não se limitou a criticar. Ofereceu uma alternativa que, em sua avaliação, seria mais inteligente para o Rio Grande do Sul. Em vez de construir um novo porto em um local ambientalmente sensível, o estado deveria investir na ampliação e modernização do Porto de Rio Grande, que já existe e já possui infraestrutura. Complementar isso com o fortalecimento da malha ferroviária gaúcha geraria menor impacto ambiental e, paradoxalmente, economizaria dinheiro público — o oposto do que o Porto Meridional promete.
Agora o processo segue seu curso institucional. O Ibama coletou as manifestações apresentadas nas audiências públicas e as incorporará ao processo oficial de licenciamento ambiental. Essas contribuições subsidiarão a decisão do órgão sobre a emissão ou negação da Licença Prévia, o documento que autoriza o início das obras. A decisão não é trivial: ela determinará se um projeto de R$ 6,5 bilhões avança ou é barrado. Mais importante ainda, ela sinalizará se o Brasil está disposto a questionar a narrativa de que investimento privado é sempre benéfico, ou se está começando a exigir que os custos reais — ambientais e financeiros — sejam contabilizados antes que o primeiro prego seja pregado.
Notable Quotes
O projeto foi caracterizado como um 'engodo do investimento privado' porque o Estado terminaria arcando com custos de infraestrutura rodoviária que deveriam ser responsabilidade do setor privado— Jefferson Cardia Simões, professor da UFRGS e membro da Academia Brasileira de Ciências
O Rio Grande do Sul deveria priorizar a ampliação do Porto de Rio Grande e o fortalecimento da malha ferroviária, gerando menor impacto ambiental e otimizando os cofres públicos— Jefferson Cardia Simões
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um projeto privado de R$ 6,5 bilhões precisaria de investimento público em rodovias?
Porque o porto não funciona isolado. As mercadorias precisam chegar até lá e sair de lá. As estradas existentes não têm capacidade para o volume de tráfego que o terminal geraria. Então o Estado teria de pagar para ampliá-las.
Mas isso não é responsabilidade da empresa que está construindo o porto?
Teoricamente, sim. Mas na prática, a empresa diz que o porto é viável economicamente apenas se o Estado fizer os investimentos em infraestrutura. É um jogo de pressão: ou o público paga, ou o projeto não sai do papel.
E quanto aos riscos ambientais? Parecem reais?
Muito reais. Uma estrutura desse tamanho em mar aberto interfere no movimento natural de sedimentos. Isso pode causar erosão em praias próximas. Não é especulação — é física costeira bem conhecida.
Quem sofre com essa erosão?
As cidades vizinhas que vivem do turismo. Capão da Canoa, Tramandaí — elas dependem das praias para atrair visitantes. Se as praias desaparecerem, a economia local desaba.
Qual é a alternativa que o cientista propõe?
Modernizar o Porto de Rio Grande, que já existe, e investir em ferrovias. Menos impacto ambiental, menos custo público, mesmos resultados econômicos.
E agora, o que acontece?
O Ibama vai analisar tudo que foi dito nas audiências e decidir se emite a Licença Prévia. Essa decisão é tudo — sem ela, o porto não sai do papel.