Os edifícios funcionam como armas de destruição maciça
O sismo venezuelano foi um 'doublet' raro: dois abalos de 7,2 e 7,5 em 39 segundos, ambos superficiais e próximos de áreas urbanas densas. Um sismo de magnitude 8,3 no Mar de Okhotsk (2013) a 609 km de profundidade não matou ninguém; o Haiti (2010) com magnitude 7,0 teve 200 mil mortos por construções frágeis.
- Dois sismos de 7,2 e 7,5 magnitude em 39 segundos na Venezuela, ambos superficiais
- Haiti 2010: magnitude 7,0 com 200 mil mortos; Chile 2010: magnitude 8,8 com 500 mortos
- Mar de Okhotsk 2013: magnitude 8,3 a 609 km de profundidade, zero mortos
- Sistema PAGER do USGS previu 10 mil a 100 mil mortes para o sismo venezuelano
Um sismo de magnitude 7,5 na Venezuela matou centenas porque ocorreu superficialmente perto de cidades com construções vulneráveis. A magnitude mede energia, não destruição; fatores como profundidade, localização e qualidade das infraestruturas determinam o impacto humano.
A magnitude de um terramoto não mata ninguém. Isto é o que os sismólogos repetem há décadas, e a tragédia que se desenrolou na Venezuela no final de junho ilustra perfeitamente por que razão essa distinção importa tanto. Dois sismos violentos atingiram o país em menos de um minuto — primeiro um abalo de magnitude 7,2, depois, apenas 39 segundos depois, outro ainda mais forte, de magnitude 7,5. O Serviço Geológico dos Estados Unidos designa este tipo de sequência como um "doublet", dois eventos sísmicos de magnitude semelhante que ocorrem muito próximos no tempo e no espaço. Na prática, isto significou que a Venezuela não sofreu um terramoto forte seguido de tempo para reação e recuperação inicial. Sofreu dois choques violentos, o segundo maior que o primeiro, quase sobrepostos, antes de edifícios, serviços de emergência e populações tivessem sequer conseguido processar o primeiro impacto.
O número de mortos confirmado pelas autoridades venezuelanas já chegou às centenas e continua a agravar-se. Há milhares de feridos. Edifícios foram destruídos em várias regiões do norte do país. Mas a pergunta que este desastre levanta vai muito além das fronteiras da Venezuela: porque é que um sismo de magnitude 7,2 ou 7,5 pode causar centenas de milhares de mortos num país e quase não fazer vítimas noutro? A resposta começa por desfazer um dos maiores equívocos sobre os terramotos. A magnitude mede a energia libertada pela Terra. Não mede quantas pessoas vivem perto do epicentro. Não mede se os prédios foram construídos para resistir a abalos. Não mede a profundidade do sismo, nem se houve tsunami, incêndios, deslizamentos ou liquefação dos solos. Dois sismos praticamente iguais na escala de magnitude podem ter consequências humanas completamente diferentes.
O que realmente mata são os edifícios, a exposição das populações e a vulnerabilidade das infraestruturas. Roger Bilham, geólogo da Universidade do Colorado, formulou a ideia de forma particularmente dura depois do sismo do Haiti de 2010: em muitos terramotos recentes, disse, os edifícios têm funcionado como "armas de destruição maciça". No Haiti, muitos prédios colapsaram porque não tinham qualquer resistência sísmica. A comparação entre o Haiti e o Chile ilustra isto com clareza brutal. Em 2010, um sismo de magnitude 7,0 no Haiti provocou mais de 200 mil mortos numa capital com edifícios extremamente vulneráveis. Poucas semanas depois, o Chile sofreu um terramoto de magnitude 8,8 — quase duas dezenas de vezes mais energia — com cerca de 500 mortos. O país tinha normas de construção muito mais exigentes, edifícios preparados para resistir a grandes abalos e uma população habituada ao risco sísmico. A diferença não esteve na magnitude. Esteve na vulnerabilidade.
Os especialistas identificam vários fatores que, em conjunto, explicam a maioria das diferenças entre grandes terramotos. A localização é o primeiro: quanto mais próximo estiver o epicentro de uma grande cidade, maior deve ser a destruição. Um sismo de magnitude moderada diretamente sob uma área urbana pode causar muito mais danos do que outro bastante mais forte ocorrido numa região remota, no oceano ou no deserto. A profundidade é o segundo fator. Os sismos superficiais libertam a energia muito perto da superfície, fazendo com que as ondas sísmicas cheguem aos edifícios praticamente sem perder intensidade. Um sismo muito profundo pode libertar uma enorme quantidade de energia, mas essa energia dissipa-se antes de atingir a superfície. Em 2013, um sismo de magnitude 8,3 atingiu o Mar de Okhotsk, na Rússia — um dos maiores deste século — mas ocorreu a cerca de 609 quilómetros de profundidade e não provocou vítimas mortais. A qualidade das construções é o terceiro fator. Os estudos científicos sobre mortalidade em terramotos mostram que a esmagadora maioria das vítimas morre devido ao colapso de edifícios.
O tipo de solo também muda tudo. Solos sedimentares, antigos leitos de rios ou zonas aterradas podem amplificar as ondas sísmicas, fazendo com que bairros diferentes da mesma cidade sintam os abalos de forma muito diferente. Zonas construídas sobre rocha sólida tendem a sofrer menores amplitudes de vibração. Por isso, duas cidades à mesma distância do epicentro podem ter danos muito diferentes. Há ainda o problema dos fenómenos secundários. O terramoto de Lisboa de 1755 continua a ser um dos casos mais estudados do mundo porque não foi apenas um sismo. Foi uma sequência de catástrofes: primeiro o abalo, depois os incêndios que devastaram a cidade durante dias, depois o tsunami que atingiu Lisboa, o Algarve, Marrocos e outras zonas do Atlântico. A magnitude estimada, entre 8,5 e 9,0, é muito incerta porque o sismo ocorreu antes da era dos sismógrafos modernos. Mas a dimensão da tragédia não se explica apenas pela magnitude. Explica-se pela exposição de uma grande cidade à grande onda e às velas que tudo incendiaram, pela vulnerabilidade das construções, pela hora e dia a que tudo aconteceu e pelo encadeamento de destruição.
O sistema PAGER do USGS foi criado precisamente para tentar responder rapidamente a várias perguntas importantes: não apenas "qual foi a magnitude?", mas "quantas pessoas foram expostas aos abalos?" e "quão vulneráveis são os edifícios na região afetada?". Nos sismos da Venezuela, logo depois de acontecer o de 7,5, a previsão apontava para 10 mil a 100 mil mortes e tudo estava em "red alert", alerta vermelho. A ciência olha para uma equação muito mais complexa do que a escala de magnitude. Um sismo de magnitude 7,5 a grande profundidade e longe de cidades pode ser sentido em milhares de quilómetros e, mesmo assim, não fazer qualquer morte. Um sismo de magnitude 7,0, superficial e junto de uma capital pobre, com construções rudimentares, pode ser catastrófico.
A proximidade da superfície de grandes cidades é uma das chaves para perceber a Venezuela. Os dois sismos ocorreram a curta profundidade — cerca de 10 quilómetros no caso do abalo de magnitude 7,5 e de pouco mais de 20 quilómetros no de 7,2 — e afetaram áreas habitadas do norte do país, incluindo zonas próximas da capital, Caracas, e da costa caribenha. Por isso o problema não foi só a energia libertada. Foi onde essa energia chegou. A Venezuela entra agora numa lista de comparações por uma razão ainda mais rara: não houve apenas um sismo de magnitude superior a 7. Houve um "doublet", dois grandes abalos em 39 segundos. Um primeiro choque capaz de danificar estruturas, seguido quase imediatamente por outro mais forte, capaz de agravar colapsos, surpreender populações já em pânico e dificultar qualquer resposta inicial. Em engenharia sísmica, isto é particularmente perigoso: edifícios já fragilizados pelo primeiro movimento podem falhar no segundo. A mesma magnitude não significa, portanto, a mesma tragédia.
Notable Quotes
Os edifícios têm funcionado como armas de destruição maciça em muitos terramotos recentes— Roger Bilham, geólogo da Universidade do Colorado
O que preocupa os sismólogos são sismos grandes ou de magnitude 7 que sejam superficiais e próximos de onde vivem pessoas— Susan Hough, sismóloga do USGS
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que a magnitude é tão enganadora? Parece ser o número que todos ouvem nos noticiários.
Porque a magnitude é apenas uma medida de energia. É como dizer que uma bala tem uma certa velocidade — isso não te diz nada sobre se vai atingir alguém ou se vai passar por cima de uma montanha deserta. A energia tem de chegar a pessoas, a edifícios, a infraestruturas.
Então o Haiti e o Chile tiveram sismos de magnitudes muito diferentes?
Não, é isso que torna a comparação tão poderosa. O Haiti teve 7,0 e 200 mil mortos. O Chile teve 8,8 — quase vinte vezes mais energia — e apenas 500 mortos. A diferença foi que o Chile construiu edifícios que resistem a sismos.
E a profundidade? Como é que um sismo de 8,3 não mata ninguém?
Porque ocorreu a 609 quilómetros de profundidade. A energia dissipa-se antes de chegar à superfície. É como gritar dentro de uma piscina muito funda — o som nunca chega ao topo.
Mas na Venezuela foram dois sismos em 39 segundos. Isso é diferente?
Muito diferente. O primeiro abalo já danifica edifícios. O segundo, mais forte, chega quando as estruturas já estão fracas. É como bater duas vezes na mesma parede — a segunda pancada derruba o que a primeira apenas rachara.
Então o que deveria preocupar os sismólogos?
Sismos grandes — ou mesmo "apenas" de magnitude 7 — que sejam superficiais e próximos de onde vivem pessoas. A magnitude é apenas uma parte da história.