Vou esperar, sem estresse — comentou a paciente de 75 anos
Dois dias após um temporal castigar Porto Alegre, onze unidades de saúde da cidade ainda permaneciam sem energia elétrica, enquanto o Centro de Saúde Modelo operava em meia fase — símbolo de uma recuperação incompleta que forçou pacientes a adiar tratamentos, percorrer outros bairros ou simplesmente esperar. É o momento em que a fragilidade da infraestrutura urbana se revela não em colapsos dramáticos, mas na soma silenciosa de pequenas privações: a vacina que não foi dada, o exame que não pôde ser solicitado, a jornada de ônibus que não deveria ser necessária. Com novo alerta de tempestade emitido para a mesma semana, a cidade se vê diante de uma pergunta que transcende a meteorologia: quanto tempo leva para um sistema essencial se recompor antes que a próxima adversidade chegue?
- Um temporal de segunda-feira deixou rastro direto na saúde pública: 34 unidades sem energia na terça, ainda 11 na quarta-feira, com atendimentos severamente limitados em toda a capital gaúcha.
- No Centro de Saúde Modelo, a energia voltou pela metade — suficiente para receber pacientes com agendamento em papel, insuficiente para acessar sistemas informatizados, emitir encaminhamentos ou realizar exames.
- A vacinação foi completamente suspensa e os imunizantes retirados do prédio para evitar deterioração, deixando pacientes como uma idosa de 75 anos sem conseguir tomar as doses de covid e gripe que haviam planejado.
- Pacientes reorganizaram suas rotinas ao redor do problema: alguns adiaram o que não era urgente, outros enfrentaram trajetos extras pela cidade em busca de unidades funcionando normalmente.
- Um novo alerta de tempestade foi emitido para a quarta-feira, lançando dúvida sobre se a infraestrutura de saúde conseguiria se recuperar completamente antes de ser novamente testada.
Na manhã de quarta-feira, dois dias após um temporal devastar Porto Alegre, o Centro de Saúde Modelo no bairro Santana ainda carregava as marcas da tempestade. A energia funcionava em meia fase — nem restaurada, nem ausente —, permitindo apenas uma fração dos serviços habituais. A Secretaria Municipal de Saúde confirmou que outras 11 unidades da capital estavam completamente sem luz, com restrições severas no atendimento. Na terça-feira, o número havia sido ainda maior: 34 unidades afetadas.
A coordenadora do centro, enfermeira Silvia Corrêa, explicou que a energia havia retornado na noite anterior, quando o prédio estava fechado. Os atendimentos recomeçaram às 8 horas, mas com uma limitação central: tudo que dependia de sistemas informatizados — encaminhamentos, solicitações de exame — estava suspenso. Consultas agendadas podiam acontecer, desde que o paciente trouxesse o comprovante em papel.
A vacinação foi completamente interrompida. Os imunizantes foram retirados do prédio para preservá-los da falta de refrigeração. Jurema de Freitas Martini, 75 anos, havia planejado tomar as vacinas da covid e da gripe naquele dia. Aceitou a situação com resignação — culpava o temporal, não a unidade. Também estava sem água em casa. Esperaria, disse, sem estresse.
Outros pacientes precisaram se mover. Denise Antoni, 59 anos, aposentada, foi ao centro buscar um formulário de solicitação de exame e partiu de ônibus para outra unidade, no bairro Santa Marta, na esperança de conseguir o documento lá. Regina Capitani, 67 anos, foi marcar consulta para investigar deficiência de vitamina D; ao saber que o sistema estava fora, decidiu simplesmente voltar quando as coisas normalizassem.
O que se desenhava era um sistema ferido e uma população se reorganizando ao redor dessa ferida — sem pânico, mas contornando um problema que não era de sua responsabilidade. Com novo alerta de tempestade emitido para aquela mesma quarta-feira, a pergunta que pairava era se a infraestrutura de saúde conseguiria se recuperar antes que a próxima tempestade chegasse.
Na manhã de quarta-feira, dois dias depois que um temporal devastou Porto Alegre, o Centro de Saúde Modelo no bairro Santana ainda lutava contra as consequências da tempestade. A energia elétrica do prédio funcionava em meia fase — nem completamente restaurada, nem totalmente ausente — o que significava que apenas alguns serviços podiam funcionar. Quando um repórter chegou por volta das 9 da manhã, a unidade estava atendendo pacientes, mas de forma limitada, como quem tenta cozinhar com um queimador só da geladeira ligado.
O problema se estendia muito além daquele endereço. A Secretaria Municipal de Saúde confirmou que outras 11 unidades de saúde em Porto Alegre estavam completamente sem energia, todas com restrições severas no atendimento. Dois dias antes, na terça-feira, o número era ainda pior: 34 unidades enfrentavam o mesmo problema. A recuperação estava acontecendo, mas lentamente.
Silvia Corrêa, enfermeira e coordenadora do Centro de Saúde Modelo, explicou a situação com clareza prática. A energia havia voltado na noite de terça-feira, quando o prédio estava fechado. Na quarta-feira de manhã, os atendimentos recomeçaram às 8 horas. Consultas agendadas podiam prosseguir — se o paciente trouxesse o papel de agendamento, os médicos os receberiam. Mas havia uma exceção importante: qualquer coisa que dependesse do sistema informatizado não podia ser feita. Encaminhamentos, solicitações de exame, tudo aquilo que exigia acesso aos computadores estava suspenso.
Isso criou um dilema para os pacientes. Denise Antoni, uma mulher de 59 anos aposentada, foi ao centro para pegar um formulário de solicitação de exame. Ela havia adiado a ida no dia anterior, sabendo que a falta de luz tornaria a visita inútil. Agora, moradora do Centro da cidade, ela enfrentaria uma jornada de ônibus até o Centro de Saúde Santa Marta, em outro bairro, na esperança de conseguir que gerassem a solicitação lá. Regina Capitani, de 67 anos, que mora no bairro Menino Deus, havia ido marcar uma consulta para investigar uma deficiência de vitamina D. Quando soube que o sistema não estava funcionando, decidiu simplesmente esperar. Não era urgente, raciocinou. Voltaria quando as coisas normalizassem.
A vacinação havia sido suspensa completamente. Os imunizantes foram retirados do prédio para evitar que se estragassem pela falta de refrigeração adequada. Jurema de Freitas Martini, uma mulher de 75 anos, havia planejado tomar as vacinas da covid e da gripe naquele dia. Ela era cliente habitual do centro e não queria ir a outro lugar. Mas aceitou a situação com uma resignação que revelava algo sobre como as pessoas lidam com desastres: ela culpava o temporal, não a unidade de saúde. Também estava sem água em casa. Esperaria, disse, sem estresse.
O que emergia daquelas conversas era um padrão: o sistema de saúde pública da cidade havia sido ferido, e agora os pacientes estavam se reorganizando em torno dessa ferida. Alguns adiavam o que não era urgente. Outros se deslocavam para outras unidades. Alguns, como Denise, enfrentavam jornadas extras pela cidade. Ninguém estava em pânico, mas todos estavam contornando um problema que não era culpa deles. Um novo alerta de tempestade havia sido emitido para aquela mesma quarta-feira, com ventos que se esperava fossem menos intensos que os da segunda-feira. A questão que pairava era se a infraestrutura de saúde conseguiria se recuperar completamente antes de a próxima tempestade chegar.
Notable Quotes
Estamos atendendo todas as consultas agendadas, mas não conseguimos fazer encaminhamentos ou solicitações de exames que dependem do sistema— Silvia Corrêa, enfermeira e coordenadora do Centro de Saúde Modelo
Não é culpa daqui, e sim do temporal. Também estou sem água. Vou esperar, sem estresse— Jurema de Freitas Martini, 75 anos, paciente que adiou vacinação
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a energia em meia fase é tão problemática? Não deveria ser melhor que nada?
Meia fase significa que apenas parte do prédio tem energia. Alguns sistemas funcionam, outros não. É como tentar dirigir um carro com metade do motor — você se move, mas não vai para onde precisa. No caso de um centro de saúde, significa que você pode atender um paciente para uma consulta simples, mas não consegue gerar um exame ou fazer um encaminhamento.
E por que os imunizantes precisam ser retirados?
Vacinas são medicamentos vivos ou semi-vivos que precisam de uma temperatura constante para não perder a eficácia. Sem refrigeração confiável, elas se degradam. É melhor perder um dia de vacinação do que aplicar vacinas que não funcionam mais.
Os pacientes pareciam frustrados?
Não exatamente frustrados. Resignados, talvez. Eles entendiam que era um problema de infraestrutura, não de negligência. Mas havia um custo real — pessoas adiando cuidados, tendo que se deslocar para outras unidades, perdendo tempo.
Isso vai se resolver rápido?
Provavelmente. A energia já estava voltando — o Centro de Saúde Modelo já tinha energia parcial na quarta-feira. Mas o temporal havia deixado 11 unidades ainda sem nada. E havia um novo alerta de tempestade para aquele mesmo dia. A cidade estava em uma corrida contra o tempo.
Qual é o risco real aqui?
Se outro temporal forte atingir antes da recuperação completa, o sistema de saúde pública fica ainda mais frágil. E há pessoas que precisam de cuidados que não podem esperar — gestantes, diabéticos, pessoas com doenças crônicas. Eles não desaparecem porque a energia caiu.